
To Longe, To Perto!
Robin Jones Gunn
Srie Selena 9

Ttulo original: Now Picture This
Traduo de Myrian Talitha Lins
Editora Betnia, 2002
Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat





Para minha sobrinha, Amanda Joy Johnson,
Que sua vida continue a brilhar por muito tempo, querida.

A tranqilidade do lar de Selena  quebrada quando seus parentes chegam para passar alguns dias a convite de seus pais. Mas Selena no fica nem um pouco satisfeita 
com isso. O que ela mais queria era ter um tempo a ss para ler e reler as cartas do Paul, respond-las e manter acesa a chama do relacionamento to especial com 
ele. 
TO LONGE, TO PERTO! 
Na verdade, Selena est muito irritada. Afinal de contas, com tanta gente em casa fica difcil achar um lugar para ficar a ss com seus pensamentos. E alm disso 
a todo momento sua me pede ajuda nos afazeres domsticos. Para se sentir um pouco melhor, Selena comea a ocupar sua mente com idias de presentes para o Paul, 
que est estudando na Esccia. E acaba tendo uma tima idia: mandar uma foto sua num belo porta-retratos. Mas tem de ser a melhor, a mais perfeita fotografia que 
j tirou em toda a sua vida. Enquanto Selena tenta achar um tempo para tirar a foto, surge uma dvida em seu corao: ser que ela no est abrindo mo de coisas 
importantes - a famlia e os amigos - para investir em um relacionamento  distncia? Vale a pena estar concentrando sua energia e seu tempo em algo que no lhe 
traz segurana? Ser que Paul nutre em seu corao o mesmo sentimento que ela? Ser que esse relacionamento  to perfeito como a foto que Selena quer mandar para 
ele?


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Captulo Um

      - Algum v atender a porta, gente! gritou a me de Selena da cozinha.
      Selena, que estava subindo a escada com um envelope na mo, parou. Acabara de chegar da escola e pegara, na caixa de correspondncia, uma cartinha de Paul. 
Estivera esperando-a ansiosamente. Seu pensamento era s fechar-se no quarto e "beber" cada palavra dela. Fora por isso que subira a escada de dois em dois degraus. 
A lembrou-se de que, em seu quarto, estavam seu tio Matthew,  Abigail e os trs filhos do casal. No dia seguinte, teriam o grande almoo do "Dia de Ao de Graas". 
A famlia toda iria reunir-se em sua casa, um total de trinta e uma pessoas. Seria   recorde para essa festividade.
      - Harold, atende a porta pra mim? pediu a me, dirigindo-se ao marido, j que ningum lhe dera ateno da primeira vez.
      Selena dirigiu-se a um canto do corredor onde havia um cmodo pequeno e enfiou-se ali. Assim estaria fora da vista de quem estivesse chegando. No carimbo do 
envelope estava escrito, "Edimburgo". Abriu-o lentamente e desdobrou o papel fino. No alto da folha, Paul escrevera, com aquela sua letra grande, em tinta preta, 
uma pequena poesia.
      
Quando chove, o mundo todo
Parece ficar sombrio.
Minha alma est silenciosa.
Pego a caneta e componho
Uma cantiga especial para voc.
      
      Selena respirou fundo e leu o poema de novo. Fechou os olhos, como que sonhando. Com um movimento rpido, inclinou a cabea para trs e bateu-a na parede com 
um pouco de fora. Antes que percebesse o que estava acontecendo, o globo da velha luminria que havia no teto se soltou e caiu. Bateu no carpete com um rudo surdo 
e partiu-se em dois. A garota pegou os pedaos, tentou ajunt-los e coloc-los de volta no lugar. No conseguiu. Eles simplesmente no paravam juntos.
      L de baixo, vinham as vozes da Tia Emma, do Tio Jack, e de Amanda e Kayla, as filhas gmeas. O pai os cumprimentava com seu vozeiro.
      - Oi, pessoal! Vamos entrando!
      Logo em seguida, Selena ouviu a me chamando-a, gritando para superar o barulho da porta.
      - Selena, estou precisando de sua ajuda aqui!
      - J vou, replicou ela.
      Dobrou a carta rapidamente, guardou-a no envelope e enfiou-o no bolso de seu bluso de moletom.
      - Volto j! sussurrou para a carta, dando-lhe uma batidinha de leve. Assim que puder!
      Pegou o globo quebrado e desceu apressadamente para cumprimentar os parentes. Entregou os dois pedaos ao pai, dizendo:
      -  da lmpada que fica no fim do corredor. Bati na parede e ele caiu. Desculpe, pai.
      - Ponha l na mesinha da entrada, respondeu ele, franzindo a testa. Depois que eu consertar a porta do armrio de louas, dou um jeito nele.
      A garota seguiu para a cozinha atrs das visitas. Sua me, toda ocupada preparando tortas de abbora, cumprimentou-os  sem os abraar. Os abraos ficariam 
para depois que ela colocasse as tortas no forno.
      - Selena, abra o forno pra mim, pediu a me.
      Ela procurara falar em tom calmo, mas a garota sabia que estava exausta. Emma aproximou-se e cumprimentou-a com um beijinho no rosto.
      - O combinado foi que voc esperasse que ns chegssemos para ajud-la, Sharon, disse ela. De qualquer jeito, quero lhe agradecer por estar fazendo tudo isso 
e aguentando essa agitao toda. Essa nova reunio da famlia inteira  muito importante pra ns.
      - Ns ficamos muito alegres de saber que todos vo poder vir, replicou a me de Selena com voz meiga. Vai ser timo!
      A garota teve vontade de fazer uma careta ao ouvir a palavra "timo", mas reprimiu-se a tempo. Tinha perfeita conscincia de que a me no achava nem um pouco 
agradvel ter aquele trabalho todo.
      - Cad a V May? indagou Emma, referindo-se  av de Selena.
      - Acho que est l em cima, informou a me com uma torta em cada mo.
      A garota abriu o forno e ficou a segurar a portinhola, que estava solta numa das pontas. Se a largasse, ela cairia para um lado. Na semana anterior, o pai 
tentara consert-la, mas ela bambeara de novo. Por isso, tinha de firm-la com a mo.
      Selena j ia fechando a boca do "velho drago" quando a me a deteve.
      - Espere a! Terem mais duas.
      - Selena, disse o pai, virando-se ligeiramente para a filha, vou acomodar o Jack e a Emma aqui na saleta. D uma corridinha l em cima e avise para V May 
que eles chegaram.
      A ltima coisa que a garota queria era ficar levando recadinho daqui para acol. Tinha de ler sua carta, aquela carta romntica e maravilhosa, que estava guardadinha 
em seu bolso.
      - Espere um pouquinho, interveio a me. Antes de ir l e cima, v dar uma olhada nos meninos pra mim. Acho que ele esto no quintal. Mas faz uma meia hora 
que no vejo sinal deles nem escuto nada. E no deixe o Brutus entrar em casa, no, viu?
      Selena deu um suspiro e, meio relutante, encaminhou-se para a porta dos fundos. Bem na soleira, havia um grande monte de folhas amareladas. Assim que ela abriu 
a portinhola de tela, elas esvoaaram escada abaixo.
      - Dilton! Kevin! gritou. Onde  que vocs esto?
      Em resposta, s ouviu um "Uuuuf" de Brutus, o enorme co da famlia, que Wesley, seu irmo mais velho, chamava de "grandalho peludo". A garota ficava feliz 
ao pensar que o irmo tambm viria passar o final de semana em casa. Ele estava no terceiro ano da faculdade. Embora estudasse em Corvallis, que ficava a apenas 
duas horas de viagem dali, viera poucas vezes em casa depois que as aulas haviam comeado. Dos quatro irmos de Selena, ele era o mais chegado a ela. Nos ltimos 
dias, a garota comeara a suspeitar de que ele arranjara uma namorada.  que o irmo havia dito ao pai que, no almoo do Dia de Ao de Graas, iria trazer uma pessoa 
a mais. O Sr. Jensen nem pensara em indagar se era um homem ou uma mulher.
      Wesley se oferecera para passar pelo aeroporto e pegar Tnia, a nica irm de Selena. Os dois e mais o convidado (ou convidada) misterioso deveriam chegar 
depois de 9:00h da noite.
      - Sinto muito, Brutus, disse ela, enfiando as mos no bolso do bluso.
      Seus dedos estavam gelados, mas assim que encostaram no envelope, ela sentiu uma grande satisfao interior.
      - Nos prximos dias, voc est proibido de entrar em casa, companheiro. Acho bom ir se acostumando com essa sua casinha a.
      A corrente que prendia o animal s ia at certo ponto do gramado. Ele soltou um latido forte, como que reclamando de seu isolamento.
      - , eu sei, dialogou a garota. Est difcil, n? Est difcil pra todos ns. Voc precisava ver onde eu vou dormir. Eu e a Tnia vamos dormir no cho, no 
quarto da V May, junto com Nicole, Tia Frida e Mary. Vai ficar bem apertado. E ainda por cima, papai disse que a Tia Frida ronca.
      O cachorro soltou um latido fraco, que ela interpretou como uma exclamao de quem compreende. A garota sentiu um arrepio de frio. As gotas geladas da chuva 
estavam caindo em seu cabelo louro e longo. A umidade natural de Oregon, o lugar onde morava, deixava seu cabelo ainda mais anelado do que de costume. Isso a irritava 
profundamente. Entretanto, como ele era grosso e pesado, no chegava a ficar muito volumoso. A maioria de suas amigas tinha o cabelo comprido e liso, mas elas viviam 
lhe dizendo que adoravam o dela, que era bem encaracolado e rebelde. Combinava com a personalidade dela, afirmavam. Selena, porm, trocaria de cabelo com qualquer 
uma delas com prazer.
      Puxou o capuz do bluso e cobriu a cabea.
      - No fica na chuva, no, Brutus! continuou. Sabe do Dilton e do Kevin?
      Nesse momento, notou que a luz da oficina de seu pai estava acesa. Antigamente aquele cmodo era todo preparado para as crianas brincarem. Contudo Harold 
Jensen o transformara num cantinho de trabalho, colocando ali sua banca e as ferramentas. Quem olhasse o barraco de fora pensaria encontrar l dentro menininhas 
vestidas com roupas de adulto, brincando de "casinha". Ao entrar, porm, veria uma coleo de ferragens, parecendo uma pequena loja, com luz fluorescente e as paredes 
cheias de ganchos.
      Selena esticou a perna para impedir que o co saltasse sobre ela e saiu correndo debaixo da chuva. j perto do barraco, gritou:
      - Dilton! Kevin! Vocs esto ai?
      Abriu a porta e avistou os dois irmos, ambos com menos de dez anos, empurrando o equipamento do pai para um canto do cmodo apertado. Sobre a banca, estava 
uma pilha de cobertores.
      - O que esto fazendo? No me ouviram chamar?
      - Ns vamos dormir aqui.
      - Quem disse? indagou Selena automaticamente, levando as mos aos quadris, num tom de voz que lembrava a me.
      - No queremos dormir no quarto do papai com aqueles outros meninos.
      - Com James, Bob e Marshall? Qual  o problema? Eles so nossos primos. Vocs vo gostar muito.
      Os dois garotos se entreolharam meio duvidosos. Nesse instante, Selena se lembrou de que eles no conheciam os outros muito bem, apesar de serem primos. Quase 
no tinham contato com aqueles meninos. Sabia como era a situao. Sentira o mesmo com relao a Nicole e Mary cinco anos atrs, quando haviam passado o Natal juntas. 
Na poca, as trs garotas, ainda na faixa dos onze e doze anos, tinham se desentendido muito. Haviam brigado para escolher a cama em que cada uma iria ficar. Contudo, 
ao trmino das festas de fim de ano, j estavam amigas. E o mais interessante era que, naquela ocasio, elas iriam dormir em camas, e no no cho. Nesse momento, 
Selena compreendeu como seus irmos se sentiam. Achavam-se em desvantagem em relao aos outros trs garotos, que no conheciam direito, e que ainda por cima tinham 
de tratar bem.
      - Mas por que no esperam um pouco? Brinquem com eles primeiro e podem at acabar gostando deles. Alm disso, aqui vai ficar muito frio.
      - No tem importncia, no. Ns pegamos todos os cobertores.
      - ? E vocs acham que mame vai gostar disso? Ela vai precisar deles para os convidados. Vamos l. Vamos pra dentro. Mame e papai esto esperando que a gente 
seja bem hospitaleiro.
      - Que  isso? indagou Kevin.
      -  tratar bem as visitas. Vamos. Peguem os cobertores.
      A garota abriu a porta e fez um gesto para os irmos para que eles dessem uma corrida em direo a casa, por causa da chuva. Os dois demoraram para pegar as 
cobertas. Mais pareciam refugiados de guerra indo embora de sua ptria.
      - Vamos, gente, falou Selena, pondo-se a correr  frente deles, debaixo da garoa contnua. Assim vo molhar os cobertores.
      Brutus saiu de sua casinha e veio ao encontro deles.
      - Volta! berrou a garota para ele. E nem pense em pular em ns. Fique em sua casa.
      - Brutus, interveio Kevin, seja hospitaleiro. Pelo menos voc vai dormir na prpria cama.
      Selena abriu a porta dos fundos. Chutou as folhas amarelas, que a essa altura estavam ensopadas, e gritou aos irmos que viessem depressa. Entraram na cozinha 
aquecida e cheia de aromas deliciosos. Assim que a me os fitou e viu a pilha de cobertores, arregalou os olhos.
      - O que vocs esto fazendo? perguntou. Essas cobertas molharam? Selena, por que voc deixou que eles pegassem isso?
      - Eu... eles... principiou a garota. 
      A me passou a mo por um cobertor e imediatamente se virou para a filha. Em tom irritado, disse:
      - V l no poro e coloque-os na secadora, em temperatura baixa. Tem de ser bem baixa para no estragar os que so de l. E ponha s dois de cada vez. Meninos, 
vo trocar de roupa. No quero vocs l fora mais. Est chovendo muito.
      Selena pegou os cobertores com um gesto brusco e comeou a descer a escada batendo os ps com fora. O poro estava frio e com cheiro de mofo. Enquanto descia, 
ia resmungando:
      "Procure os meninos, Selena! V dar uma olhada em sua av, Selena! Acenda o fogo! Varra a casa! Lave a roupa! Prepare o frango! Arrume o..."
      E aqui teve de interromper sua exagerada lista de tarefas.  que avistou o pai subindo a escada com o desentupidor na mo. A velha casa onde moravam volta 
e meia apresentava problemas de encanamento.
      - O banheiro de cima j est entupido, informou ele.
      Ele tambm parecia estressado, como a esposa. Tinha o queixo tenso, numa expresso de quem quisesse dizer:
      "Sai da frente!"
      Selena encolheu-se contra a parede, apertando junto ao peito a braada de cobertores, para lhe dar passagem. Evidentemente no era s ela que estava com o 
"complexo de Cinderela" nesse dia. E quando se aproximou da filha, Harold Jensen resmungou entre dentes:
      - Este final de semana vai demorar para acabar!
      

Captulo Dois
      
      O que Selena mais queria era achar um cantinho silencioso para ler a carta de Paul. Assim que ps na secadora os dois primeiros cobertores, recordou-se de 
que tinha de ir dar uma olhada na av. Amava muito sua avozinha, apesar de a senhora muitas vezes ficar meio confusa mentalmente. Teria de esperar um pouco mais 
para ler as palavras do rapaz. Precisava subir para verificar como V May estava.
      Se todos ns, que no temos nada, estamos nos sentindo estressados, pensou, como ser que V May est se dando com toda essa agitao?
      A imensa manso vitoriana onde residiam, na verdade, pertencia  av. Ela morava ali desde que havia se casado. Todos os seus nove filhos haviam nascido e 
se criado ali. O pai de Selena era o mais velho; Emma, a mais nova. O segundo chamava-se Paul, e morrera na guerra do Vietn. Os outros todos estavam vivos, e trs 
deles - Frida, Matthew e Emma - estariam ali para o feriado do Dia de Ao de Graas.
      Mais ou menos um ano atrs, a famlia de Selena viera morar com a av, que no estava mais podendo ficar sozinha. Sua condio mental variava bastante. s 
vezes se encontrava lcida e tranquila. Em outras, sofria confuses mentais, e a famlia tinha de vigi-la constantemente para evitar algum perigo.
      A garota bateu de leve a porta da av. No ouvindo resposta disse:
      - V May, posso entrar?
      Abriu-a devagar e deu uma espiada l dentro. A av estava sentada, dormindo na confortvel cadeira de balano que ficava perto da janela. Do rdio, vinham 
os sons suaves de uma msica clssica. Selena foi andando p ante p, procurando no pisar nos colchonetes que se achavam espalhados pelo cho. Pegou uma colcha 
em cima da cama e cobriu a av.
      A chuva tamborilava na vidraa das janelas, que datavam de 1915. A garota puxou as persianas e fechou as pesadas cortinas. O quarto ficou mais silencioso e 
protegido do frio. Virou-se e deu alguns passos para sair dali, mas a parou. Avistou suas roupas e outros objetos pessoais que se achavam junto  parede, perto 
do colchonete em que iria dormir. A me mandara que Selena e os irmos arrumassem seus quartos com muito capricho. Depois, deveriam tirar os pertences de que precisariam 
para o final de semana e lev-los para o lugar onde ficariam. Tudo isso para no incomodar os hspedes que ficassem nos aposentos deles.
      Junto com seus objetos estava um presente que ganhara em seu aniversrio, alis, o de que mais gostava. Sem fazer barulho, foi at l e pegou-o. Era um porta-retratos 
com moldura de metal. Assim que tocou nele, deu um sorriso. Aproximou-o do rosto e ficou a olh-lo em meio  semi-escurido do quarto silencioso. Do rdio, vinha 
o som doce de um violino e um violoncelo. Selena se ps a contemplar a imagem da foto: Paul.
      O rapaz estava vestido com uma roupa esportiva, de fazer caminhada. O cenrio era um ponto qualquer do planalto escocs. O vento atrapalhara seu cabelo escuro, 
que cara sobre a testa. O frio deixara seu rosto corado, com um brilho saudvel. Ao que parecia, ele estivera conversando no momento em que virou o rosto para a 
pessoa que bateu a foto. Tinha-se a impresso de que ele cara na risada. Selena fitou os olhos. Ele erguera ligeiramente uma das sobrancelhas. Os olhos azul-acinzentados 
quase reluziam, parecendo espelhar os reflexos de algum lago tranquilo que houvesse ali perto.
      Paul estava de p sobre uma ponta de penhasco, e a paisagem ao fundo perdia-se de vista. Era um cenrio tremendamente romntico: um cu muito azul e colinas 
verdes de aparncia aveludada, pontilhadas de touceiras de florzinhas rosadas.
      Para ela, aquilo no era apenas um retrato, uma simples foto. O que tinha nas mos naquele instante era uma janelinha uma moldura de metal reluzente. Por ela, 
Selena, de seu cantinho do mundo, avistava toda a vida de Paul.
      Desde junho, quando o rapaz viajara para a Esccia, onde fora estudar e morar com a av que enviuvara recentemente, Selena ficara a se indagar como seria a 
vida dele ali. A garota comeara a orar por ele - que se tornara uma pessoa muito importante para ela - desde Janeiro. Ela o conhecera por acaso, nessa ocasio, 
no Aeroporto de Heathrow, em Londres.
      Depois, Tnia, sua irm, se mudara para a Califrnia e comeara a namorar o Jeremy, irmo de Paul. Assim os caminhos de Selena e Paul voltaram a se cruzar. 
Mais tarde, na escola, ela recebera a tarefa de prestar servio voluntrio na Highland House, uma instituio que dava abrigo para os "sem-teto". Ali descobriu que 
o diretor da casa era um tio de Paul, de nome Mac. O prprio rapaz estava trabalhando l na poca em que Selena ia ali.
      Entretanto, apesar de todas essas ligaes com ela e dessas coincidncias estranhas, ele no demonstrara nenhum interece por Selena. Alis, certa vez tinham 
ido a uma encantadora lanchonete chamada Carla's Caf, no centro de Portland. Naquela noite, ele perguntara a Selena se era verdade que ela estava curtindo uma paixozinha 
por ele. Isso a deixou muito sem graa.
      E, ao que parecia, ele ficara espantado com a resposta dela. A garota dissera que achava que, quando Deus colocava duas pessoas em contato, ele sempre tinha 
um objetivo definido em vista. Em seguida, explicou que acreditava que os dois haviam se conhecido para que ela pudesse orar por ele. E o fato era que ela, mesmo 
contra a vontade, por diversas vezes se vira impulsionada a interceder pelo rapaz.
      Contudo agora, depois de alguns meses que ele fora para a  Esccia, algo parecia haver mudado nele. Mais ou menos no final das frias, ele lhe escrevera e 
pedira que passassem a se corresponder. Ela sugerira que se escrevessem via e-mail, mas ele replicou que gostaria que o fizessem pela "lesma-mail" mesmo, em vez 
do correio eletrnico. Queria que as cartas demorassem a "viajar" de um pas a outro, em vez de passarem imediatamente de um lado do mundo para o outro.
      Ento fazia j vrias semanas que estavam se correspondendo. Selena escrevia para o rapaz todos os dias. Por vezes, era apenas um postal ou um bilhete numa 
folha de caderno, escrito em plena aula. E ele tambm lhe mandava cartas com freqncia. Ele lhe falava dos cursos que estava fazendo. Contava sobre as pessoas com 
quem convivia. Relatava os ditos engraados de sua av. E certa vez descreveu o pr-do-sol visto atravs da vidraa da casa dela. Paul costumava expor-lhe ainda 
o que lhe passava no corao - seus sentimentos, as oraes que fazia, os pensamentos que lhe ocorriam quando estava sozinho. Em suma, ele abria o corao para Selena, 
e a garota tambm fazia o mesmo.
      Antes, quando queria "dar uma espiada" na vida de Paul, dispunha apenas das palavras dele. Agora, porm, contava com uma "janela". Olhando aquele porta-retratos, 
ela no via apenas as colinas, as florzinhas ou o bluso de couro que ele estivera usando no dia em que se conheceram. No. Via o rosto, os olhos e o sorriso do 
rapaz que tinha mexido com suas emoes. Isso nunca havia acontecido antes, com nenhum outro; pelo menos no da maneira como sucedera com Paul.
      Passou os dedos de leve no vidro que estava sobre o retrato - a sua "janela". Um sorriso lhe veio aos lbios. Ainda se lembrava de como suas mos haviam tremido 
no dia em que sua me lhe entregara o pacote, com o presente de Paul, na vspera de seu aniversrio. Ali mesmo, na cozinha, rasgara o envelope reforado com plstico 
de bolhas. Em seguida, sob o olhar da me e de Kevin, abrira o objeto. Estava embrulhado numa folha de papel de seda e atado com um barbante. Recordou-se de que 
pusera o barbante de lado, pensando que mais tarde iria fazer algo com ele. Junto havia um cartozinho com os dizeres:
      "Parabns, princesa dos lrios."
      Era como Paul a chamava.
      Assim que o desembrulhou, Kevin indagou:
      - Foi s isso que ele mandou? Um retrato?
      Selena teve vontade de chorar quando fitou o rosto simptico do rapaz. Se a me e o irmo no estivessem ali, com certeza teria dado um beijo no vidro.
      Agora, porm, estava no quarto da V May, envolta em silncio. L de baixo, da entrada, vinham as vozes de mais gente que chegava. O som subiu at onde ela 
se encontrava. Selena levou aos lbios a ponta do dedo indicador e a seguir tocou com ele o rosto de Paul, avermelhado pelo vento. Lembrou-se de que ainda no lera 
as ltimas palavras dele, guardadas no bolso do bluso.
      Sentou-se, com as pernas cruzadas a moda oriental, apoiou o porta-retratos sobre elas e pegou a carta. Ajeitou-se melhor para ficar mais perto da pequena lmpada 
que havia sobre a mesinha-de-cabeceira da av. Desdobrou o papel e leu, movendo os lbios silenciosamente. 

Quando chove, o mundo todo
Parece ficar sombrio.
Minha alma est silenciosa.
Pego a caneta e componho
Uma cantiga especial para voc.
      
      Selena, minha amiga.
      Aqui  de noite e est chovendo. Deu para deduzir isso? Estou na casa de minha av. Li sua ltima carta no trem, quando estava vindo para c. Vou passar o 
final de semana aqui. Confesso que li tudo duas vezes, as trs pginas.
      Concordo com o que voc disse sobre sua irm. Foi bom que ela tivesse escrito para a me biolgica, embora ainda no tenha recebido resposta - mesmo que nunca 
receba.
      Jeremy me mandou um e-mail na semana passada e contou que a Tnia resolveu voltar a estudar. Ela j lhe falou isso? Ele est aconselhando-a a fazer algumas 
disciplinas isoladas na faculdade. Lembrei-me de voc e das decises que ter de tomar com relao faculdade que vai cursor no ano que vem. Ainda me recordo de como 
foi comigo, no terceiro ano do segundo grau, quando tive de ficar pensando no que iria fazer. Que bom que voc ficou sabendo da tal bolsa de estudos e mandou sua 
inscrio a tempo. Acho que no ter nenhum problema para conseguir essa bolsa ou qualquer outra que tentar. No sabia que voc era uma aluna nota 10. Mas j devia 
ter percebido, pois parece ter resposta para tudo.
      Uma sbita batida na porta sobressaltou-a. Em seguida a porta se abriu, antes que ela tivesse tempo de guardar a carta e recolocar o retrato junto com seus 
pertences. Era Cody, um dos irmos mais velhos de Selena. Ele entrou seguido de Katrina, sua esposa, e de Tyler, o irrequieto filhinho do casal.
      - Ah,  a Tia Seli, disse ele para o garotinho, usando o apelido que o menino criara para a tia.
      Ele soltou a mo do filho, e este veio correndo em direo a ela, que continuava sentada no cho, as pernas cruzadas. Selena dirigiu um olhar apreensivo para 
a av que dormia na cadeira de balano. O rapaz seguiu o olhar dela e logo se corrigiu.
      - Oh, desculpe, disse em voz baixa, eu no sabia que V May estava tirando um cochilo.
      Antes que Selena tivesse tempo de levantar-se, o sobrinho veio correndo e pulou no colo dela, batendo o calcanhar da botinha bem no vidro do retrato de Paul.
      - Tyler! exclamou a garota em tom de repreenso.
      O garoto se afastou, sem entender a reao dela. Com o movimento, a carta de Paul se agarrou na perna dele, rasgando-se.
      - Tyler! gritou ela de novo.
      - Selena! interveio Katrina, censurando-a.
      A garota enfiou os pedaos da carta rapidamente no bolso, enquanto com a outra mo segurava os dedos do sobrinho. O pequenino estendera o brao para tocar 
o vidro quebrado.
      -No pegue nisso, disse. Vai cortar!
      - O que foi ai? indagou V May, piscando e afastando a coberta.
      - Nada no, v, replicou Cody, achegando-se a ela e dando-lhe um abrao.
      Katrina aproximou-se de Selena e arrancou o menino bruscamente do colo dela. Confuso e assustado, o pequenino se ps a chorar. A me pegou-o e foi em direo 
a porta.
      - Desculpe! disse a garota, olhando para a cunhada que se afastava.
      Percebera que a outra ficara com raiva. O garoto esperneava nos braos da me, tentando se soltar.
      - Quero a Tia Seli! dizia. Quero a Tia Seli!
      Katrina no atendeu. Segurando firmemente o filho que continuava a chorar, saiu do quarto fechando a porta. Os gritos dele foram se distanciando pelo corredor. 
Enquanto isso, Cody procurava acalmar V May, convencendo-a a deitar-se novamente. Em voz calma, explicou-lhe o que ocorrera.
      Selena sentiu o corao batendo forte. Como  que tanta coisa errada tinha acontecido assim, to depressa? Piscou para afastar as lgrimas e olhou para o porta-retratos, 
com o vidro quebrado, que ainda estava em seu colo. Pelo menos, ao que parecia, o vidro no cortara a foto nem sua roupa, ou pelo menos era o que esperava.
      Levantou-se e foi at a cesta de lixo, que ficava perto da porta. Segurando a moldura, deixou os cacos carem dentro dela. Aproximou a foto do rosto para examin-la 
mais de perto. Um pequeno fragmento do vidro ficara agarrado a ela. Bateu de leve na parte de trs do objeto e o caquinho caiu no lixo. Olhou o retrato novamente 
e mordeu o lbio inferior. O fragmento deixara nele uma marquinha. Fizera um corte bem em cima do corao de Paul.
      

Captulo Trs
      
      - Ele no tinha a inteno de quebrar nada, Selena, disse Katrina em voz firme.
      As duas estavam conversando num cantinho da cozinha, enquanto os outros familiares se serviam de uma sopa que a me da garota preparara. Eram trs papeles, 
que fervilhavam sobre o fogo. Todos j haviam chegado, com exceo de Wesley e Tnia. O nvel do barulho ali estava insuportvel. No aniversrio de Selena, no sbado 
anterior, tinha estado ali o mesmo nmero de pessoas. Contudo, naquele dia, ela no ficara to irritada com o rumor  das vozes e as risadas, como se sentia agora.
      - , eu sei, replicou ela. O problema foi que ele me assustou. Fiquei com receio de que cortasse o dedo.
      - Obrigada, disse a cunhada. Vou lhe pagar pelo que ele quebrou. Foi o qu? Um porta-retratos?
      Selena fez que sim.
      Precisa no, respondeu. A moldura no quebrou, no.  s o vidro, e eu posso comprar outro.
      A garota sorriu e a outra tambm.
      - Cad o Tyler? perguntou Selena.
      - Est dormindo na cama do Kevin. Ele no dormiu na viagem pra c, como eu esperava. Ento caiu no sono assim que parou de chorar.
      - Vou dar uma espiada nele, disse a garota. Se ele acordar e no souber onde est, pode ficar assustado.
      Katrina acenou que sim.
      - Obrigada, Selena. Quer que eu leve um prato de sopa para voc l?
      - No, mas voc poderia verificar se algum levou pra V May. Penso que a deixamos um pouco nervosa, e papai achou melhor que ela ficasse no quarto e jantasse 
l mesmo, em vez de descer pra c.
      - Eu vou verificar, concordou a cunhada.
      Selena sorriu e foi saindo, passando no meio do monte de gente. Subiu para o andar de cima, que estava mais silencioso. Dirigiu-se ao armrio que havia no 
corredor e pegou uma lanterna de mo. Quando era pequena, imaginava que aquele mvel era misterioso e que, se entrasse nele, sairia no pas de "Nrnia". Hoje at 
que ela gostaria de fazer uma viagem quele mundo imaginrio. Seria maravilhoso se pudesse tomar uma xcara de ch com a "Sra. Beaver".
      Tyler dormia profundamente na cama de Kevin. Selena acomodou-se num pufe que se achava no canto do quarto. Acendeu a lanterna, mas manteve o foco de luz voltado 
para o cho. Retirou a carta rasgada de dentro do bolso, decidida a ler o resto dela ainda naquela noite. Correu os olhos pelo inicio at chegar ao ponto em que 
parara.
      
      ... Mas j devia ter percebido, pois parece ter resposta para tudo. Quero dizer, no bom sentido. Sabe bem o que quer e entende a vida. Gostaria de ter tido 
essa lucidez quando era da sua idade. Acho que Deus permitiu que eu aprendesse pelo caminho mais difcil. Mas agora j aprendi. Com toda sinceridade, posso dizer 
que nunca senti tanta paz de esprito e nunca estive to perto de Deus como agora. Isso e timo! Ou como  que suas amigas diriam?  uma "coisa de Deus"? , com 
certeza isso  uma "coisa de Deus".
      Minha av resolveu que vamos economizar no sistema de aquecimento este ano. Eu j lhe disse que a casa dela  muito velha; no, velhssima. Ento, quando chove 
e faz frio, fica tudo mido e frio de verdade. Eu agora ando cheio de roupas, mesmo dentro de casa. Visto umas trs mudas de roupa, uma por cima da outra, e ainda 
ponho uma suter de l. Hoje, na hora do jantar, eu queria vestir meu bluso forrado de l de carneiro, mas minha av disse que isso era um insulto e me bateu com 
uma colher de pau. (No doeu nada. Eu estava com tanta roupa...)
      Ento agora estou escrevendo no meu quarto, nessa "racionada" casa escocesa. Estou com o bluso, e enrolado num cobertor de l. No conte isto a minha av, 
mas "roubei" uma das velas dela e trouxe para c. Entre um pargrafo e outro, paro e "descongelo" a mo nela.
      Pronto, est quentinha de novo. Bom, o que eu estava dizendo? Ah, sim,  noite est muito escura e chove forte. Os pingos de chuva batem na janela, parecendo 
bandoleiros de faroeste gritando: "Queremos entar! Aqui fora est muito frio. A dentro deve estar mais quente!" Mal sabem eles que a temperatura aqui  a mesma 
de l de fora. E aqui, ainda por cima, teriam de enfrentar a vov. L fora eles s tem de encarar o vento. Humm... acho que talvez eu v l ficar com eles.
      Que a paz de Cristo esteja com voc, querida Selena.
      Paul
      
      Selena deu um suspiro profundo e apagou a lanterna. Todas as vezes que acabava de ler uma carta de Paul, tinha a mesma sensao. Sentia uma intensa satisfao, 
mas tambm uma terrvel frustrao. Era que a carta dele acabara. O pouco "contacto" que tinha com ele chegara ao fim. Contudo restava aquele maravilhoso contentamento. 
Ser que ele sentia o mesmo quando lia as cartas dela?
      Sem fazer barulho, abriu um pouquinho a persiana s suas costas e deu uma espiada para a chuva l fora. Essa tambm estava como a que Paul descrevera - bandoleiros 
de faroeste batendo na vidraa. Ser que o rapaz sabia que era um timo poeta? Resolveu que lhe diria isso na prxima carta que  mandasse. Alis, iria comear a 
escrev-la naquele momento.
      Pisando de leve, foi at a mesinha de Dilton, seu irmo, abriu a gaveta e pegou uma caneta e algumas folhas de papel. Voltou ao pufe, levando um livro para 
nele apoiar o papel. Colocou a lanterna sobre o parapeito da janela, com o facho de luz voltado para ela, de modo que no brilhasse sobre Tyler. O garoto continuava 
dormindo tranquilamente. E ento ela se ps a escrever.
      
      Caro Poeta,
      Voc  poeta. Sabe disso, no ? Adorei o seu poema "Quando chove". E veio na hora certa porque aqui tambm est chovendo. Tambm estou pensando em voc. L 
embaixo tem  um milho de parentes nossos que vieram para comemorar o Dia de Ao de Graas conosco amanh. Mas arranjei um lugar tranquilo, perto de uma janela, 
onde os bandoleiros, os pingos de chuva, tambm esto batendo, querendo entrar. O mais engraado, porm,  que no parecem do faroeste. Tm sotaque escocs. Foi 
voc que os mandou para c, para me atormentarem? Se foi, por que no veio junto? Garanto que o deixaria entrar, e aqui dentro est mais quente do que l fora, na 
chuva e na escurido.
      
      E continuou escrevendo, enquanto Tyler dormia. Conseguiu encher quatro pginas. A, a certa altura, a porta se abriu. A luz do corredor clareou todo o aposento. 
Algum entrou e acendeu a do quarto. Selena fechou um pouco os olhos, procurando ver quem chegara. Tyler acordou e comeou a chorar.
      - Ah, desculpe! disse um garoto. Era Caleb, um de seus primos.
      - Minha me disse pra eu vir deixar minhas coisas aqui, continuou ele, pois  aqui que vou dormir. Por que ele est chorando?
      Caleb largou sua sacola de roupas no cho e se ps a estalar as juntas, nervoso.
      - Tem problema no, respondeu Selena, indo para perto do sobrinho a fim de tranquiliz-lo.
      Contudo, assim que tocou no menino, sobressaltou-se.
      - Oh, querido, disse, voc est com febre.
      Ps a mo na testa do garotinho. Estava molhada de suor. O pequeno chorou mais forte.
      - Caleb, v l e diga pra Tia Katrina vir aqui imediatamente.
      O garoto saiu correndo.
      - Quer beber gua, Tyler? indagou a garota.
      - Quero mame!
      - Ela vem j, benzinho. Espere, vamos tirar este agasalho.
      O menino se debateu, resistindo, mas Selena no cedeu, sabendo que ele iria se sentir melhor.
      - Pronto. Agora vamos tirar a meia.  pra voc ficar mais fresquinho.
      Nesse momento, Katrina entrou apressada e logo assumiu o controle da situao. Calmamente pediu a Selena que lhe trouxesse uma toalhinha molhada e depois fosse 
procurar um antitrmico em sua frasqueira, no banheiro. Quando a garota retornou, ela estava embalando o filho no colo. Ele parara de chorar e chupava dois dedinhos. 
Assim que a garota entendeu que fizera tudo que poderia, pegou os papis e disse a cunhada que iria sair dali.
      -  o dever de casa? quis saber ela.
      - No, replicou Selena, sentindo o rosto avermelhar-se.  s uma carta.
      - Ah, exclamou Katrina, com um sorriso de quem entendeu tudo. Uma hora dessas quero que voc me fale sobre ele.
      Selena fez que sim com um movimento de cabea e em seguida saiu. Pouca gente sabia a respeito de Paul e de seu relacionamento com ele. Cris era uma. Mandara 
alguns e-mails para essa amiga, pedindo-lhe sua opinio em algumas questes. Tambm falara um pouquinho sobre ele com a Vicki, sua melhor amiga. E Tnia, obviamente, 
tinha conhecimento de que ela mantinha essa correspondncia com o irmo do Jeremy. Mas era s. Sua relao com ele no era como um namoro, em que o rapaz vem  sua 
casa dia sim, dia no. Na verdade, a amizade deles se resumia apenas numa troca de cartas, que vez por outra lhe chegavam. E geralmente era ela que pegava toda a 
correspondncia na caixa do correio. Assim o resto da famlia no sabia bem da frequncia com que o rapaz lhe escrevia.
      Selena parou no corredor, sentindo-se meio perdida. No sabia para onde deveria ir. Talvez no devesse ir ao seu quarto guardar a carta. Algum poderia estar 
l, tentando dormir. No da V May, alm desta, poderia haver outras pessoas. Ento no dava para ir para l. Afinal concluiu que o melhor a fazer seria guard-la 
na sua mochila, que estava pendurada num cabide, no andar de baixo. Dobrou as finas folhas de papel e enfiou-as de volta no bolso do moletom. Em seguida, desceu. 
O barulho aumentava a cada degrau que pisava. Assim que chegou prximo  porta da entrada, esta se abriu e Wesley e Tnia : entraram.
      - Oi! gritou o irmo, saudando-a, a voz possante muito parecida com a do pai.
      Selena abraou-o e logo olhou por cima do ombro dele para ver se a nova namorada viera tambm. Viu apenas Tnia, sacudindo as gotas de chuva do agasalho e 
alisando o longo cabelo. Na ltima vez em que estivera com a irm, o cabelo dela estava tingido num tom castanho-avermelhado. Hoje estava louro-platinado, bem mais 
claro que a cor natural dele. Tambm cortara uma franjinha comprida, meio repicada. Parecia outra pessoa.
      - Puxa! exclamou a recm-chegada, tirando o casaco antes de acabar de entrar. Aqui, quando chove, chove mesmo. Que noite!
      - Voc ainda no viu nem a metade, murmurou Selena no ouvido dela enquanto a abraava.
      Para sua surpresa, a irm lhe deu um beijinho no rosto. Isso tambm era novidade. Tnia nunca fora muito de tomar a iniciativa em gestos afetivos. Dessa vez, 
porm, prolongou um pouco mais o abrao em Selena e cochichou-lhe:
      - Tenho algo pra lhe contar, mas voc tem de prometer que no vai dizer a ningum.
      A garota afastou-se para olh-la direto no rosto. , sua irm estava mesmo diferente! Tnia ergueu uma sobrancelha e ficou esperando que a outra respondesse.
      - Prometo, disse ela em voz bem baixa, para que nem Wesley ouvisse em meio ao rumor das vozes que vinham da cozinha e da sala.
      - Tnia! Wesley! exclamou o Tio Jack aparecendo ali
      Em seguida, virou-se ligeiramente para trs e gritou para os outros convidados que os ltimos dois membros da famlia haviam acabado de chegar. Em questo 
de instantes, o pessoal todo j estava ali, cercando-os. Tnia logo se viu envolvida pelos abraos e a alegria geral. Contudo ainda teve tempo de dar uma virada 
para a irm e lhe dizer apenas com os lbios:
      - Mais tarde!
      

Captulo Quatro
      
      Ningum dormiu direito naquela noite, vspera de feriado. Tyler continuava com febre e, vez por outra, acordava chorando. Caleb no conseguia dormir no mesmo 
quarto que o garotinho, ento levou seu colchonete para o andar de baixo. Por volta de trs da madrugada, o Tio Jack foi  cozinha pegar um copo de leite e tropeou 
no garoto. A certa altura, Marshall teve de ir ao banheiro, e o vaso entupiu de novo, chegando a transbordar. Assustado, o menino se ps a berrar, chamando a me. 
O pai de Selena se levantou e foi l para socorr-lo. No adiantou. A casa toda j havia acordado com o barulho, menos V May, ainda bem. Entre meia-noite e duas 
da madrugada, a idosa senhora havia falado dormindo, acordando todas as cinco que se achavam no quarto dela. A prpria Selena ficara um tempo desperta, preocupada 
com a av. Receava que ela se levantasse e tropeasse nas pessoas que estavam ali deitadas.
      Com tantos transtornos, mais a chuva incessante e os ventos assobiando no telhado,  hora do caf todo mundo estava de mau humor. Cada um tinha um caso para 
contar sobre os acontecimentos noturnos.
      Sharon Jensen acordara muito cedo. Alis, a julgar pelas olheiras, talvez nem tivesse dormido. Colocara o enorme peru no forno, ainda de madrugada. E de manha 
j estava com pezinhos e vrios bules de caf sobre o balco, para aplacar a fome daqueles famintos que vieram escada abaixo. Um ponto em comum para todos os membros 
da famlia Jensen era que gostavam de caf forte e puro. Ento a me de Selena preparou uma boa quantidade da bebida, e a casa se encheu do delicioso aroma.
      Afinal, a garota se cansou dos casos contados em torno da mesa e resolveu preparar uma bandeja com caf da manh para a av. Passou por duas tias que insistiam 
com sua me para que as deixasse ajudar na preparao do almoo. Foi ao armrio e tirou dele uma xcara de porcelana e um pires. Em seguida, preparou as torradas. 
Quando as colocava na bandeja, junto com um copinho de suco de laranja, sua me tocou-lhe o brao e disse:
      - Obrigada, filha. ser que voc pode ficar encarregada de ficar de olho em sua av hoje e amanh?  s pra verificar se ela est se alimentando direitinho, 
't bom? Acho que acabei me esquecendo dela.
      - Claro, me. Pode deixar que eu cuido disso. Tem mais algum servio que voc quer que eu faa?
      - As vasilhas, quando puder. Acho que a lava-louas vai ter de funcionar direto.
      Selena no sabia por que, mas detestava lavar as vasilhas. Quando era ela que tinha a iniciativa de faz-lo, aquilo no a incomodava muito. Via que estava 
ajudando a me sem ter sido mandada. Contudo, quando lhe pediam que o fizesse, sentia uma forte revolta interior e ficava irritada.
      Dessa vez no foi diferente. Entretanto reprimiu a emoo, firmando o queixo, e deu um sorriso forado para a me, que estava to tensa. Entendeu que aquele 
servio era o mnimo que poderia fazer para ajud-la, j que no dia anterior fizera to pouco.
      Teve de caminhar atentamente at o quarto da av. Conseguiu atravessar sem acidentes o "campo minado" em que a casa se transformara, cheia dos pertences dos 
hspedes. V May j se levantara e estava arrumando a cama. Parecia bem descansada e com a mente lcida.
      - Oh, Queridinha, voc  muito boa comigo! exclamou.
      Ela acabou de esticar a colcha e em seguida foi se sentar  mesinha que havia no canto do quarto, que Harold Jensen lhe fizera. Achava-se perto da janela, 
recoberta com uma toalha de estampado florido. Era ali que V May fazia as refeies quando resolvia comer no quarto. Sobre ela estavam tambm um saleiro e um pimenteiro 
antigos, no formato de um galo e uma galinha, que durante muito tempo tinham ficado no balco da cozinha.
      Selena depositou a bandeja sobre a mesinha e perguntou se ela queria que trouxesse mais alguma coisa.
      - No, no, replicou a av. Est tudo timo. Voc deve estar aflita para ir conversar com suas primas. No precisa ficar aqui, no.
      V May pegou a xcara com mos trmulas e levou-a aos lbios. Selena se deu conta de que, realmente, quase no conversara com os parentes, j que, na noite 
anterior, preferira dar mais ateno ao Paul. Contudo, pelo que sentia agora, o nico parente com quem desejava papear era Wesley. Queria lhe perguntar por que no 
trouxera o convidado que dissera que iria trazer. Alm disso, tinha vontade de falar com Tnia para arrancar dela o "grande segredo". Durante a noite, ficara a imaginar 
o que seria essa notcia que a irm tinha para lhe dar. Elaborara uma imensa lista de possibilidades. Afinal, porm, acabara reduzindo-as a quatro: Tnia voltaria 
a estudar, como Paul dissera; recebera alguma resposta de sua me biolgica; ficara noiva de Jeremy ou arranjara um excelente trabalho. Tnia era modelo, mas nem 
todo servio que lhe aparecia era do seu agrado. Um de que ela no gostara, por exemplo, fora umas fotos com roupas e acessrios no estilo "faroeste", em que tivera 
de ficar ouvindo msica country o dia inteiro. Ademais, em alguns deles o pagamento no era l grande coisa.
      Numa das vezes em que Selena perdera o sono durante a noite, pensara em ir conversar com a irm. Contudo as outras que dormiam no mesmo quarto iriam ouvi-las. 
Outro problema era que Tnia no era muito de bater papo  noite.
      E antes que Selena se desse conta do fato, a manh acabara. Primeiro descera para a cozinha a fim de ajudar um pouco a me. Depois subira para levar algo para 
cima. Depois descera de novo. E assim fora.
      Por volta de 2:00h, a turma toda se reunia na sala de jantar e nos cmodos adjacentes, onde estavam armadas algumas mesas extras. No centro da mesa principal, 
estava o peru assado*, belamente tostado. A chuva parara uma hora antes. Agora alguns preguiosos raios do sol outonal atravessavam espaos por entre as nuvens e 
as cortinas rendadas da janela. Contudo apenas os mais corajosos conseguiam chegar ao seu destino, pondo-se a danar sobre a melhor toalha de linho branco que pertencia 
 V May. E pareciam bailar de alegria entre as tigelas de molho e de pur de batatas.
      ___________________
      *O Dia de Ao de Graas, observado na quarta quinta-feira de novembro,  o feriado mais tradicional dos Estados Unidos e remonta a poca da colonizao.  
comemorado com um almoo em famlia, sempre com o mesmo cardpio: peru assado (servido com um recheio especial), pur de batatas, molho branco, creme de cranberry 
(uma frutinha tpica dos Estados Unidos) e torta de abbora moranga de sobremesa. (N. da T.)
      
      Todos ficaram de p e deram as mos. Tyler, que j recuperara o bom humor, fez questo de ficar perto de Tia Seli e segurar na dela. Katrina havia explicado 
que a causa da febre e da inquietao dele de noite fora um dente molar que rompera no dia anterior. Selena no entendia como as mes conseguiam descobrir esses 
fatos.
      V May achava-se  cabeceira da mesa, sorrindo contente e parecendo maravilhada de ver tantos familiares ali juntos. Os alegres raios de Sol, ao que parecia, 
tinham acabado encontrando nos cabelos dela seu refgio final. E ali ficaram. Selena sorriu consigo mesma, ao olhar para a av, de p e bem aprumada, sem saber que 
sobre sua cabea havia um belssimo halo.
      Afinal todos silenciaram e V May pronunciou uma bno sobre toda a famlia.
      - Que Deus continue a derramar sua graa e misericrdia sobre nossa famlia. Que possamos viver todos os dias para ele e, com o corao cheio de amor. E que 
nunca nos esqueamos de ser gratos ao Senhor.
      - Amm! respondeu um dos homens.
      - Harold, continuou a av, virando-se para o pai de Selena, quer fazer o favor de orar, dando graas ao Pai celeste?
      - Claro, replicou ele. Vamos orar.
      Todos inclinaram a cabea e ele se ps a fazer uma orao eloqente e prolongada. A famlia Jensen tinha muitos motivos para dar graas a Deus.
      Selena estava ao lado de sua me, prximo da porta da cozinha. O pai continuava a orar. De repente, ela sentiu um cheiro de queimado. Durante o dia, diversos 
tipos de aroma haviam "percorrido" a casa. Mas esse era diferente; e nem um pouco agradvel. A garota soltou a mo do sobrinho e foi  cozinha. Olhou para o fogo. 
Todas as trempes estavam apagadas. Virou-se para o forno e foi ento que notou pequenos filetes de fumaa escapando dele.
      Agarrou um pegador de panela e abriu-o. Dentro havia uma assadeira com batata-doce. No mesmo instante, algumas chamas saltaram de dentro dele em direo a 
ela, buscando mais oxignio para queimar. Ela soltou um grito e instintivamente cobriu o rosto com o brao para se proteger do fogo. A me veio correndo no mesmo 
instante e deu um chute na tampa do forno para fech-lo. As chamas continuaram, atingindo o armrio que ficava logo acima do fogo. Ali, ela guardava diversas vasilhas 
de mantimentos que no cabiam na despensa. Imediatamente o cheiro de plstico derretido encheu o ar. Nesse momento, Selena percebeu que a manga de sua suter estava 
queimando e arrancou-a do corpo. Examinou a camiseta que usava por baixo e viu que o fogo no a atingira.
      - Fogo, pessoal! gritou Sharon Jensen. Saiam todos!
      Foi uma correria geral. Selena sentiu sua me empurrando-a para sair dali, pelos fundos. Seu pai apareceu  porta e gritou:
      - Onde est o extintor?
      - No poro, respondeu a me.
      A garota pensou em ir ela prpria busc-lo, mas algum a empurrou para a porta de trs. Todos falavam ou gritavam ao mesmo tempo. Assim que saram para o quintal, 
Brutus veio correndo de sua casinha e se ps a latir desesperadamente.
      Wesley estava atrs de Selena. Ela viu que ele estava contando as pessoas. Alguns haviam escapado pela porta da frente. Dois dos garotos mais novos deram a 
volta em torno da casa e pareceram no quintal.
      - Os bombeiros vo vir aqui? indagavam sem parar.
      - Selena, disse Wesley, corra ali na casa do Sr. Smith e ligue para o Corpo de Bombeiros.
      - Ns vamos com voc, disse um dos meninos.
      A garota no esperou. Saiu correndo. Ela j passara por essa situao antes. Meses atrs, quando estava na casa dos tios de Cris, na Califrnia, uma churrasqueira 
a gs explodira, e o tio da amiga ficara queimado. Ali tambm fora ela quem fizera a ligao para o socorro. O fato de j ter vivido aquela experincia serviu para 
que ficasse com a cabea bem calma. O Sr. Smith abriu a porta antes mesmo de Selena chegar a ela.
      - Que barulho foi aquele? indagou.
      - Fogo, disse ela, correndo para o telefone e discando o nmero da emergncia.
      Respirou fundo, esperando que atendessem, e em seguida deu calmamente todas as informaes necessrias. Menos cinco de minutos depois, os bombeiros chegavam. 
Logo mandaram que todos os presentes fossem para o outro lado da rua. Cada um tinha a prpria explicao sobre o incndio. E Selena relatou de novo como percebera 
o fogo. Correu os olhos pelo grupo e deu um suspiro de alvio ao ver que V May estava ali. Ela parecia bastante abalada, mas Emma estava com o braos nos ombros 
da me.
      - Uns marshmallows que estavam assando pegaram fogo, explicou Tia Frida para uns vizinhos que tinham corrido para casa da famlia Jensen. Sharon ps a assadeira 
no forno, em fogo baixo, s para dour-los um pouco. Mas nos esquecemos e fomos almoar. A meu irmo comeou a orar e fez uma orao muito comprida.
      - Voc est querendo dizer que foi culpa do meu pai? interveio Dilton, aproximando-se da tia e das pessoas com quem ela conversava. No foi culpa dele, no. 
A casa  que  muito velha, e toda hora estraga alguma coisa a. Na certa, o forno est com algum defeito.
      - Parece que apagaram o fogo, comentou Caleb. Ser que a gente pode ir l, ver se eles quebraram a vidraa com a machadinha, como fazem nos filmes?
      - Vamos aguardar at que os bombeiros digam que a gente pode entrar, replicou Tio Jack. Ou ento que o Harold aparea e acene avisando pra voltarmos.
      Selena congelou. Onde estava seu pai? Ser que fora ao poro pegar o extintor? Ele no tinha ficado preso nas chamas tinha? Novamente correu os olhos pelos 
presentes, que eram cada vez em maior nmero. Nem o pai nem a me estavam ali.
      

Captulo Cinco
      
      - Wesley, cad papai e mame? gritou ela, agarrando o brao do irmo.
      A chuva recomeara, e ela estava tremendo de frio, pois usava apenas a camiseta. Tinha deixado a suter na cozinha.
      - Achei que eles estavam aqui, respondeu o rapaz, correndo os olhos pelo pessoal.
      - Eu no os vi, disse Selena. E se eles tiverem ido para o poro e os bombeiros no souberem que esto presos l embaixo?
      - Gente, fiquem todos aqui, ordenou Wesley, pegando a irm pela mo e atravessando a rua debaixo de chuva.
      No momento em que chegaram ao outro lado, um dos bombeiros apareceu a porta e fez um aceno para o povo, indicando que poderiam voltar.
      - Onde esto meus pais? indagou a garota. Tudo bem com eles?
      - Tudo bem, claro. Graas a eles a casa no se incendiou.
      - Pelo menos, a maior parte dela est intacta. Seu pai conseguiu apagar o fogo com o extintor. O nico servio que fizemos aqui foi procurar pontos crticos. 
Mas tudo est bem. Parece que vocs vo poder ter o almoo de Ao de Graas, finalmente, s que sem as batatas-doces. E o peru hoje ser "defumado".
      Alguns dos familiares que estavam prximos e ouviram o comentrio dele deram risadinhas. Selena, porm, achou que fora uma piada de muito mau gosto.
      Mais ou menos uma hora depois, a famlia estava se sentando  mesa de novo. Todos tinham querido ir ver pessoalmente os estragos deixados pelo fogo. O forno 
no prestava mais, e os armrios acima dele haviam ficado bem danificados. Contudo o fogo no atingira mais nada, um fato espantoso, na opinio geral.
      O pior de tudo era o cheiro. O odor de fumaa impreganau tudo. As portas e janelas estavam todas abertas para arejar a ambiente. Por isso, o sistema de aquecimento 
estava ligado no ltimo grau. Ainda assim, alguns dos presentes tinham vestido agasalho. Selena riu consigo mesma. Paul iria se sentir bem em casa ali. No via a 
hora de pegar sua carta e acrescentar um longo PS.
      Harold Jensen orou de novo. Dessa vez, fez uma orao mais curta, em tom de humildade. Quando encerrou, todos disseram "Amm", concordando.  que compreenderam 
que tinham mais um motivo para dar graas a Deus.
      O alimento foi servido como estava, frio mesmo. Sharon Jensen falara em colocar tudo no microondas, prato a prato, mas os outros a convenceram de que estava 
bom daquele jeito. Conforme a tradio, o pai de Selena foi fatiando o peru e passando aos outros. Em seguida, comearam a comer silenciosamente. Alguns se entreolhavam, 
esperando que algum dissesse algo. Afinal a me de Selena no aguentou mais. Largou o garfo e disse:
      - Isto est horrvel. Tem gosto de fumaa!
      Sua voz saiu meio sufocada, misturada a lgrimas. Em seguida, porm, ela soltou uma risada nervosa. Isso serviu para desfazer a tenso, pois todos se puseram 
a rir e a fazer piadas sobre a comida, acompanhando a dona da casa. No fim, ningum.comeu nada, a no ser as azeitonas. Por alguma razo, elas no haviam ficado 
com sabor "defumado". Tiveram de jogar todo o almoo na lata de lixo. Normalmente, eles iriam guardar os restos do peru para depois fazerem sanduches com ele.
      A nica parte da refeio que estava "comvel" eram as tortas de abbora.  que, assim que a me de Selena as fizera, ela as havia guardado numa caixa de isopor, 
no poro. Na cozinha no havia espao para mais nada. No momento em que ela comeou a servir a torta, a campainha da porta tocou. Era uma vizinha que lhe trazia 
uma vasilha com a mesma sobremesa.
      - Esta torta sobrou l em casa, explicou, e achei que, como houve o incndio aqui, vocs iriam precisar de mais algumas.
      - Obrigada, disse Sharon. Ns j amos mesmo comer a sobremesa.
      Contudo, antes que a cortassem, apareceu outra vizinha. Essa trouxe uma bandeja com fatias de peru e duas tortas. A me de Selena agradeceu e colocou-as ao 
lado das outras sete que j estavam no balco da cozinha.
      - Daqui a alguns anos, disse ela, partindo pedaos bem grandes, vamos nos lembrar deste almoo de Ao de Graas, em que s comemos torta de abbora.
      Terminado o "banquete" de tortas, ainda havia duas sobrando. As mulheres se puseram a tirar a mesa. Nesse instante, a campainha tocou de novo. Era ainda outra 
vizinha com uma tigela cheia de recheio de peru e mais duas tortas.
      - L em casa, explicou ela, comemos tanto peru que no conseguirmos acabar com as tortas. Achei que talvez vocs pudessem aproveit-las.
      Selena ouviu o pai agradecer a mulher e depois levar a vasilha para o balco.
      - Parece que, a cada torta que comemos, ganhamos mais uma, comentou Wesley.
      - E pensar que tive um trabalho tremendo ontem para fazer todas elas, disse a me, com outra crise de riso misturada com lgrimas.
      Selena tinha pensado em dar uma fugidinha para o andar de cima e escrever a Paul. Entretanto achou melhor ficar ali para ajudar a me, antes que esta disparasse 
a chorar de fato. Foi para a pia e ficou a lavar as vasilhas. Foram duas horas de servio, com todo mundo lhe trazendo panelas, assadeiras, etc. A cozinha toda estava 
cheirando a queimado e precisava de uma boa limpeza. Parecia que as tias tinham prazer em ficar procurando os objetos com odor de fumaa. E cada uma que encontrava 
um, logo o entregava a Selena, dizendo:
      - Hummm! Cheira este prato!
      - Ei! Este castial est fedendo!
      E a garota ia s lavando. Vez por outra, esvaziava a pia e em seguida a enchia com mais agua e sabo, lavando mais coisas. Durante algum tempo, a Tia Emma 
estava enxugando as vasilhas. Depois, a me de Selena assumiu o posto. Uma hora mais tarde, foi Wesley quem veio da sala e assumiu a tarefa, como se eles constitussem 
um grupo de revezamento. Disse que o pessoal l estava querendo mais caf, ento a me foi fazer mais. O rapaz pegou o pano de prato e se ps a secar os copos que 
Selena estava enfileirando num canto. Tia Frida afirmava que teriam de limpar todas as prateleiras antes de recolocar nelas as vasilhas lavadas. Ento os copos ficariam 
ali mais algum tempo, aguardando que a tia terminasse de arrum-las. Em seguida, Tia Frida resolveu tirar tambm as cortinas para lavar.
      Mary, prima de Selena, filha de Tia Frida, recebera a incumbncia de cuidar das paredes, armrios e geladeira. Ento a jovem muniu-se de uma esponja para fazer 
o servio. O problema era que a todo momento vinha molh-la na pia. Da a pouco, a gua estava imunda. Selena comeou a ficar irritada. Sabia que tinham mesmo de 
lavar tudo. Contudo Mary poderia usar o detergente com esguichador, limpando em seguida com toalhas de papel, como Sharon Jensen sugerira e Selena ficava repetindo. 
Por que a prima insistia na esponja? Afinal Wesley interveio e sanou a dificuldade. Entregou  prima uma tigela grande, com gua e sabo e uma nova esponja.
      - Achei que voc ia trazer uma convidada hoje para o nosso almoo, disse Selena ao irmo. Agora voc deve estar feliz de no ter trazido, n?
      - Convidada no, retrucou o rapaz. Convidei foi um rapaz, um japons, que nunca tinha ouvido falar sobre o nosso tradicional Dia de Ao de Graas. Mas afinal 
ele preferiu ir ao almoo de um colega que mora l mesmo em Corvallis, em vez de passar todo o final de semana conosco. Ele vai ficar chateado por ter perdido toda 
a agitao que tivemos por aqui.
      - Ah! exclamou Selena. Pensei que voc tinha arranjado uma namorada e ia traz-la aqui.
      - No, no. Eu no!
      - Puxa, no tem nenhuma garota bonita l na escola? Quis saber Selena.
      - Muitas, mas no a menina certa pra mim.
      - E como seria essa menina certa? indagou Mary.
      - Bom, tenho uma lista de pr-requisitos.
      - Uma lista? continuou a prima. Tudo escrito direitinho?
      O rapaz olhou-a e fez que sim.
      - Voc no tem? perguntou ele.
      - Na cabea, sim, mas escrito num papel, no.
      - Ento escreva, sugeriu Wesley. Assim voc tem uma imagem mais definida do tipo de pessoa que quer.
      - E o que a gente deve escrever, por exemplo?
      Mary era uma garota baixa, usava culos e tinha nariz meio arrebitado. Geralmente era to calada que Selena se surpreendeu ao v-la cheia de interrogaes 
para seu irmo.
      - Voc sabe. So as qualidades de carter e de personalidade, boas metas de vida... Mas no tem nenhum dado fsico, como 1,65m de altura, olhos azuis. Nada 
disso.
      - Ento me d um exemplo de algo que conste de sua lista, pediu ela.
      O rapaz pensou um instante.
      - Bom, tem de ser crente e bem espiritual, algum que busca o Senhor e tem um relacionamento profundo com ele.
      - O que mais?
      Wesley olhou para a irm e deu um sorriso brincalho.
      - Quero algum que seja emocionalmente saudvel, explicou. De preferncia, emocionalmente "virgem".
      - Como assim? indagou Mary, franzindo o nariz.
      - Ah, uma moa que esteja guardando o corao para o rapaz certo. Uma garota que no ficou se apaixonando por todo cara que conheceu, desde que tinha doze 
anos. Quando chegar aos vinte e trs, as emoes dela j esto todas embaralhadas por causa dos namorados que teve.
      - Ah, voc est fora da realidade, replicou a garota abanando a cabea.
      Era um ano mais nova que Selena, mas tinha uma personalidade mais madura e sria do que a da prima.
      - No existe mais ningum assim, no, continuou. Principalmente quem j est com vinte e trs anos.
      - Ahn, fez ele incrdulo, dando outro olhar significativo para a irm. Sei no! Tem menina de dezessete que consegue guardar bem o corao. A gente pode ter 
esperana de encontrar algumas moas sensatas, que no tenham uma pesada bagagem emocional e possam comear um relacionamento srio.
      - E voc? Tem? falou Tia Emma, entrando na conversa. Voc pode dizer com toda sinceridade que no teve nenhum problema sentimental? Eu me lembro bem de uma 
certa beldade que veio com voc aqui num Natal, quando estava com uns dezessete ou dezoito anos.
      - Eu no disse que era emocionalmente virgem, replicou o rapaz, virando-se e encostando-se no balco da cozinha.
      Ele apoiou a mo na parede, como se estivesse procurando firmeza para aguentar o ataque verbal que iria receber em seguida, j que o aposento estava cheio 
de mulheres.
      - Isso  tpico de homem! exclamou Tia Frida. Querem uma mulher  perfeita, mas eles no tm de ser, no.
      - Eu no falei isso, defendeu-se Wesley.  apenas um ideal que tenho. Mas aceito a realidade dos fatos.
      - Aceita nada. Voc est com vinte e trs anos e ainda tem uma lista de pr-requisitos, rebateu a tia.
      Frida era a nica divorciada da famlia. Dizia para todo mundo que, ao se casar, estava totalmente despreparada para as realidades do casamento.  que achava 
que a nica questo com que tinha de se preocupar era se o rapaz era crente. E durante dez minutos, continuou a discutir com o sobrinho, dizendo que ele precisava 
assumir uma posio mais realista. Afirmava que a Bblia ensinava que os crentes tm de amar uns aos outros, e os mais fortes ajudarem os mais fracos.
      - No h nenhum verso que diga que s podemos nos casar com pessoas puras. Alis, se voc ainda no percebeu, no existe ningum que se encaixe nessa categoria. 
Todos ns somos falhos. Ento, amar de verdade implica ficar ao lado do outro e am-lo independentemente de suas falhas, haja o que houver.
      Wesley no rebateu o argumento, mas levantou outra questes.
      - E aquele verso de 1 Pedro que diz que temos de ter uma vida santa?
      - Mas todos ns falhamos, insistiu Tia Frida. "Santo" significa separado, no ? Pois . Ns nos tornamos "separados" quando entregamos a vida pra Jesus.  
ele que nos torna "santos". Isso no tem nada a ver com bagagem emocional.
      - Pois eu acho que tem, replicou Wesley. A gente est sempre tomando decises, todos os dias. E assim vamos guardando tudo no "armazm" do corao. O que estou 
dizendo  que quero encontrar uma mulher que tenha poucas "caixas de explosivos" guardados no "armazm" dela.
      Mary deu uma risada, o que ajudou a desfazer um pouco a tenso que se formara. Selena terminara de lavar a ltima vasilha e queria sair dali. Estava sentindo 
calor por causa da gua quente da pia. Estava um pouco nervosa tambm, com receio de que Wesley a citasse como exemplo de jovem que tinha um "armazm" vazio. Isso 
no era verdade. Ela j "estocara" alguns "pesos" emocionais nos ltimos meses. Inclusive j falara com o irmo sobre alguns deles, como, por exemplo, da Drake e 
Alex. E o irmo nunca lhe dissera que via erros nesses relacionamentos.
      A questo era que ele no sabia muito sobre uma outra caixa de explosivos chamada "Paul", que agora ocupava todo o espao do "armazm" dela. Pensara que o 
irmo havia compreendido o quanto esse relacionamento era importante para ela. Na realidade, ele no poderia saber. Fazia um bom tempo que ele no vinha em casa. 
Talvez nem soubesse que estava se correspondendo com Paul.
      Instantes depois, Selena deu um jeito de sair despercebidamente. Pegou a mochila no cabide que se achava perto da porta de entrada e subiu para o quarto de 
V May. Surpresa, constatou que no havia ningum ali. Apanhou a foto de Paul, que pusera embaixo do seu montinho de roupas. Ele continuava a sorrir, embora estivesse 
com um "corte" bem a altura do corao. Ficou a contempl-lo por um bom tempo, desejando que ele estivesse ali, naquele momento. Iriam sair e dar um longo passeio 
de mos dadas. No importava se estivesse chovendo, nem se o vento soprasse as folhas sujas e molhadas contra as pernas deles. Os dois estariam juntos, bem juntinhos. 
E para ela era s isso que importava. Embora no pudesse segurar na mo do rapaz, pelo menos tinha o retrato dele e suas cartas. E poderia tambm mandar-lhe uma. 
E foi ento que ali, sozinha, pegou uma folha de papel de caderno e se ps a escrever.
      P.S. Provavelmente este  o P.S. mais longo que voc ja recebeu. Talvez seja o maior do mundo. Faz menos de vinte e quatro horas que acabei de escrever esta 
carta, e j tenho outros fatos para lhe contar. Voc no ia acreditar no que aconteceu aqui.
      Selena sorriu. Levou a caneta  boca e ficou a gir-la. De certa forma, pensou, estava ali sozinha com Paul. Estava a ss com ele, embora a casa estivesse 
cheia de hspedes.
      

Captulo Seis
      
      - Est todo mundo ai? indagou Sharon Jensen, virando-se para trs.
      Ela se achava ao volante da van. Nos outros bancos do veculo estavam as mulheres da famlia, todas ajeitadas, com cinto de segurana e tudo. lam para um evento 
que, na opinio de Selena, era mais do interesse de sua me do que de qualquer uma das outras. Era sexta-feira  tarde. O "encontro" da famlia Jensen j estava 
se encerrando. E sua me decidira levar todas as parentes para tomarem ch num restaurante no centro de Portland.
      Selena fizera uma tentativa de ficar de fora do passeio. Todos haviam dormido mal, novamente, e a garota pensara em tirar um cochilo. Teria de trabalhar no 
sbado. O domingo era muito cheio de atividades, alm dos cultos da igreja. Ento sexta seria o nico dia em que poderia descansar no "feriado". Era verdade que 
passara relativamente poucas horas em companhia dos parentes.  que, sempre que podia, procurava um cantinho solitrio para escrever ao Paul; e estava apreciando 
muito esse isolamento. Sabia que eram todos seus parentes e ela lhes devia ateno, mas, no momento, no tinha o menor interesse neles.
      A V May ia no primeiro banco, ao lado de Sharon. Selena e Tnia estavam no ltimo, junto com Tia Frida, que era meio gordinha. Esta se inclinara para diante 
e conversava com Emma, que se achava no assento imediatamente  frente delas. Mary e Nicole, as primas adolescentes, estavam brincando de armar figuras com barbantes 
nos dedos, sob os olhares de Amanda e Kayla, as gmeas de sete anos.
      - O que voc queria me contar? cochichou Selena para a irm, aproximando-se mais dela para que ningum as ouvisse. Queria lhe perguntar ontem, mas no deu 
jeito.
      Tnia penteara o cabelo para trs, num coque estiloso. Alguns fios estavam meio espetados e fizeram ccegas no rosto de Selena quando esta chegou os lbios 
perto do ouvido da outra.
      - Resolvi voltar a estudar. Vou recomear em Janeiro, explicou Tnia.
      - Ah, o Paul me disse mesmo que voc estava pensando nisso.
      A irm fitou-a espantada.
      - Quando foi que voc conversou com ele? E como  que ele sabia?
      - Foi o Jeremy quem lhe contou, claro. E eu no conversei com ele, no. Ele me escreveu. Ns estamos nos correspondendo. E bastante! concluiu, dando nfase 
a essa ltima palavra.
      Tnia entendeu a insinuao e fez uma expresso de agradvel surpresa.
      - Oh, o Jeremy no me contou isso. Voc e o Paul esto trocando e-mails?
      - No.
      - No? Esto escrevendo com papel e tinta?
      Selena fez que sim. O carro passou por um quebra-molas, quando entravam na Ponte Hawthorne, e chegou ao corao da cidade, levando o bando de mulheres, todas 
falando sem parar. Chovia copiosamente.
      - Hummm! Que timo! exclamou Tnia. Eu no sabia vocs estavam... bom... o qu? Namorando por correspondncia?
      Selena sorriu. Gostou do que a irm dissera.
      - , acho que pode se dizer isso.
      - E como ? Com que frequncia escrevem um para o outro?
      A garota deu de ombros.
      - Sei no. Todos os dias. Dia sim, dia no. Ou at duas vezes por dia.
      Tnia arregalou os olhos muito azuis.
      - Ah, ento isso est ficando muito serio, irmzinha. Por que no me contou? Por que ser que o Jeremy no me disse nada? Ser que o Paul falou disso com ele?
      - No sei, replicou Selena.
      De repente, a garota sentiu um aperto no estmago. Talvez Paul no tivesse contado ao irmo por achar que sua correspondncia com Selena no era nada importante. 
E se ele pensasse assim? Era possvel que s ela achasse que o relacionamento deles era srio. No era possvel. O rapaz tinha feito uma poesia para ela. Ficara 
em casa sozinho, numa sexta-feira  noite, escrevendo para ela. Tentou recuperar a autoconfiana. Era claro que a relao deles era importante para o Paul, assim 
como era para ela. Ele j deixara isso bem claro por diversas vezes, no deixara?
      - Talvez seja melhor voc no comentar nada com o Jeremy, disse Selena, resolvendo usar de cautela. Quero dizer, pode ser que o Paul prefira contar ele mesmo. 
Se voc disser, vai estragar a surpresa dele.
      - , mas ele estragou a minha, contando que vou para Reno! retrucou a jovem.
      - Para Reno? Como assim? Voc disse que ia voltar a estudar.
      - E vou. Na Universidade de Nevada, em Reno, explicou Tnia, com uma expresso determinada no rosto.
      - Mas por que justamente em Reno? E o Jeremy? Por que no estuda em San Diego mesmo, j que  l que voc mora? Quero dizer, e o seu trabalho de modelo? Afinal, 
voc conhece algum l em Reno?
      - No; ainda no, explicou Tnia com ar meio enigmtico.
      - No estou entendendo nada, disse Selena. O Jeremy tambm vai se transferir pra l?
      - No. Falta s um semestre pra ele terminar o curso. Vai se formar em junho, como o Wesley. Ele acha que suporta passar esse ltimo perodo longe de mim. 
Acredita que suas notas talvez at melhorem.
      - J falou com mame e papai?
      - Ainda no. Primeiro vou esperar chegar a carta da escola, pra saber se me aprovaram. Pode ser que haja algum problema com meu histrico escolar.*
      ___________________
      *O ingresso nas universidades americanas e de alguns pases no se d por exame vestibular, como no Brasil. O estudante pode se inscrever em qualquer faculdade. 
A admisso  feita com base nas notas que o aluno obteve no segundo grau. Alm disso, o curso  pago, embora existam muitas ofertas de bolsas de estudos. (N. da 
T.)
      
      - Ainda no entendi por que voc quer ir estudar num lugar onde no conhece ningum; e vai pagar mais caro, j que  de outro estado.
      - Talvez pague, talvez no.
      Selena pensou em tentar extrair mais informaes da irm, mas nesse momento a me achou uma vaga na rua e estacionou, desligando o carro.
      - Pessoal, eu trouxe vrias sombrinhas, disse ela, oferecendo s convidadas o objeto mais importante para quem mora em Portland.
      Selena olhou para fora, e a primeira imagem que viu foi uma vidraa com a inscrio Carla's Caf, escrita em letras douradas, sob um toldo listrado. Sorriu 
e cutucou a irm.
      - Voc sabia que estvamos vindo pra c? indagou. Foi aqui que voc nos trouxe, a mim e ao Paul, na vspera da viagem dele para a Esccia.
      - No. No  a que vamos tomar ch, no, replicou a jovem.  num outro lugar que mame descobriu e que fica do outro lado do quarteiro.  um hotel antigo. 
Eles tm um salo s para chs. Voc no a ouviu falar sobre isso hoje de manh? E ali ainda usam alguns dos mveis utilizados no dia da inaugurao, no final do 
sculo XIX.
      - , acho que no escutei, no, comentou Selena, deslizando para o outro lado do banco.
      Saiu do carro, juntando-se ao grupo de mulheres que continuavam conversando alegremente. Dirigiu um olhar saudoso para o caf. Tinha esperana de que algum 
dia ela e Paul pudessem voltar ali e se sentar perto da janela da frente. Dessa vez, o dilogo deles seria diferente. O rapaz no precisaria perguntar se ela tinha 
uma "paixonite" por ele.  que j saberia, assim como Selena sabia, que o que sentiam um pelo outro no era uma simples paixozinha infantil.
      - Selena, chamou Tnia, no vai, no?
      As outras j haviam seguido e dobrado a esquina. A garota ficara parada  frente do caf, com a chuva molhando-lhe o cabelo. No se importava. Houve uma outra 
ocasio em que ela ficara mais molhada do que estava agora. Fora em fevereiro. Estava seguindo para casa, a p, levando um buqu de lrios para a av. Estava ensopada. 
Paul passara por ali de carro com alguns amigos e a vira na calada. Fora ento que comeara a cham-la de "princesa dos lrios".
      - J vou, respondeu, ainda imersa em seu devaneio.
      No tinha o menor desejo de ir tomar ch com aquela turma de parentes. Sua vontade era entrar no caf e se sentar na mesa que ocupara da outra vez, imaginando 
que Paul se encontrava do outro lado da mesa. Assim poderia sonhar sobre o que iriam conversar. Ele iria estender o brao e pegar a mo dela. Sorriria e diria:
      "Que bom que finalmente estamos juntos, Selena! Estou to feliz!"
      Deu um suspiro no momento em que dobrava a esquina. Tnia se achava trs passos adiante dela, segurando a sombrinha bem baixa, para proteger o cabelo. A me 
de Selena lhe pedira que se aprontasse com uma roupa chique, mas no conseguira. Afinal pusera uma saia longa, estampada, nas cores marrom e creme. Usava uma suter 
branco-trigo. Calava as velhas botas de cowboy que tinham sido de seu pai e meias grossas. Estava ciente de que a roupa no era clssica e elegante como a de sua 
irm. Contudo estava como gostava: confortvel, simples e muito original.
      Agora s queria que a Tia Frida parasse de olh-la com aquele ar de desagrado. A tudo estaria perfeito. Poderia at "curtir" um pouco o ch, em considerao 
 sua me.
      O salo de ch do velho hotel era realmente muito encantador. As mesinhas, que eram redondas, tinham quatro lugares. Do mesmo lado em que se sentaram, havia 
um piano de meia cauda. Quando entraram e foram ocupando seus lugares, o pianista tocava a msica "Pour Elise", de Beethoven, uma das prediletas de Selena. Sentou-se 
 mesa em que estava V May. As gmeas ficaram com as outras duas cadeiras.
      O garom aproximou-se. Usava uma camisa branca social,  um colete preto, e tinha uma toalha no brao. Citou o nome de todos os bolos e docinhos que estavam 
servindo naquela tarde e em seguida uma lista de chs. Selena pediu o de marionberry, que era tpico do Oregon. Foi servido num bule de porcelana com um coadorzinho 
de prata, j que era um ch de folhas, e no de saquinho. As meninas adoraram os detalhes decorativos. Os torres de acar estavam enfeitados. A vasilha de leite 
era pequena e delicada. O ch era acompanhado de pequenos sanduches cortados em forma de estrela ou de corao.  Havia tambm fatias de torta de abbora, em formato 
quadrado, com imensas "gotas" de chantilly.
      - No quero torta de abbora, no, foi dizendo Amanda. Estou enfarada disso.
      - Eu tambm, ajuntou Kayla.
      - Tudo bem, assentiu Selena. Se no quiserem a torta, no precisam com-la. Eu mesma estou meio enjoada dela tambm.
      Alis ela comera uma fatia de torta no caf da manh, e no fora a nica. Wesley e o pai tambm haviam comido.
      V May participava do grupo animadamente, ouvindo com ateno quando lhe dirigiam a palavra, mas nem sempre dando uma resposta. Selena percebeu que a mente 
dela estava comeando a "fugir" da realidade e mergulhar no seu mundo de esquecimento.
      - Este bolo de castanhas est delicioso, v, disse a garota. A senhora gostou?
      V May deu um sorriso educado. Olhou para a neta como se no soubesse quem ela era nem por que lhe dirigia a palavra. Contudo estava comendo direitinho, o 
que Selena achou muito  bom.  que, quando lhe levara o caf da manh, ela se limitara a dar uma beliscadinha na torrada. Nesse momento, a garota lhe serviu de um 
pouco do ch ingls.
      - Quer mais acar? indagou, procurando fazer com que a senhora lhe respondesse.
      - Deixe eu por? pediu Amanda e logo se virou para a av. Um torro ou dois, v?
      Percebia-se que aquele ch seria uma experincia inesquecvel para as duas meninas. Selena at se sentiu um pouco mais alegre de ter vindo, podendo quase voltar 
a ser uma "garotinha" novamente.
      - S um, respondeu a av, mexendo o ch com a colherinha, a mo relativamente firme. 
      Instantes depois, as duas garotinhas se mostraram cansadas de ficar ali paradas, embora as outras mulheres do grupo ainda  no estivessem. Selena sugeriu que 
fossem  loja de suvenires do hotel. Ento, deixando V May junto com Tnia e a me, elas foram: Selena com suas roupas comuns e as gmeas com seus vestidinhos de 
festa e laos de fita no cabelo. Cada uma segurou uma das mos da prima e saram. Pareciam superfelizes com as atenes especiais que estavam recebendo.
      - Quando eu crescer, quero vestir roupas iguais s suas, comentou Amanda. Voc  muito "chic", Selena.
      - Eu tambm quero ser igualzinha a voc, concordou Kayla. Quero ir  Europa muitas vezes, que nem voc.
      - Mas eu no vou muitas vezes, corrigiu Selena.
      - Minha me disse que vai. Ela falou que voc foi duas vezes este ano porque  uma garota de "esprito livre".
      - Kayla, interveio Amanda em tom de repreenso, do jeito que voc est falando parece que isso  errado.
      - No, insistiu a outra. Mame disse que antes de casar tambm tinha "esprito livre".
      - A Tia Emma falou isso? perguntou Selena no momento em que entravam na loja.
      - Falou, replicaram as duas em unssono.
      - Sabe o que mais? A me de vocs  muito "chic"!
      Kayla deu de ombros.
      - , mas no to "chic" como voc.
      Selena e suas pequenas admiradoras puseram-se a percorrer a loja de presentes do hotel, que de fato era uma graa. Viram uma mesa antiga, sobre a qual estava 
uma coleo de bules de ch ingleses e vrios outros acessrios. A garota avistou uma lata de biscoitos, com uma estampa xadrez tipicamente escocesa. Ficou feliz 
de ter enfiado vinte dlares na bota, que por vezes lhe servia de bolsa, quando no queria carregar a mochila. Pensou em comprar aqueles biscoitos, que comeria tomando 
ch e escrevendo para o Paul.
      J terminara sua longa carta para ele. Depois acrescentou aquele P.S. ainda mais comprido, que ela fora s esticando. Afinal, colocara dois selos no envelope, 
pois parecia bem pesado, e o deixara na caixa do correio, para que o carteiro o recolhesse.
      - Olhe s estes kits de costura, disse Kayla, pegando um pano preparado para ser bordado e mostrando-o a Selena.
      Ele se achava numa cesta, no cho, junto com vrios outros paninhos que estavam marcados com cinqenta por cento de desconto.
      - Muito legal, replicou a garota, dando uma olhada rpida para ele.
      O desenho mostrava a insgnia* de uma famlia nobre escocesa, e no alto estava escrito "MacIver".
      ___________________
      *Insgnia de famlia: figura representativa de uma famlia da nobreza. (N da T.) 
      
      - Voc gosta de bordar? perguntou para a prima.
      - Gosto, disse a menina. Amanda, no. Mas este aqui  muito feio. Deveriam fazer um desenho de flor ou planta...
      Selena olhou de novo para o kit. A insgnia da famlia MacIver era uma cabea de javali dentro de um crculo. Fez uma caretinha para Kayla e comentou:
      - Ihhh! Quem ia querer bordar um negcio desses?
      Voltou a examinar os bules e as xcaras de porcelana que eram muito bonitos. Ficou a apreciar tambm as latas de biscoito e algumas colherinhas de prata. A 
certa altura, viu uma latinha de ch escocs. Logo viu que ele combinaria bem com os biscoitos que queria comprar. Pegou todos os pertences para fazer o seu chzinho 
particular e foi andando em direo ao caixa. No meio do caminho, porm, veio-lhe  mente o kit de bordado com a insgnia da famlia "MacIver", e parou.
      - Kayla, disse, virando-se para a prima, naquela cesta com os kits de bordado havia outros panos com insgnias?
      A menina fez que sim. Selena voltou ali, abaixou-se e se ps a procurar algo. Se houvesse ali um kit com a  insgnia da famlia Mackenzie, iria compr-lo. 
Assim estaria resolvido o problema do seu presente de Natal para Paul. Iria bordar a insgnia e pr numa moldura. O rapaz iria adorar. Tomara que a figura no fosse 
um desenho feio como uma cabea de javali.
      

Captulo Sete
      
      Selena correu as mos pela cesta de kits  procura de um pacote com o nome "MacKenzie". Achou apenas um, bem no fundo. Pegou-o e examinou-o mais de perto. 
A insgnia era uma montanha, com trs colunas de fogo acima dela. Por uma frao de segundo, lembrou-se das batatas-doces e marshmallows queimados no forno, no dia 
anterior. Em volta da montanha, estavam escritas umas palavras em latim: Lucero non uro.
      - Que ser que significa isso? murmurou ela, erguendo seu "achado" com ar de triunfo.
      A quantia que trouxera foi suficiente para comprar o pano de bordar, os biscoitos e os acessrios para o ch. Contudo s lhe restaram sete centavos.
      - Ainda bem que aqui no Oregon eles no cobram imposto em todas as compras, comentou com Amanda e Kayla, seno eu teria de lhes pedir dinheiro emprestado.
      - Por que voc comprou isso? Vai bord-lo? quis saber Amanda.
      - Vou.  para dar de presente a uma pessoa muito querida. Est palavra aqui  o sobrenome dela, explicou, tirando o kit da sacola de compras. "MacKenzie", 
leu ela, sentindo prazer em dizer a palavra.
      - O que  isso a? indagou a garotinha, apontando para a figura.
      - Uma montanha com umas colunas de fogo, parece, explicou Selena. Bem melhor do que uma cabea de porco, n? comentou, dando um sorriso para as duas meninas.
      Elas riram. Selena estava gostando muito da companhia das priminhas.
      - Ser que o resto do pessoal j est querendo ir embora? perguntou.
      - Minha me, no, replicou Kayla. Ela sempre  a ltima que sai de qualquer lugar. Sempre tem mais algum com quem ela quer conversar.
      - Isso acontece com quem tem esprito livre, explicou a garota. Sempre tem mais algum com quem queremos conversar.
      Na verdade, a nica pessoa com quem Selena desejava falar naquele momento era Paul. Gostaria de poder preparar um ch completo para ele, servindo-lhe dos seus 
biscoitos e do ch ingls. E a idia ficou em sua cabea, acabando por se transformar em um plano.
      E enquanto as mulheres da famlia Jensen corriam para a van, debaixo de chuva, ela acabou de formular o plano. No Natal, iria mandar ao Paul uma caixa com 
um ch todo montado. Colocaria tudo em caixinhas numeradas pela ordem em que ele deveria abri-las. A primeira seria a do ch. Contudo no seria um ch ingls nem 
escocs. Enviaria um ch do estado de Oregon, talvez o de marionberry. Talvez fosse melhor mandar-lhe caf dali tambm, que era muito bom. Escreveria as instrues 
para ele fazer tudo direitinho. Ele deveria coar o caf ou  no ch enquanto estivesse abrindo os outros presentes. Em seguida, desembrulharia os comestveis. Seriam 
alimentos tpicos da regio tambm, como salmo defumado, biscoitos de mel e gelia de amora.
      E quanto mais pensava no que pretendia fazer, mais animada se sentia. Ia ser muito legal. Poderia mandar uma carta bem longa dentro da caixa, e por baixo de 
tudo estaria o bordado da insgnia. Que mais? Talvez um retrato dela tambm. ! Seria perfeito! Assim Paul teria uma "janela" pela qual poderia ver mundo de Selena 
e olhar para o rosto dela quando estivesse lendo o que ela escrevera.
      - Voc nem est me escutando, disse Tnia, dando-lhe uma cotovelada.
      As duas estavam sentadas no ltimo banco do carro, bem apertadinhas.
      - Que foi que voc disse?
      - Perguntei o que comprou na loja de suvenir.
      - Ah, ch e biscoitos.
      No sabia bem por que, mas hesitava em mencionar para a irm o pano para bordar com a insgnia MacKenzie. Ser que a outra acharia a idia boba? Jeremy tambm 
era da famlia MacKenzie. Ser que a irm iria dizer que deveria ter comprado um para o namorado tambm? Na loja, s havia um kit com o nome "MacKenzie".
      - Foi s?
      - Bom, comprei outro objeto, mas creio que voc vai achar muito bobo. Se achar, no diga nada, viu?
      - Por que eu iria dizer?
      - Simplesmente no diga nada, 't?
      Selena tirou o kit da sacola de compras e mostrou-o  irm, sem fazer nenhum comentrio.
      - Vai bordar isso?
      - Claro. Acho que no  muito difcil, no. No vai ser um timo presente de Natal para o Paul?
      - Ser que voc acaba antes do Natal?
      - Acabo, respondeu Selena, caindo na defensiva. No  muito grande, no.
      - , mas olha s estes pontinhos midos aqui. Eles no chamam isso de ponto "Paris"? Eu nunca teria pacincia de fazer um negcio desses.
      Bom, pensou a garota, pelo menos no preciso ter medo de ela querer dar o mesmo presente para o Jeremy.
      - Tudo bem, continuou a irm, sem qualquer emoo na voz. Divirta-se! Se no der para terminar antes do Natal, pode mandar um porta-retratos com sua foto.
      - , estou pensando em mandar isso tambm, explicou Selena.
      Ficou se indagando se a me havia contado para Tnia que Paul lhe enviara um retrato dele como presente de aniversrio.
      -  o que vou dar para o Jeremy. Tenho algumas fotos muito boas que fiz com um certo fotgrafo; e vou aproveitar agora que estou aqui para coloc-las em porta-retratos. 
A que ficar melhor, dou para o Jeremy e depois mando outra pra mame e papai.
      Selena achou que a idia da irm, de presentear os outros com fotos feitas por um profissional, era bem diferente da sua. Seu pensamento era bater um retrato 
no prprio quintal. Queria enviar ao rapaz uma "janelinha" pela qual ele pudesse ver o mundo dela, e no um pster para ele pregar na parede.
      Nesse momento, percebeu que havia algo escrito, em letrinha mida, atrs do pacote do pano para bordar. Aproximou-o do rosto para l-lo.
      - Olhe aqui, disse para a irm, pondo-se a ler em voz alta para ela. "O cl dos MacKenzie teve incio com Colin, pai do Duque de Ross. Ele faleceu em 1278, 
e seu filho Kenneth herdou o ttulo."
      - Em 1278? indagou Tnia. 
      -  o que diz aqui.
      -  impressionante como algum hoje pode traar sua linhagem at uma data to distante, n? Pelo menos aqueles que sabem de quem descendem, disse a jovem, 
dando um suspiro.
      Selena resolveu no responder nada. De vez em quando, Tnia ficava meio chateada pelo fato de ser filha adotiva e de no saber acerca de sua herana gentica. 
Alguns meses antes, ela descobrira o paradeiro de sua me biolgica e escrevera para ela. At o momento, porm, no recebera resposta. Na ocasio, a jovem dissera 
que o que importava mesmo era que havia escrito para a me. Contudo, agora, dava para perceber que se sentia meio frustrada pelo silncio da outra. Selena resolveu 
ler o resto da histria do cl dos MacKenzie.
      - A insgnia desse cl  uma montanha em chamas, circundada pelos dizeres Lucero non uro, que quer dizer 'Eu brilho, no queimo'. A famlia McKenzie tem tambm 
um distintivo com a figura da cabea de um veado, com o seguinte lema: 'Cuidkh' n righ', que significa: 'Auxiliar do rei'. Na lngua galica, o nome MacKenzie  
grafado assim: 'MacCoinnich'.
      - Selena, interrompeu Tnia em tom brusco, j entendi. MacKenzie  um nome escocs. Tudo bem. Mas por que est to preocupada com isso?
      - No estou, no, respondeu a garota. Pensei que voc teria interesse em saber a histria da famlia do Jeremy.
      - , mas isso  s do lado do pai dele, replicou a irm. Ele  descendente da famlia da me dele tambm, n? E o Paul tambm. Ah, Selena, hoje em dia as famlias 
esto to misturadas, que ningum mais pode dizer que  totalmente escocs, ou francs, ou seja l o que for.
      O jeito como ela disse isso foi to agressivo que a garota decidiu guardar o kit de bordado na sacola e mudar de assunto. Ficou com a impresso de que Tnia 
achava que j que ela no sabia de quem era descendente, ningum mais deveria saber.
      Contudo o desinteresse da irm no abateu seu entusiasmo pelo trabalhinho. Iria comear logo que chegassem em casa. E de fato, assim que pde, subiu para o 
quarto da av e encontrou-a j deitada. Selena se acomodou na poltrona que ficava perto da janela e pegou o kit. E, ouvindo as gotas de chuva tamborilando na vidraa, 
entregou-se  tarefa, cantando em voz baixa. Nunca havia feito um trabalho desses, mas sabia enfiar a linha na agulha, no sabia? Ento era s ler as instrues. 
O kit vinha com tudo de que precisava. No devia ser difcil.
      No dia seguinte, sbado, foi trabalhar. No momento em que  fez o intervalo do caf, pegou o bordado e deu uma adiantada nele. Queria fazer o mximo que pudesse. 
No dia anterior, no pudera bordar muito. Seus pais a tinham convencido de que precisava dar mais ateno aos hspedes que estavam de partida. Isso levou cerca de 
uma hora. Em seguida, haviam comeado a faxina geral na casa. J passava das onze horas quando foi se deitar. Pelo menos nessa noite j pde dormir em sua cama. 
E o quarto, graas  boa ajuda de Tnia, estava muito bem arrumado. Fazia meses que no o via assim.
      Selena trabalhava na confeitaria Mother Bear, famosa por seus deliciosos pezinhos de canela. Quando estava chovendo e fazendo frio, a loja ficava lotada de 
clientes, que buscavam o calor de um caf expresso bem quente e uma quitanda aucarada. E como nesse dia a confeitaria estava cheia, ela teve de fazer um intervalo 
mais curto. D. Amlia, a proprietria, veio lhe pedir para ir depressa ao almoxarifado buscar um pacote de caf. Ento teve de recolocar o bordado na mochila.
      S voltou a peg-lo  noite. Resolveu afastar-se um pouco da famlia, e foi para o quarto. E ali ficou tentando dar mais alguns pontinhos. Quando voltara do 
trabalho, comprara outro porta-retratos e um vidro novo para substituir o que se quebrara. Comprara tambm papel de embrulho de presente e um filme. Se no dia seguinte 
a chuva parasse, iria arranjar algum para bater uma foto dela.
      Entretanto a chuva continuou. Aps o culto, o pai de Selena levou a turma toda para almoar fora. A garota estava morrendo de fome. Pela manh, antes de sarem 
para a igreja, ela comera apenas uma fatia de torta de abbora. Kevin e Wesley tambm haviam feito o mesmo. Agora eles s tinham mais uma torta de resto.
      Selena terminou de almoar depressa e depois ficou sentada, esperando os outros. Estava ansiosa para voltar ao bordado. Decidiu ento que dali em diante passaria 
a lev-lo consigo sempre que sasse. Assim poderia ir trabalhando nele, enquanto os outros estivessem conversando  mesa. Alis, ela estava se sentindo muito aliviada 
de estar outra vez s com o pessoal de casa - a me, o pai, Wesley, Tnia, Dilton, Kevin e V May. Ainda era um bocado de gente, mas com eles se sentia  vontade.
      Naquele momento, sua me falava sobre a possibilidade de fazerem um passeio - irem esquiar - no Natal ou em um fim de semana prolongado em Janeiro.
      - Se formos em Janeiro, podemos ir a Tahoe, sugeriu Selena. Assim ficaremos com a Tnia em Reno e no precisaremos pagar hospedagem.
      - Em Reno? indagou a me. E por que a Tnia estaria em Reno?
      Todos se viraram para Tnia, que estava dirigindo um olhar irado para Selena. De repente a garota se lembrou de que a irm ainda no falara com os pais sobre 
o assunto. Fechou a boca com fora, mordendo os lbios, e estendeu a mo, tocando de leve no brao da irm.
      - Desculpe, falou. Esqueci.
      A jovem ainda tinha uma expresso tensa.
      - Recebeu alguma notcia da Lina? indagou a me, falando devagar.
      Ento que Selena compreendeu tudo. Lina Rasmussen, a me biolgica de Tnia, morava em Reno. Lecionava na universidade. E era s isso que a jovem sabia a respeito 
dela.
      - No, replicou Tnia em voz baixa, respirando fundo com as narinas dilatadas.
      O pai, sentado ao lado da me, inclinou-se para a frente, franzindo um pouco a testa.
      - Quer nos dizer o que est acontecendo, querida? Indagou ele para a filha.
      Tnia virou o rosto para um lado momentaneamente, mas logo em seguida voltou a encarar os familiares. Com expresso mais controlada, deu uma olhada para todos. 
Parecia que colocara uma mscara no rosto, como se estivesse posando para uma foto.
      - No tem muito o que contar, no, principiou ela. Eu me inscrevi na Universidade de Nevada, em Reno, para fazer uns cursos l, comeando em Janeiro. Ainda 
no me responderam nada, por isso eu s queria falar depois que j estivesse tudo acertado.
      - Isso  novidade para ns, disse o pai. Nesse tipo de deciso importante, filha, seria melhor que voc conversasse antes comigo e com sua me.
      - , mas no tinha o que contar, insistiu a jovem.
      - Pare com isso, Tnia, interveio Wesley, com seu jeito de irmo mais velho. No fique querendo resolver essas questes sem ns. Todos sabemos que voc est 
procurando sua me biolgica e tentando contat-la; e lhe damos todo apoio nisso. Agora parece que ela no lhe respondeu e voc est pensando em ir l ou, pior ainda, 
matricular-se no curso dela. Isso  uma deciso muito sria que voc no deve tomar sem conversar conosco.
      Tnia fitou-o com expresso de espanto.
      -  isso que vocs esto pensando? Esto achando que vou pra l com a finalidade de procurar Lina ou algo assim? No! Quero ir porque l tem um curso que me 
interessa. Nem acredito que esto todos contra mim!
      Todos pareciam meio tensos. Selena comeou a achar que ela era a culpada do problema. Nesse momento, a garonete se aproximou sorridente e disse:
      - E a? Vo querer uma torta de abbora de sobremesa?
      - No! respondeu a famlia em coro.
      

Captulo Oito
      
      Selena estava profundamente chateada. Sabia que Jeremy havia convidado Tnia para ir passar o Dia de Ao de Graas com ele e sua famlia, em San Diego. Contudo 
ela preferira vir para Portland, j que os outros familiares tambm viriam. Alm disso, seus pais haviam pagado a passagem de avio para ela. Selena temia que agora 
a irm estivesse desejando ter ido a casa de Jeremy, ou ento ter insistido com o namorado para vir com ela. Assim ele poderia apoi-la nessa deciso de ir estudar 
em Reno. A jovem teria de tomar o avio para a Califrnia logo depois do almoo. Ento toda a famlia foi lev-la ao aeroporto. Calma e tranquilamente, ela se despediu 
de um por um com o esperado abrao. Contudo Selena percebia que havia certa frieza no ar; no mais aquela alegria calorosa com que ela os abraara na chegada.
      - Desculpe-me, disse Selena para a irm quando esta a abraou. Por favor, me perdoe.
      Ela estava tentando se lembrar se Tnia lhe pedira que guardasse segredo ou apenas deixara subentendido que no era para contar nada. Isso agora no importava 
mais. A outra estava bem zangada com ela. Ainda iria demorar um pouco para ela voltar s boas.
      - Tudo bem; perdo, replicou a jovem.
      Entretanto, pelo tom amargo como falou, parecia mais estar querendo dizer: "Voc  terrvel!"
      Fazia um bom tempo que as duas no se desentendiam. Quando Selena chegou em casa, Vicki ligou. Disse-lhe que ela e alguns amigos iriam dar uma sada naquela 
noite. A garota at que gostaria de sair um pouco, ficar longe da famlia, passar algumas horas com os amigos. Contudo assumira o compromisso de trabalhar na Highland 
House naquela noite. Essa misso havia criado um servio de atendimento espiritual por telefone para jovens. Ela se comprometera a colaborar, e no havia como voltar 
atrs. Ento teve de recusar o convite de Vicki. Na mesma hora, comeou a ter uma crise de autopiedade. Sabia que Ronny, Vicki e outros colegas iriam sair para passar 
umas horas divertidas antes de recomearem as aulas no dia seguinte. E ela iria ter uma atitude responsvel e cumprir seu dever. Era duro ter de agir assim.
      Sua esperana era que talvez no recebessem muitas chamadas nessa noite, e desse modo pudesse ficar o tempo todo bordando. E para aumentar a tristeza, lembrou-se 
de que o dia j estava quase terminando e ainda no tirara o retrato. Precisava cuidar disso o mais rpido possvel. Amanh mesmo.
      Quando chegou  Highland House, havia pouca gente ali. Estacionou no ptio dos fundos e caminhou rapidamente at a secretaria. Encontrou o diretor da casa, 
o Tio Mac, e uma jovem de uns vinte anos. Ambos falavam ao telefone. Tio Mac fez-lhe sinal que fosse para o outro compartimento, onde havia um aparelho. Fazia poucos 
meses que a misso tinha criado essa nova forma de dar assistncia espiritual, e os recursos ainda eram bem limitados. Fora por isso que Selena se apresentara para 
auxiliar. Com o tempo quase todo tomado pelos estudos e o trabalho, no lhe restava folga para realizar outro servio voluntrio. Esse programa de aconselhamento 
por telefone era a melhor maneira que encontrara de participar nos trabalhos da Highland House.
      Tirou o bluso e assentou-se no compartimento. Colocou sobre a  mesinha  sua frente a Bblia, o bordado e as anotaes que fizera no curso de treinamento 
especial. Mal acabara de enfiar a linha na agulha e o telefone tocou. Deu uma olhada para o lado e o Tio Mac lhe fez um aceno para que atendesse, j que ele e a 
outra moa ainda estavam ocupados, conversando com algum. No segundo toque, ela pegou o fone.
      - Linha Jovem da Highland House, disse. Selena falando.
      Sentiu o corao bater forte. Apesar de ter recebido um bom treinamento sobre como deveria agir ao atender um telefonema, sentiu-se meio insegura. Como ser 
que iria se sair nessa primeira experincia?
      - Eu li um folheto de vocs, disse uma voz feminina do outro lado da linha. Aquele que fala sobre pureza.
      - Pois no, respondeu a garota.
      Sabia do que se tratava. O folheto falava sobre pureza sexual, citando textos bblicos, e mencionava ainda as razes por que o jovem deveria se abster do sexo 
antes do casamento.
      - , continuou a jovem, eu queria lhe fazer uma pergunta.
      Pela voz dela, Selena percebeu que deveria ser mais ou menos da sua idade. Esse era o ponto forte desse trabalho, na opinio do Tio Mac. Nessas questes, um 
jovem tem mais facilidade para se abrir com algum de sua faixa etria do que com um adulto.
      - Eu queria saber, falou a garota lentamente, quero dizer, concordo com tudo que diz no folheto. L diz que a gente deve ser pura e guardar-se para o casamento 
e tudo. Mas e se...
      E aqui a voz dela falhou. Selena teve a impresso de que estava chorando.
      - Pode falar, disse em tom suave
      - E se a gente no  pura mais? E se...
      Outra vez a voz falhou. A moa estava soluando.
      - Tudo bem, disse Selena, correndo os dedos pelas anotaes  procura da pgina sobre "Pureza".
      - E se a gente quer ser assim... quer ser pura, falou a moa, mas  tarde demais?
      - Eu compreendo, respondeu a garota. Tudo bem.
      - Eu s vou conversar mais alguns minutos, informou a outra jovem. Voc pode me dar alguma orientao?
      Selena respirou fundo para reunir coragem.
      - , tem razo, falou em seguida. A gente s tem uma "primeira vez". Mas voc pode comear de novo. Obviamente no pode ser fisicamente pura, mas pode ser 
assim aos olhos de Deus. Quando voc perdeu a virgindade, provavelmente deve ter percebido que com ela se foi tambm uma parte de seu corao. Ficou um vazio ali. 
Mas Deus providenciou um meio pelo qual voc pode preencher esse vazio. A Bblia diz, em 1 Joo 1.9, que "se confessarmos os nossos pecados, ele  fiel e justo para 
nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustia".
      Aqui ela ergueu a cabea e procurou falar com a outra da maneira mais natural possvel.
      - Isso significa, falando em nossa linguagem, que s temos de reconhecer para Deus que erramos e que precisamos do perdo dele. Em seguida, Deus faz a parte 
que lhe cabe, isto , apaga tudo dos registros celestes. Agindo assim, ele preenche os vazios que criamos em nossa vida quando damos o corao para outra pessoa 
ou coisa, que no ele.
      A moa no disse nada. Selena fixou os olhos na parede, onde estava o quadro de avisos, e continuou falando com um tom bem carinhoso.
      - Nosso lema aqui na Highland House  "Um lugar seguro para recomear a vida".  exatamente isso que Jesus lhe oferece. Ele lhe d outra chance de ser pura. 
Voc pode at achar que no tem mais aquela pureza de que falamos em nosso folheto, mas a verdade  que Deus a ver como uma pessoa nova, imaculada.
      Seu corao estava batendo depressa e ela continuou falando quase na mesma rapidez.
      - Se voc quiser optar pela "segunda virgindade",  s fazer o propsito consigo mesma, com Deus e at com seu futuro marido, de nunca mais praticar sexo com 
ningum a no ser depois que se casar. No aceite algo que  inferior ao que Deus tem para voc. O que ele tem reservado para ns  sempre o melhor.
      A outra permaneceu em silncio. Selena ficou preocupada, achando que ela havia desligado e que suas palavras tinham se evaporado no ar.
      - Voc acredita mesmo nisso? indagou a moa afinal.
      - Claro! replicou a garota prontamente.
      - Quero dizer, voc estava lendo o que me falou ou cr mesmo no que disse?
      - Creio, sim, repetiu Selena em tom firme. Creio nisso porque tudo que Deus diz  verdade. Se ele prometeu que vai nos purificar assim que lhe pedirmos perdo, 
ele purifica sim. Tudo isso se baseia nas promessas dele que esto em sua Palavra; no naquilo que sentimos.
      - Bom, vou ter de desligar, disse a moa. Muito obrigada. Tenho de pensar bastante em tudo que voc falou.
      - Pode ligar a hora que quiser.
      Selena ouviu o estalido do fone no gancho e sentiu o corao apertado. Gostaria que a outra tivesse dito:
      "Muito obrigada! Era exatamente isso que eu precisava ouvir. Vou orar agora mesmo e sei que minha vida vai melhorar." Contudo ela no disse. Apenas desligou 
o aparelho.
      Duas horas depois, quando terminou seu turno ao telefone, ela conversou com Tio Mac sobre o que estava sentindo. Recebera mais seis chamadas e todas tinham 
sido mais ou menos iguais a primeira.
      - Mas a primeira foi a mais difcil, explicou. Senti muita insegurana. Quero dizer, eu sei tudo aqui e aqui, falou, apontando para a cabea e para o caderno 
de notas. E creio nessas palavras de todo o corao. Mas, quando a gente est vivendo aquela situao, deve ser difcil enxergar esses fatos com clareza.
      Tio Mac fez um aceno concordando.
      -  difcil, sim, falou. Ns, os seres humanos, somos muito complexos. A questo  que no somos governados apenas pelo corpo e pela mente, no. Temos tambm 
as emoes, que so muito complicadas, e esse bendito e maldito livre-arbtrio que Deus nos deu. Todos os dias, o dia todo, estamos tomando decises a respeito do 
que queremos fazer.
      - , eu sei, mas e quando no foi a prpria pessoa que tomou a deciso? Qual ser o caso da primeira moa que atendi? Ela s disse que no era pura, como diz 
no folheto. Mas e se isso no foi deciso dela? Quero dizer, e se ela foi estuprada, por exemplo? Eu expliquei pra ela que tem de pedir perdo a Deus. Contudo existe 
a possibilidade de no ter sido por culpa dela.
      Tio Mac acenou com ar compreensivo.
      - Bom, primeiro ela precisa saber que o erro no foi dela. Voc lhe passou aquele numero 0800, onde do orientao para vtimas de abuso sexual?
      A garota mordeu o lbio, abanando a cabea.
      - Esqueci, replicou.
      - Na prxima vez, voc vai lembrar. A gente demora um pouco para ficar com tudo na cabea e saber o que deve dizer em cada situao. No se preocupe com isso 
agora. No adianta nada. Voc disps o corao para falar com aquela moa. Agora  s confiar que Deus usou suas palavras para tocar o corao dela; e orar para 
que ele a oriente sobre o que ela deve fazer em seguida.
      Selena deu um suspiro.
      -  bem mais difcil do que pensei, falou. Cada situao  diferente do outra, no ?
      - , e cada pessoa tambm  diferente das outras. E  assim que Deus nos v: criados de um modo "assombrosamente maravilhoso". E ele opera em cada corao, 
em cada vida de um jeito diferente. O nico caminho que temos a seguir, a nica soluo certa para todos os problemas  buscar o Senhor e lhe entregar tudo.
      Tio Mac deu mais algumas instrues a Selena e no final agradeceu-lhe por ter ido ali, fazer aquele servio voluntrio. No momento em que a garota recolhia 
seus pertences, o bordado escorregou e caiu. O Tio Mac pegou-o para ela.
      - Lucero non uro, disse ele surpreso.  a insgnia de minha famlia. Sabe o que significa este lema?
      - Acho que e "Eu brilho; no queimo".
      - Isso mesmo, disse ele com ar de admirao.
      Ele ficou uns instantes em silncio e depois, dando um sorriso, indagou:
      - Posso lhe perguntar para quem est fazendo isso?
      -  para o Paul, replicou a garota, sentindo-se meio sem jeito.
      Ser que Tio Mac sabia que ela estava namorando o sobrinho dele por correspondncia?
      -  mesmo.
      Ele no perguntou. Estava afirmando. Ficou parado, calado, como se estivesse "digerindo" a informao, tentando decifrar a ligao existente entre Paul e Selena. 
Afinal um leve sorriso lhe veio ao rosto.
      - Alguma data especial?
      - Presente de Natal, explicou a garota, enquanto, com gestos lentos, guardava o bordado na mochila. Quero dizer, se eu terminar a tempo. Est demorando mais 
do que eu pensava.
      - Ah, mas  a que est o valor disso, comentou ele, caminhando ao lado dela em direo ao carro. Tudo que tem valor duradouro na vida exige tempo. At os 
relacionamentos. Alis, principalmente os relacionamentos.
      Ele abriu a porta do veculo para Selena, e ela compreendeu que ele estava tentando dar-lhe um "recado". Teve vontade de lhe explicar que esse interesse no 
era unilateral. O Paul tambm estava escrevendo para ela; e desejava esse relacionamento tanto quanto ela. Contudo o rapaz  quem deveria dar essa informao, no 
ela. Ento resolveu no dizer nada para se defender. Iria mencionar a questo para o Paul e deixar que este esclarecesse os fatos para o tio.
      Tio Mac ps a mo na porta do carro para fech-la, mas antes de faz-lo, sorriu e disse:
      - Muito obrigado pela sua ajuda hoje. Voc se saiu muito bem. Se eu fosse lhe dar uma palavra de sabedoria, eu a aconselharia a ler 1 Corntios 13.
      - O captulo do amor? indagou Selena.
      Ela achara que ele ia dizer:
      "Quando chegar em casa, releia o nosso manual de aconselhamento, para que da prxima vez esteja mais bem preparada."
      - , o capitulo do amor. E qual  a primeira caracterstica mencionada nele?
      Selena pensou rpido.
      - "O amor  paciente"?
      - Exato. "O amor  paciente". Pronto, essa  a palavra de sabedoria que tenho para lhe dar.
      Em seguida, ele fechou a porta do carro e acenou-lhe em despedida. Selena foi rodando para casa, que era perto dali, tentando decifrar o "recado" do Tio Mac. 
Ser que ele quisera dizer que ela deveria ter pacincia consigo mesma enquanto aprendia esse servio de aconselhamento por telefone? Que ela precisava ter pacincia 
com as pessoas que ligavam para l? Ou estava querendo "ajudar" o sobrinho, dizendo-lhe que, se de fato amava o rapaz, precisava ter muita pacincia com ele?
      - "O amor  paciente", repetiu ela em voz alta no momento e, que estacionava em frente de casa. Eu consigo ser paciente.
      

Captulo Nove
      
      - E a? Como  que foi de feriado? perguntou Ronny para Selena, na segunda-feira.
      O rapaz estava encostado no escaninho dela, olhando-a com aquele seu sorriso tpico, com a boca meio entortada.
      - Bom, vejamos, principiou a garota. Teve um comeo de incndio em minha casa no Dia de Ao de Graas, minha irm est chateada comigo e, ontem  noite, na 
Highland House, fiz tudo errado. Fui l para auxiliar no atendimento telefnico e acho que mais atrapalhei do que ajudei as pessoas que atendi. Creio que somando 
tudo foi um bom final de semana. E o seu?
      - Teve um incndio na sua casa? indagou Ronny, "pinando" o problema que mais lhe interessou.
      - , na hora que meu pai estava orando, uns marshmallows que estavam assando se incendiaram, e o fogo se alastrou. Estragou o forno e os armrios que ficavam 
logo acima dele. At hoje a casa ainda est com um cheiro horrvel. Amanh vamos comprar um forno novo.
      - Os bombeiros foram l?
      - Claro. Foram sim.
      - Que legal!
      Selena abanou a cabea diante da atitude do colega. Ele via tudo por um prisma positivo.
      - , disse ela, no foi meu melhor Dia de Ao de Graas, no. E o seu? Como foi?
      - Totalmente sem graa, comparado com o seu.
      - Ei, a Vicki me disse que sua banda vai tocar no The Beet, nesta sexta. Que timo, Ronny!
      O rapaz fez um aceno afirmativo. No parecia muito empolgado com o acontecimento. O The Beet era um barzinho para jovens, localizado no centro de Portland. 
L no serviam bebida alcolica, e nos finais de semana tinha msica ao vivo. A banda do Ronny se formara havia apenas alguns meses, mas estavam ensaiando bastante, 
para acertar bem o "som". A apresentao no THe Beet certamente significaria a estria deles para o pblico.
      - Agora a grande pergunta, disse Selena, batendo a portinha do escaninho para fech-la e ouvindo a sineta tocar. Como vai ser o nome?
      - Estamos entre dois. Ser The Smarties ou ento The Slaymeyets.
      - Onde vocs arranjaram esse nome?
      - No livro de J. L tem um verso que diz "Ainda que ele me mate, nele esperarei".* Em ingls diz: "slay me yet". Entendeu?
      ___________________
      *J 13.15, na versao antiga, da Imprensa Bblica Brasileira. (N. da T.)
      
      - Ah, mas que nome complicado!
      - , sei disso.
      - De qualquer jeito, at sexta-feira vocs tero de arranjar um nome.
      - Teoricamente, sim.
      Selena e Ronny se dirigiram para a sala de aula. O rapaz passou o brao em torno do ombro dela e lhe deu um aperto de leve.
      - Aceitamos sugestes dos amigos; e as estudaremos com carinho.
      Selena riu.
      - Bom, replicou, agora que vocs j esto praticamente contratados, eles vo lhes pagar pela apresentao de sexta-feira, n?
      Ronny deu de ombros.
      - Sei l. No conversamos sobre isso.
      Selena sentou-se em sua carteira ao mesmo tempo em que pensava alguns nomes para o grupo. Ocorreu-lhe que um bom nome seria The Broke Boys (Os duros), ou ento 
The Moths in the Pocket (Mariposas no bolso). Anotou-os num papel para ver se dali poderia tirar outras idias.
       hora do almoo, sua lista j continha dezessete nomes. Foi com os amigos para a lanchonete Lotsa Tacos, para fazerem o seu lanche. Aproveitou para ler suas 
sugestes para eles.
      - Que tal The Moths (Mariposas)? indagou Tre, ouvindo-a ler os outros nomes.
      Tre era natural do Camboja, e por vezes Selena ficava um pouco preocupada quando os colegas se punham a fazer brincadeiras barulhentas.  que o cambojano se 
mostrava sempre mais calado e reservado.
      - No daria uma imagem muito boa, no, interveio Vicki, tomando um gole de seu refrigerante e coando a ponta do nariz.
      Selena achava Vicki linda. Ela era o seu oposto. Tinha olhos verdes e cabelo castanho muito sedoso. Sua pele era fina, e seu rosto, delicado. Sempre que olhava 
para a amiga, Selena ficava com vontade de dar um fim nas prprias sardas. Desejava que uma camada de rmel, nos seus clios, produzisse o mesmo efeito que via nos 
de Vicki. Entretanto j tentara isso, sem sucesso.
      No dia em que conhecera o Paul, ele lhe dissera que gostava do fato de ela no usar maquiagem.
      Aquela breve lembrana do rapaz fez com que engolisse em seco um  sorriso leve. Ser que algum notara isso? Queria que Paul estivesse ali com ela e seus amigos. 
Ele iria gostar deles. Provavelmente iria dar palpites timos na conversa. Talvez at j tivesse, na ponta da lngua, um nome excelente para o grupo de Ronny.
      - The Moths, repetiu Ronny pensativamente para ver se lhe agradava. Talvez... Sabe? As mariposas so atradas pela luz, e ns tambm somos atrados pela luz 
de Deus.
      - , interveio Vicki, mas elas morrem queimadas. No seria uma simbologia espiritual muito boa. Que tal Light Bulbs (Lmpadas)?  igual aos personagens de 
desenho em quadrinho.
      -  s disso que precisamos, comentou Warner bufando um pouco, um logotipo engraadinho! 
      Era um rapaz bem alto e tocava guitarra na banda de Ronny. De todos, era o de que Selena menos gostava. Ele estava sempre passando o brao no ombro dela, o 
que ela detestava. Contudo ele parecia no notar isso. Ela no se importava quando Ronny fazia o mesmo, pois era muito amiga dele. Entretanto, quando Warner punha 
o brao, ele parecia pesado demais, e ela se sentia como que sufocada. Alm disso, ele nunca o tirava espontaneamente. Ficava com o brao nela, dando a impresso 
de que queria que todos pensassem que os dois estavam namorando.
      - Ah! exclamou Ronny. A gente podia por s a sigla The LB's. Que tal?
      - Lembrei da escola americana onde eu estudava l no Peru, disse Margaret.
      Margaret era filha de missionrios; e entrara para a Academia Royal alguns meses atrs, quando a famlia dela viera passar frias nos Estados Unidos. Fazia 
mais ou menos um ms que ela travara amizade com a turma de Selena.
      - Toda vez que fazamos um trabalho para a aula de religio, a professora dizia: "Quem citar textos da L.B., coloque uma nota indicativa".
      - Que  isso? quis saber Tre.
      - Living Bible, Bblia Viva, explicou Margaret.  uma parfrase do texto bblico. Na escola, tinha uma poro delas.
      - Eu gosto da Bblia Viva, comentou Vicki.
      - , e esse nome pode ter mais um sentido, disse Selena.  aquele que muita gente diz, isto , que ns somos a Bblia que os outros "lem". Quer dizer, ns 
somos uma Bblia viva, que anda, fala e respira.
      - E luz tambm, acrescentou Ronny. Temos de ser luz nas trevas. E esse  o objetivo de nossa banda. , gostei do nome. O que vocs acham, pessoal?
      Tre fez um aceno de cabea positivo. Warner deu de ombros.
      - Eu acho timo! exclamou Vicki.
      Margaret deu uma espiada no relgio de pulso.
      - Acho bom a gente ir voltando pra escola, disse ela, seno vamos chegar atrasados de novo e acabar "presos" na sexta-feira aps as aulas.
      Quando o grupo saa do Lotsa Tacos, Warner aproximou-se de Selena e falou:
      - Voc no disse o que achou do nome The LB's.
      E ao falar, ps o brao sobre o ombro dela, com aquele peso de sempre. A garota teve uma forte sensao de incmodo. Pegou-o pelo pulso e retirou-o de seu 
ombro.
      - Gostei, disse ela. S no gosto e quando voc se apia em mim como fez agora.
      O rapaz olhou-a espantado, mas Selena achou que ele no deveria ter se admirado tanto pelo que ela fizera. Ela j lhe dissera o mesmo anteriormente. E agora 
queria que ele entendesse isso de uma vez por todas.
      - Olhe aqui, Warner, estou falando srio quando digo que no quero que ponha o brao em mim mais. O.k.?
      - S estou querendo ser carinhoso, defendeu-se ele.
      Os colegas entraram no carro da Vicki, mas Selena ainda no dissera tudo que queria.
      - Para mim, isso no  carinho;  incmodo. No quero que faa mais isso, 't bom? No ponha o brao no meu ombro mais. Entendeu?
      O rapaz deu de ombros, sinalizando que compreendera. encurvando-se, entrou no banco da frente, enquanto Selena se acomodava no de trs, ao lado de Margaret. 
Todos ficaram em silncio no trajeto de volta para a escola. Quando j se aproximavam do estacionamento do colgio, Warner virou-se para trs e disse:
      - Selena, voc tem namorado?
      Sem hesitar um instante, a garota respondeu:
      - Tenho. Pra falar a verdade, tenho, sim.
      Vicki virou-se para a amiga, fitando-a de olhos arregalados. Sua expresso era de quem achava que Selena estava mentindo.
      - Ele est na Esccia, explicou tanto para Vicki como para os outros. O nome dele  Paul. Por que pergunta?
      - Ah, eu achei que tinha algo acontecendo mesmo, replicou Warner, aparentemente satisfeito com a resposta dela. Voc no foi mais ver nossos ensaios e no 
est mais saindo com o Ronny, como saa antes. Como vi que no estava interessada nele, achei que ns, os "desprezados", poderamos ter uma chance de conquist-la.
      Sua tirada de "coitadinho" no surtiu muito efeito em Selena nem em Vicki. Margaret, porm, teve uma reao imediata.
      - Que  isso, Warner? disse ela. Voc no  um "desprezado". No fale assim.
      Vicki estacionou o carro e todos desceram. Ela aproximou-se de Selena, enquanto Margaret e Warner ficavam para trs.
      - , parece que est acontecendo algo com voc que no estou sabendo, disse Vicki em voz baixa para a amiga. Estou certa?
      - Voc est falando do Paul?
      - Claro que  do Paul. Ou voc disse aquilo apenas para o Warner largar do seu p? Se foi, eu lhe dou toda a razo. No ano passado, ele andou uns tempos atrs 
de mim, e quase fiquei maluca.
      As duas teriam de ir para classes diferentes e j estavam um pouco atrasadas. Ento Vicki concluiu apressadamente:
      - Me espere aqui depois desta aula.
      Selena esperou, mas a colega no apareceu. Ento ela foi para a aula seguinte. Um atraso j era demais; no queria outro. As duas s foram se ver novamente 
aps as aulas, j no estacionamento.
      - Quer ir comigo fazer umas compras? indagou Selena para a amiga. Vou dar uma chegada l na Wrinkle in Time. Quero comprar uma roupa para tirar o retrato que 
vou mandar para o Paul.
      -  a foto que voc quer que eu bata quando a chuva parar? quis saber a colega.
      Selena fez que sim. Vicki olhou para o cu. As nuvens eram claras e leves, prenunciando cu claro.
      - Talvez d para tirar hoje, comentou.
      - No quero tirar a foto com nenhuma de minhas roupas, explicou Selena. Ento pensei em comprar uma nova. Assim acho que ficaria mais satisfeita com o retrato.
      - Pra mim, d, respondeu Vicki, Vamos no seu carro ou no meu? Tenho de estar em casa por volta de 5:00h.
      - Ento vamos cada uma no seu.
      - Com uma condio, interps a colega. Quando chegarmos l, voc tem de me contar tudinho sobre o Paul. Quero saber detalhes que ainda no me contou; por exemplo, 
quando foi que comearam a namorar.
      Selena fez que sim. Teria vinte minutos de intervalo dali at a loja. Assim poderia pensar num jeito de explicar para a amiga sobre o relacionamento com Paul. 
No seria difcil, se ela prpria estivesse sabendo defini-lo com clareza. Ser que ele era mesmo seu namorado? E se ele estivesse morando em Portland? Claro! Certamente 
os dois estariam namorando. Pois no o estavam agora, apesar de estarem quilmetros e quilmetros distantes um do outro?
      Selena arrancou o seu Fusca 79 lentamente do estacionamento da escola e entrou na avenida. quela hora, trs da tarde, o trfego no era muito intenso. Juntou-se 
aos outros carros. Vicki vinha logo atrs.
      , pensou ela, procurando convencer-se, estavam namorando sim. Paul era seu namorado.
      

Captulo Dez
      
      As duas garotas chegaram  loja praticamente ao mesmo tempo. Assim que Vicki desceu do carro, comeou a encher a amiga de perguntas sobre Paul.
      - Estamos namorando por correspondncia, disse Selena. Escrevemos um para o outro quase diariamente. Hoje mesmo mandei uma carta de quatro pginas pra ele.
      Vicki estava simplesmente encantada.
      - Que legal, Selena! exclamou. Eu j sabia que ele havia lhe mandado um retrato de presente de aniversrio, mas no faz idia de que o relacionamento dos dois 
estava to adiantado assim. Sabe? Acho o Paul um cara maravilhoso! Ele  to bonito  e at um pouquinho misterioso.
      Ela conhecera o rapaz no semestre anterior, na Highlant House. Na ocasio, Selena achara que ela estava interessada nele. Contudo, pelo que pudera perceber, 
Paul nunca dera  sua amiga a ateno que esta buscara. Isso deixava Selena bastante espantada, pois aonde quer que a Vicki fosse, era sempre o centro das atenes. 
Agora estava alegre de que a colega conhecesse Paul e o achasse maravilhoso. Isso vinha reforar sua certeza de que no criara tudo aquilo em sua mente.
      - Posso lhe dizer uma coisa? pediu Vicki.
      - Claro, replicou a garota.
      Apesar de concordar, Selena sentiu um leve arrepio de preocupao. Ser que a amiga iria dizer que nutria uma paixozinha por Paul e tinha cimes dela? Isso 
j acontecera alguns meses antes, com ela e Amy, que na poca era sua amiga. Amy estava gostando muito de Drake. De repente, sem mais nem menos, o rapaz pedira Selena 
para sair com ele. O fato provocou uma forte tenso entre as duas, embora Amy houvesse dito que no se importava. No presente, Selena no tinha muito contato com 
a amiga, j que esta fora estudar em outra escola. Ademais, Amy achava-se muito envolvida com Nathan, seu namorado. O mais estranho de tudo era que, no ano anterior, 
Vicki e Amy tambm tinham sido amigas, mas haviam tido um pequeno desentendimento porque ambas gostavam do mesmo rapaz. Ento a garota tinha esperana de que o que 
a amiga ia dizer no tivesse nada a ver com Paul, pois estava curtindo muito a amizade com ela e no queria perd-la.
      - J esqueceu? principiou Selena em tom de brincadeira. Agora estou dando aconselhamento espiritual por telefone. Pode me contar o que quiser.
      No momento em que abriam a porta da loja para entrar, Vicki confidenciou:
      - Acho que eu e o Ronny finalmente vamos nos acertar, disse sorrindo.
      Selena nunca pensaria que ela iria dizer isso.
      -  mesmo? indagou.
      Repassou mentalmente as ltimas vezes em que os vira juntos. No davam a impresso de que estavam comeando um namoro.
      - Voc sabe que eu j gosto dele h mais de um ano, n? informou a outra, acenando afirmativamente e continuando a sorrir.
      - Gosta? perguntou Selena, ainda procurando "digerir" a notcia.
      Sabia que a Vicki convidara o Ronny para um jantar formal uns meses atrs, e que a amiga fora vrias vezes ao ensaio da banda dele. Contudo ela nunca lhe falara 
que tinha interesse no colega.
      - Claro que gosto. Pensei que dava pra todo mundo ver. O problema e que o tempo todo eu achava que ele tinha interece em voc, e s em voc, para sempre e 
sempre, amm. No que eu seja muito humildezinha, nem nada. Mas fiquei esperando para ver no que ia dar. J que voc est namorando o Paul, acho que finalmente ento 
podemos conversar sobre eu e o Ronny.
      Selena parou  porta, olhando para a amiga.
      - Isso tudo  novidade pra mim, explicou.
      - timo! exclamou Vicki, tirando o bluso por causa do sistema de aquecimento da loja. , se houvesse algo entre voc e ele, eu no ia querer atrapalhar.
      - Eu e o Ronny j falamos sobre isso, j analisamos bem tudo, explicou Selena. Somos apenas amigos. Achei que voc soubesse.
      - , mas quando se trata de relacionamentos, a gente nunca pode ter certeza absoluta. O que sei  que, se est na hora de haver algo entre mim e o Ronny, de 
minha parte, estou querendo. J que voc est namorando o Paul, tudo fica mais simples, legal mesmo.
      As duas haviam parado perto de um provador. Naquele momento, a cortina dele se abriu, e uma cliente veio l de dentro. Obviamente, sem querer, ela havia escutado 
a conversa das duas. As garotas olharam para ela.
      - Amy! exclamou Selena.
      Amy, como Selena, tambm gostava de roupas daquela loja, um bazar tipo brech chique. E elas j tinham ido ali juntas diversas vezes. Contudo fazia alguns 
meses que as duas no se viam. Amy, cujo cabelo era negro, longo e encaracolado, agora usava-o curto. Tambm estava com uma franjinha bem comprida, que lhe chegava 
at os clios e se mexia todas as vezes que ela piscava.
      - Amy! disse tambm Vicki, aproximando-se da colega e dando-lhe um abrao. Eu queria muito encontrar voc. Recebeu as mensagens que deixei na sua secretria 
eletrnica? Queria lhe falar.
      A outra no deu nenhuma resposta. Selena j a vira com esse tipo de atitude. Por vezes, em meio a situaes em que Selena falava o tempo todo, Amy simplesmente 
se fechava.
      - Tentei ligar pra voc, continuou Vicki, porque queria lhe contar algo. Nessas frias, fui ao acampamento da igreja e l resolvi acertar minha vida com Deus. 
J procurei vrias pessoas e lhes pedi perdo por erros que cometi anteriormente. Queria pedir desculpas tambm a voc, pelo que ocorreu no ano passado. Voc lembra, 
n? Aquela briga que tivemos. Eu estava errada, Amy. Me desculpe.
      A outra parecia fortemente admirada. Ficou parada uns instantes, como que paralisada. Afinal disse:
      - Eu tambm peo que me desculpe, Vicki. Sinto muito pelo que aconteceu entre ns.
      Vicki adiantou-se e deu-lhe outro abrao, que Amy retribuiu ainda meio tmida.
      - Obrigada, Amy. Espero que possamos recomear nossa amizade.
      - Podemos, sim, disse a outra. Se  isso que voc deseja...
      - , sim.  o que quero.
      Selena teve vontade de tambm pedir perdo a Amy por algo e dar um abrao nela. Na verdade, as duas j tinham tido uma conversa de corao aberto, alguns meses 
antes, mas no haviam reatado a amizade.
      - Mas que bom v-la de novo! disse ela.
      Foi a nica frase que lhe veio  mente. Amy olhou-a com ar interrogativo.
      - Ento voc e o Paul esto namorando, hein?
      Selena fez que sim.
      - Quando foi que ele voltou?
      - No. Ele ainda est na Esccia. Mas ns nos correspondemos. Escrevemos um para o outro quase diariamente.
      - Que maravilha! exclamou Amy sorrindo. Estou muito feliz por voc. Ento ele lhe escreve todos os dias?
      A garota acenou afirmativamente, sentindo o rosto avermelhar-se.
      - Quase todos os dias. Eu escrevo todo dia. D pra gente conhecer bem um ao outro por meio de cartas.
      - E como esto distantes, a questo da pureza  tranquila, n? continuou Amy, inclinando um pouco a cabea e dando  amiga um olhar significativo.
      Algum tempo atrs, as duas haviam discutido seriamente por causa dessa questo. Amy contara para Selena que estava se envolvendo fisicamente com o namorado. 
A garota a censurara duramente, citando-lhe versculos bblicos e dizendo que precisava permanecer virgem.
      Vicki esticou o brao e tocou de leve na ponta do cabelo de Amy.
      - Gostei do seu cabelo, disse. Quando foi que o cortou?
      - Faz algumas semanas. Gente, no cortem, seno depois vo se arrepender.
      - Vai comprar isso a? indagou Vicki, apontando para uma blusa que estava sobre o brao da amiga.
      - No. No serviu. Quer experimentar?
      - Quero.  muito bonita, replicou Vicki. Voc est querendo comprar uma blusa?
      Amy abanou a cabea.
      - No, estou s dando uma espiada nas roupas. Estou "fazendo hora" aqui.
      - Ah, ento pode nos ajudar a arranjar um vestido maravilhoso para Selena. Ela vai mandar uma foto para o Paul, como presente de Natal, e quer tirar retrato 
com uma roupa nova.
      Ouvindo isso, Amy, que sempre gostara de fazer compras com Selena, assumiu um ar um pouco mais alegre.
      - Viram aqueles chapus com aba virada que esto ali? Indagou.
      Foi at uma cesta de vime que se achava sobre um ba velho e pegou um chapu negro.
      - Experimente este aqui, falou, colocando-o sobre a cabea de Selena.
      - Hummm! Ficou lindo em voc! comentou Vicki.
      A garota deu uma espiada rpida para sua imagem refletida num espelho oval que havia ali perto.
      - No quero ficar muito parecida comigo no retrato. Quero dizer, gostaria de ficar um pouco diferente de minha aparncia normal.
      Amy e Vicki se entreolharam, parecendo no haver entendido bem.
      - Bom, quero parecer comigo, claro, mas ficar um pouco melhor. Entenderam agora?
      - Ah, fez Amy com um tom de quem compreende.
      - Vi um vestido perfeito, disse Vicki.
      E saiu em direo  vitrina. Sem falar nada com a balconista, estendeu a mo e pegou uma roupa que se achava num cabide perto da entrada. Era um vestido de 
veludo, verde esmeralda.
      - Imagine-se neste vestido! disse ela, erguendo a pea com um gesto dramtico, como se fosse uma vendedora de uma butique elegante de Paris. Com ele, voc 
se transformar e ter a aparncia exata que deseja ter.
      Selena deu uma risada. 
      - Vamos l, disse Amy animando-a. Experimente-o.
      - Ser que  mesmo, gente? indagou a garota, examinando o vestido.
      No era o tipo de roupa que ela costumava usar. Vicki aproximou-o do corpo da amiga, como que a medi-lo.
      - Olhe s, vai servir direitinho, comentou.
      - Vai mesmo, concordou Amy.
      Selena fez um aceno de cabea e pegou-o. Em seguida, foi para o provador. Parecia estranho que as trs estivessem ali fazendo compras daquela maneira. Ao mesmo 
tempo, porm, parecia natural. E a melhor parte  que tinha a impresso de que os desentendimentos que h tanto tempo as separavam haviam se desvanecido. Agora podiam 
cultivar a amizade e  se divertir na companhia umas das outras. Contudo isso ocorrera de forma to inesperada que Selena ainda estava meio atordoada.
      - Prontinho! disse ela, saindo do provador.
      O vestido tinha mangas compridas e era bem decotado. Vestia muito bem. Selena se sentiu chique e elegante. Passou a mo pelo corpo, acompanhando as curvas 
naturais.
      - Ficou lindo! exclamou Vicki. 
      - U, e quando foi que voc comeou a se "desenvolver" assim? brincou Amy.
      Selena sentiu o rosto avermelhar-se. J notara que ultimamente seu corpo vinha mudando, ganhando algumas curvas e ficando "cheinho" nos lugares certos. Contudo 
ainda se sentia meio acanhada de ter dezessete anos e s agora estar com a figura que suas amigas j tinham havia um bom tempo. Nos ltimos anos, sofrera silenciosamente 
a agonia de estar demorando a se desenvolver.
      - Com esse vestido, Selena, voc est parecendo uns cinco anos mais velha, comentou Amy.  incrvel como ele a deixou com um aspecto to diferente.
      - Acha mesmo? indagou a garota, endireitando os ombros e dando uma longa espiada no espelho.
      Selena sorria de satisfao. Estava gostando demais da sensao que experimentava com aquele vestido no corpo e a ateno das amigas. Naquele momento, no 
se via mais como a sardenta que tinha um jeito de menino, usando cala jeans larga,  nem como a garota de esprito livre que gostava de saias indianas. Sentia-se 
mais como, bem, como uma jovem digna da honra de ser a namorada de Paul. Se mandasse ao rapaz um retrato com aquela roupa, ele certamente notaria o quanto ela j 
havia amadurecido. Se ele ainda abrigasse alguma dvida de que ela tinha maturidade suficiente para iniciar um relacionamento srio, sua foto naquele vestido verde 
acabaria por dissip-la.
      - No quero nem saber quanto custa, disse ela para as amigas, virando-se para examinar as costas no espelho. Tenho de comprar este vestido.
      

Captulo Onze
      
      Todas as trs amigas, agora plenamente reconciliadas, compraram algo na loja. Selena ficou mesmo com o vestido verde, e como ainda lhe sobrou algum dinheiro, 
resolveu levar o chapu. Ele iria ser muito til, pois estava chovendo sem parar nos ltimos dias. Amy comprou uma bolsa de couro pequena, com ala a tiracolo, e 
Vicki, a blusa que Amy estivera experimentando na hora em que as duas chegaram ali.
      Aquele momento estava to agradvel, que Vicki sugeriu que fossem  confeitaria Mother Bear "comemorar" o fato de estarem unidas de novo. O doce aroma de canela 
as atraiu fortemente. Entraram e procuraram uma mesa reservada.
      Selena estava feliz. Achava-se em companhia das amigas, num cantinho gostoso da lanchonete, tomando um ch quentinho. O vestido novo, verde-esmeralda, estava 
numa sacola, no carro. S faltava Paul ali. Comeou a desejar que, de repente, ele entrasse por aquela porta e viesse fazer parte de sua vida. Mas isso no iria 
acontecer. O melhor que poderia suceder era ela lhe escrever uma longa carta hoje  noite, relatando tudo, sem porm lhe falar do vestido verde. Iria ser uma surpresa 
para ele, quando visse o retrato. Essa idia lhe deu uma profunda alegria.
      - Que sapato vai usar com esse vestido? indagou Vicki. Ele combina bem com sua bota de cowboy no, viu?
      - Ser que no? interps Selena, fingindo que falava srio.
      Amy soltou uma risadinha.
      - Puxa, voc ainda tem aquela bota horrorosa. Achei que a esta altura, ela j tinha se levantado e ido embora sozinha.
      - Adoro aquela bota! replicou a garota, fazendo um beicinho.
      - Eu sei! disseram Amy e Vicki ao mesmo tempo.
      Todas deram risada e tiraram um pedao de um pozinho que estava no centro da mesa.
      - Quer dizer, ento, principiou Amy, virando-se para Vicki, que voc e o Ronny sero o prximo casalzinho do Royal?
      A colega sorriu.
      - Talvez. Nunca se sabe. Sabia que ele cortou o cabelo bem curto?
      Amy abanou a cabea.
      - Quase no fico sabendo nada sobre a turma do Royal.
      - Pois . O pessoal l j estava comeando um tumulto por causa das normas sobre roupas, que constam do regulamento, e ele resolveu a situao sozinho.  o 
meu heri!
      Selena e Amy riram.
      - Puxa! Voc e o Ronny! repetiu Amy abanando a cabea. Ser que  uma doena que est dando nos formandos? Todo  mundo est namorando algum que nunca imaginei.
      E a ela citou alguns colegas que estavam namorando, mas que Selena no conhecia.
      - E voc? quis saber Vicki. Como est indo com Nathan? H quanto tempo esto namorando? Uns seis ou sete meses?
      Amy pegou a xcara com um resto de capuccino e mexeu-a de um lado para outro. Sem olhar para as amigas, respondeu:
      - Ns terminamos.
      Selena sentiu um aperto no corao. No desejara que a amiga se envolvesse com Nathan, mas agora isso no tinha muita importncia. Percebia que a colega estava 
sofrendo e tinha d dela.
      - Oh, Amy! Que pena! disse.
      Amy ergueu o rosto e olhou-a surpresa.
      - Acha mesmo? indagou.
      - Claro! Terminar um namoro que j durava tantos meses machuca a gente!
      A amiga baixou os olhos.
      - , machuca mesmo! concordou.
      - Como foi? indagou Vicki, dando uma olhada para Selena e depois para Amy. Quero dizer, se voc no se importar de contar. No estou tentando me intrometer 
em sua vida, nem nada.
      Amy guardou silencio por uns instantes. Depois de alguns segundos, virou-se para Vicki.
      - No comeo, estava indo tudo bem. Ele  um cara muito legal. Quando meus pais iniciaram o processo de divrcio, ele me deu a maior fora.
      - Ah, interveio Vicki, eu fiquei sabendo mesmo que eles estavam se divorciando. Que tristeza, amiga! Eu tambm deveria ter lhe dado uma fora naquela ocasio. 
Mas ns tnhamos tido aquelas discusses bobas que nunca resolvemos. Lembrando isso agora, vejo que foi tudo to sem sentido, uma criancice! E como no a procurei 
para acertar tudo, acabei prejudicando nossa amizade que era to boa.
      Amy tomou o ltimo gole do seu capuccino e disse:
      - Ah, isso agora no tem mais importncia. Reatamos nossa amizade, e estou muito feliz. Na hora em que precisei de algum para me confortar, o Nathan estava 
do meu lado. Acho que vou ser grata a ele por isso pelo resto da vida.
      E aqui ela ergueu o olhar e fitou um ponto distante, como quem procura recordar algo que tentara esquecer.
      - Se no quiser, no precisa contar nada, no, interps Selena.
      - Ela quer sim, insistiu Vicki, dando um sorriso alegre para as duas amigas. Queremos saber todos os detalhes, at os mais trgicos.
      O jeito alegre da garota acabou dissipando a nuvem de tristeza que se formara e todas sorriram. Em seguida, Selena e Vicki ficaram em silncio, aguardando 
que a outra continuasse.
      - Acho que eu exigia demais dele, explicou Amy. Pelo menos, foi o que ele disse. Estava muito envolvida com ele e acabei no tendo vida prpria. A comeamos 
a brigar, coisa que no acontecia no incio. Depois descobri que ele falou uma mentira pra mim. No foi nada muito importante. Ele disse que iria ficar em casa naquela 
noite, e mais tarde fiquei sabendo que tinha ido ao cinema com uns conhecidos. A fiquei com raiva. Ele explicou que estava querendo "descansar" um pouco da minha 
companhia. Ficamos uma semana sem conversar. Mas no outro final de semana nos encontramos no trabalho. Tudo correu bem por uns dez dias. Afinal, porm, comeamos 
a brigar de novo. Faz umas duas semanas que terminamos de vez. Ele j est namorando outra garota.
      - Que desagradvel! exclamou Selena.
      - U! replicou Amy. Achei que ia dizer que estava orando por isso, para que ns terminssemos. Pensei que pelo menos voc ia dizer "No lhe falei?"
      Selena abanou a cabea.
      - Seria a ltima coisa que eu iria lhe dizer, Amy. O que quero mesmo  lhe dar minha amizade. Por tudo que j aconteceu antes, pode parecer que no sei muito 
sobre amizades, mas h algo que sei. Quando uma amiga sofre, a gente sofre tambm.
      Os olhos de Amy se encheram de lgrimas.
      - Obrigada, Selena, disse ela.
      - Ei, parece que h algo errado comigo, interveio Vicki. Quero dizer, sinto muito, Amy, mas estou bem alegre de voc ter terminado com Nathan. Confesso que 
estou, j que Selena no quer admitir isso. Acho que ele no era o melhor pra voc. Eu diria que foi at bom ele ter ido embora.
      - Vicki! exclamou Selena.
      Amy permaneceu em silncio por uns instantes e depois exclamou:
      - Isso, Vicki, diga mesmo o que voc realmente pensa!
      As trs caram na risada.
      - Ah, eu nunca fui muito de rodeios, afirmou Vicki. Expresso minhas opinies claramente.
      - , eu ainda me lembro disso, comentou Amy, e prontamente acrescentou: Alis, isso  algo que aprecio muito nas duas.
      Olhou para Selena e em seguida voltou a fitar Vicki.
      - Tenho de reconhecer que as duas so muito fortes, prosseguiu. E, no momento, estou me sentindo bem fraca.
      Selena e Vicki olharam para a amiga com ar compreensivo.
      - Est tudo bem, disse a primeira.
      - Vocs tem razo, retornou Amy. Provavelmente ele no era o cara certo pra mim. Afinal acho que at foi bom termos terminado agora. Fico um pouco acanhada 
de dizer isso, mas preciso muito da amizade de vocs duas. Preciso que sofram comigo, como Selena disse. A pior parte da situao toda foi quando me dei conta de 
que Nathan tinha amigos com quem poderia ir ao cinema, mas eu no tinha ningum. Havia "cortado" todas as amizades do Royal e no fizera amizade com ningum na escola 
onde estou estudando. Mas no quero continuar nesta solido.
      Selena estendeu a mo e deu um aperto de leve no brao de Amy.
      - No vai ter de ficar assim mais. Ns trs precisamos voltar a fazer uns programinhas. Acho que Deus arranjou para nos reencontrarmos exatamente para reiniciarmos 
nossa amizade.
      - A gente poderia se reunir aqui toda segunda-feira, sugeriu Vicki.
      - Concordo, replicou Amy, desde que as duas me prometam uma coisa.
      - O qu? perguntou Selena.
      - No fiquem me falando desse negcio de Deus. Sei que vocs crem nisso tudo e acho muito legal, Vicki, que voc tenha acertado sua vida com o Senhor e tudo 
o mais. Mas no fiquem pregando pra mim, o.k.?
      Nem Selena nem Vicki disseram nada.
      - Prometam! insistiu Amy.
      - No posso prometer que no vou falar de Deus, explicou Selena.
      - Nem eu, disse Vicki. Ele  o que h de mais importante na minha vida.
      - 'T bom, t bom, falou Amy. Podem falar o que quiserem sobre Deus, mas no esperem que eu participe da conversa,  o.k.?
      As duas fizeram que sim.
      - Ento a que horas podemos nos encontrar aqui segunda-feira? indagou Vicki.
      Ela olhou para o relgio de parede que tinha o formato de um urso. O mostrador era na barriga do animal.
      - Ah, no! exclamou logo em seguida. Eu tinha de estar em casa s 5:00h, e j so quase 5:30h. Tem um telefone por aqui?
      Selena conduziu a amiga para o aparelho que ficava no fundo da loja e perguntou a D. Amlia, sua patroa, se a garota poderia dar um telefonema local. Ela consentiu 
e Selena saiu dali, voltando  mesa, onde Amy se achava sozinha. A outra estava dobrando as pontas de um guardanapo, formando pequenos tringulos.
      - Tenho de ir embora agora, disse Selena. Ah, mas antes que eu me esquea, a banda do Ronny vai tocar no The Beet, nesta sexta-feira. Voc gostaria de ir conosco, 
ou prefere encontrar-se com a gente l? Acho que ele vai ficar bem satisfeito se houver muitos conhecidos na platia.
      - Claro, replicou Amy. Acho que prefiro me encontrar com vocs l. Quando eu e o Nathan comeamos a namorar, a gente ia muito l. Mas creio que ele no ir, 
no. No entanto, se ele aparecer por l com a nova namorada, voc me segura pra eu no arrancar os olhos dela, 't legal?
      Selena conhecia bem a amiga e sabia do seu "gnio esquentado". Compreendeu que ela no estava brincando, no.
      - Eu lhe dou uma fora, Amy. J lhe disse isso uns meses atrs, mas parece que agora vou ter uma chance de lhe provar que falei pra valer. , vou estar do 
seu lado, nem que seja pra cortar suas unhas antes de entrar l.
      - J cortei, replicou a outra, erguendo as duas mos e mostrando como "roera" as unhas. Quando terminamos o namoro, cortei o cabelo, as unhas e um retrato 
que ns dois tiramos no Festival de Jazz. Estou muito "trgica", no estou?
      - No! 'T no! replicou Selena, dirigindo-lhe um olhar compreensivo.
      Amy fitou a amiga.
      - Obrigada, Selena! S espero que um dia - se o Paul tambm a deixar - eu possa lhe dar uma fora como voc est me  dando agora.
      Selena abriu a boca, mas acabou no dizendo nada. Vicki chegou de volta toda apressada e avisou que teria de ir embora voando. E as trs saram, cada uma tomando 
seu destino, mas no sem antes combinarem de se encontrarem no The Beet na sexta-feira.
      Selena voltou para casa o mais rpido que podia. Queria experimentar outra vez o vestido novo, mas estava ainda mais ansiosa para ver se chegara alguma carta 
de Paul. A caixa do correio estava vazia. Dirigiu-se  cozinha a procura da me. Esta se achava ali admirando o forno novo que haviam instalado nessa tarde. Perguntou-lhe 
se havia alguma correspondncia para ela. Sharon Jesen disse-lhe que no chegara nada.
      Subindo para o quarto, lembrou-se do comentrio final de Amy, dizendo que Paul poderia deix-la. Sempre que o rapaz demorava a escrever, ela se sentia um pouco 
tensa. Contudo acabava recebendo uma carta ou um postal, e seus temores se dissipavam. Naquele momento, desejou ter respondido algo para a amiga. Devia ter lhe dito 
que ela no precisaria consol-la, pois Paul nunca iria deix-la.
      Ser que no?
      Jogou-se na cama, que ainda no arrumara, e pegou o retrato do rapaz que se achava na mesinha de cabeceira. Examinou cada trao de seu rosto. Ele no parecia 
ter jeito de algum que iria faz-la sofrer. Contudo o Nathan tambm no tinha a inteno de fazer sua amiga sofrer, tinha? Ningum comea um relacionamento j tendo 
o objetivo de terminar tudo e maltratar o outro. Isso so fatos que acontecem. As coisas mudam. As pessoas mudam.
      Selena virou-se, deitando-se de lado, e abraou a foto do rapaz. Ela nunca iria mudar os sentimentos que nutria por ele - nunca. Ela no. E ele tambm no 
mudaria. Os dois iriam gostar cada. vez mais um do outro. A ele voltaria da Esccia e... E se ele no voltasse de l? E se ficasse l mais um ano, ou trs, ou cinquenta?
      A garota fechou os lbios com fora e se ps a pensar. Quem disse que ela era obrigada a estudar numa faculdade em sua terra mesmo? Ela poderia ir estudar 
na mesma escola do Paul, na Universidade de Edimburgo!
      Sentou-se rapidamente, a cabea cheia de planos. Poderia ir para a Esccia assim que suas aulas terminassem. Arranjaria um emprego l, qualquer emprego. Assim 
estariam perto um do outro. Estudariam juntos, e nos finais de semana, poderia ir fazer caminhadas com ele no planalto escocs. Nos domingos  tarde, poderiam ir 
tomar ch com a av dele. Em alguns finais de semana, pegaria o trem e iria fazer uma visita para sua amiga Cris. Assim o Paul no ficaria cansado dela, como Nathan 
ficara da Amy. Alm disso, procuraria ter os prprios amigos ali, para no "sufocar" o rapaz.
      Levantou-se de um salto e se ps a caminhar de um lado para outro. Precisaria procurar o endereo da secretaria da universidade e mandar logo o pedido de inscrio. 
Deveria contar para o Paul imediatamente ou esperar primeiro a resposta da faculdade? Obviamente precisaria contar aos pais. Se Tnia podia ir estudar em Reno, por 
que ela no poderia ir para Edimburgo?
      Pegou o vestido novo e colocou-o em frente do corpo, pondo-se a danar em meio  baguna do quarto. Ao que se lembrava, nunca sentira o esprito voar to alto 
como agora. Riu ao pensar em como mostraria a todos que tinha o esprito livre. J se imaginava recebendo o diploma do segundo grau e logo em seguida pegando um 
avio para a Esccia.
      

Captulo Doze
      
      - No! disse o pai de Selena em tom firme. Estava sentado  escrivaninha, com os braos cruzados, como a demonstrar que no iria ceder.
      - Mas, pai, a gente no pode nem conversar sobre o assunto?
      - Voc no est com a cabea no lugar, Selena, replicou ele.
      A garota se remexeu na poltrona, a cadeira de que mais gostava ali na saleta. Estava com o vestido verde que pusera antes de ir jantar, para ver a reao dos 
pais. E eles tiveram uma reao, sim. Disseram vrias vezes que estavam muito surpresos, pois aquela roupa era muito diferente das que ela costumava usar. Entretanto 
essa reao negativa deles no esfriou seu entusiasmo com relao  idia de ir estudar na Esccia. Resolveu que iria falar ao pai na saleta aps o jantar. A me 
estaria ajudando seus irmos a fazer o dever de casa, e ela poderia conversar a ss com ele. Ento assim que entrou ali com o pai e fechou a porta, exps-lhe seu 
plano. Foi a que ele disse no.
      - Estou com a cabea no lugar, sim, replicou ela. Eu gostaria muito de ir, pai. Minhas notas esto muito boas, voc sabe disso. J fui  Europa duas vezes. 
Por que no posso ir estudar na Esccia?
      - Selena, replicou o pai, descruzando os braos e inclinando-se para a frente, voc no sabe nada sobre essa universidade. Ento s quer ir pra l por um sentimento 
de aventura, ou ento, se minha suspeita estiver certa, para ficar perto do Paul. Isso no  razo vlida para se escolher uma escola. Ademais ainda dependemos de 
arranjar bolsas para voc estudar. No sei nada sobre transferncia de bolsas daqui para l.
      - Mas podemos verificar tudo isso, replicou ela. Podemos pedir informaes. Eu peo. Posso pesquisar tudo.
      O pai abanou a cabea.
      - Minha resposta continua sendo no.
      - Por qu? insistiu a garota. Voc deixou a Tnia ir para a Califrnia, e ela foi ficar perto do namorado.
      -  diferente. Ela comeou a namorar o Jeremy depois que foi para San Diego. Ela no se mudou para l para ficar perto dele. Alm disso, ela j tem dezenove 
anos, quase vinte. Voc fez dezessete outro dia mesmo.
      Selena deu um suspiro de frustrao. Sabia que os pais davam muita importncia ao fato de o filho ser maior de idade. Os dois irmos mais velhos e a irm s 
puderam sair de casa depois que completaram dezoito anos. E os pais deram a eles vrias opes para comearem a vida por conta prpria. A garota sabia que se sasse 
de casa antes dessa idade, estaria praticamente se rebelando e perdendo a "beno" dos pais.
      - Selena, disse o pai, o que est me preocupando agora  saber o que foi que deu em voc.
      - Como assim?
      - Esse vestido, por exemplo. Ele  muito diferente das roupas que voc usa normalmente. E onde foi que tirou a idia de ficar perto do Paul?
      - Ns estamos nos correspondendo, pai. Escrevemos um para o outro quase diariamente. Como sou eu que pego a correspondncia, ningum tem notado que ele me 
escreve com frequncia.
      -  por isso que no Dia de Ao de Graas voc sumia toda hora?
      - Como sumia?
      - A gente quase no a via. Voc ficava l escrevendo para o Paul?
      - Ficava. Que mal tem isso?
      - Voc deu ateno para os nossos parentes? indagou o pai.
      - Dei, sim.
      - Sem algum mandar?
      - Bom...
      Selena reconheceu que no poderia dizer que sim. Sabia que a Tia Frida ficara chateada por ela ter evitado a companhia de Nicole e Mary, suas primas, que eram 
quase de sua idade. Na hora de se despedir, a tia dissera umas palavras duras para a sobrinha, mas esta procurara tirar aquilo da mente. Alis, aquela tia estava 
sempre soltando umas "ferroadas" para todo lado. Selena entendera que a nica maneira de no deixar que suas farpas a atingissem seria esquec-las o mais depressa 
possvel.
      - Ultimamente voc est muito diferente, comentou o pai.
      Selena pensou em lhe dizer que estava amando, mas sabia que poderia perder "alguns pontos" com o pai.
      - Estou crescendo, pai,  s isso. Esta que voc est achando diferente sou eu, uma nova pessoa e bem melhorada. Reconheo que demorei um pouco pra ficar adulta 
e que, com dezessete anos, estou passando por uma fase que muitas garotas passam bem mais cedo.
      As palavras foram saindo de sua boca sem que ela tivesse tempo de pensar no que estava dizendo.
      - O fato  que, queira ou no queira, estou ficando adulta. No; melhor dizendo, j sou adulta. No sou mais a sua filhinha, no.
      Selena sempre expressara suas opinies francamente desde pequena. Algumas vezes se arrependia de dizer tudo de forma to direta. E havia momentos tambm em 
que conseguia se conter antes de dizer o que pensava. Depois, quando parava para refletir, por vezes ficava satisfeita de haver falado; em outras, desejava ter ficado 
calada.
      E agora vivia esse momento, diferente de todos os outros. Analisando suas palavras, via que fora como se tivesse cortado um cordo invisvel que, durante muitos 
anos, ligara seu corao ao de seu pai. Estava praticamente afirmando que queria pegar a ponta desse cordo e amarr-lo ao corao de Paul. E o pai estava dizendo 
que no.
      - Precisamos conversar mais sobre isso, falou o pai aps alguns instantes de silncio. Agora no  uma boa hora, mas depois vamos voltar a falar sobre esse 
assunto.
      - 'T bom, replicou Selena calmamente.
      Fez o propsito de mostrar para o pai que se sentia suficientemente tranquila e madura para discutir o que ele julgasse necessrio.
      - Ento me avise quando for uma boa hora.
      - Aviso.
      O pai saiu, deixando-a sozinha na saleta, sentada, muito tensa, em sua poltrona predileta, usando o vestido verde e com o corao a mil.
      No dia seguinte, ao voltar da escola, correu para casa, certa de que encontraria uma correspondncia de Paul. E encontrou. Ficou parada na varanda para l-la. 
Era bem curta, mas cada palavra era como um doce para Selena.
      
      Selena,
      Isto  apenas um bilhete rpido. Estou atolado em provas. E j que no sou um aluno "nota 10" como voc, tenho de pr o crebro para funcionar. Que bom que 
voc gostou do retrato. Tirei-o no local onde fao caminhada. Gosto muito daquele lugar. Estou querendo ir l neste final de semana, se a chuva deixar. Faz vrios 
dias que s tem chovido aqui. Voc perguntou sobre o meu aniversrio.  10 de dezembro. E se eu puder ter o atrevimento de lhe pedir algo, gostaria de ganhar um 
retrato seu, para pr em minha escrivaninha. Assim, quando estiver estudando, posso olhar para o seu sorriso leve e tranquilo e suavizar meu sofrimento. Tenho de 
terminar agora.
      Com meus melhores votos para voc, 
      Paul
      Rapidamente calculou quantos dias faltavam para aquela data. Se tirasse o retrato ainda hoje, poderia mandar revel-lo em um desses lugares que fazem o servio 
em uma hora. Compraria uma moldura, embrulharia e o enviaria no dia seguinte. Assim teria o prazo de quase dez dias para chegar l. Era a conta certa.
      - Me! gritou ela, entrando em casa. Onde  que voc est?
      Encontrou-a deitada num sof, enrolada em um cobertor.
      - Oh! O que  que foi?
      - S estou cansada. O que ?
      - Preciso de um favor seu. Pode bater umas fotos minhas? Quero aproveitar que no est chovendo. Quero tirar no quintal do fundo. J estou com o filme na mquina 
e tudo o mais.
      - Precisa disso agora, neste instante? indagou a me.
      Parecia que ela no estava com muita vontade de abandonar aquela posio confortvel naquele momento.
      - No; pode deixar. Podemos tirar mais tarde. Desculpe por t-la acordado. 
      Na verdade, no queria deixar para mais tarde. Desejava resolver isso agora. Foi  cozinha e discou para a casa da Vicki. Ningum atendeu. Ligou para o Ronny. 
A me dele informou que o rapaz ainda no havia chegado. Telefonou para outros conhecidos. Ningum poderia ajud-la. Ligou para Vicki outra vez. Ningum atendeu. 
Desesperada, resolveu acordar a me. Afinal, j tinham se passado bem uns cinco minutos depois que conversara com ela. Justamente nesse momento, porm, V May entrou 
na cozinha.
      - Ola, Queridinha! Como passou o dia?
      - Muito bem, v. Ei, V May, ser que poderia tirar umas fotos minhas l no quintal?
      A senhora demorou um pouco para responder. Primeiro olhou para a neta com uma expresso estranha.
      - Creio que sim, disse por fim.
      - timo! Ento espere aqui. Volto j.
      Selena subiu as escadas correndo e ps o vestido verde. Aplicou rapidamente um pouco de maquiagem e tentou ajeitar o cabelo rebelde.
      - J estou indo, v, gritou de cima para a av.
      Pegou a mquina e verificou se o filme estava na posio certa para comear a rodar.
      - Pronto, v, estou pronta, disse, voltando  cozinha.
      A av no estava mais l. Selena no queria cham-la para no perturbar a me. Ento ps-se a dar voltas pela casa  procura da senhora. Subiu para o andar 
superior e encontrou-a em seu quarto, espiando tranquilamente pela janela.
      - Estou pronta, V May, disse ela. Pode tirar meu retrato agora? L no quintal? Acho que vai ficar bonito se tirar perto daquela rvore pequena, que est com 
as folhas amarelas e ainda no acabou de desfolhar.
      - 'T bem, concordou V May.
      Ela veio seguindo a neta com passos lentos, mas firmes.
      Quando chegaram embaixo e saram porta afora, a senhora j estava cansada. Selena teve de esperar um pouco at que ela se recuperasse e pudesse bater as fotos.
      - Vou ficar bem aqui, v, disse a garota, aproximando-se da rvore de folhas amarelas. A senhora pode pegar do meu joelho para cima, porque no tenho nenhum 
sapato que combina com este vestido.
      E ficou ali parada, descala, tremendo de frio, naquele vestido decotado.
      - A senhora sabe onde  que aperta, n, v?
      - Fala "xis", disse V May, e bateu a foto.
      - Pode bater mais, v. Podemos gastar o filme todo. Pegue uns mais de perto. Quero que fique um retrato bem legal.
      Aprumou o corpo para ficar o mais elegante que pudesse e sorriu, olhando para a cmera. Ouvindo o clique da mquina, lembrou-se do que Paul escrevera, que 
o seu sorriso tranqilo iria suavizar o "sofrimento" de estudar. Ele era to potico! Abriu ainda mais o sorriso e desejou que o brilho do seu olhar - o brilho que 
havia nele por causa de Paul - aparecesse nas fotos. 
      

Captulo Treze
      
      Assim que Selena contou vinte e quatro fotos, agradeceu  av e pegou a mquina de volta.
      - Est muito frio aqui, v, disse. Vamos pra dentro, pra esquentar.
      - 'T bom, disse V May. Espero que as fotos fiquem boas, Emma.
      Sua av j a havia chamado de "Emma" vrias vezes. Era o nome de sua filha mais nova, que, quando jovem, se parecia com Selena.
      Ser que Emma alguma vez comprou um vestido verde e curto como este? E se comprou, o que ser que o pai dela disse?
      Quando as duas j subiam a escadinha coberta de folhas secas, Brutus veio para elas, esticando toda a corrente que o prendia, e latiu forte.
      - No, no, Brutus, disse Selena, virando-se ligeiramente para trs. Voc no pode entrar, no. S depois que tomar um bom banho. E agora no tenho tempo pra 
lhe dar banho, no.
      - Talvez ele esteja com fome, opinou V May. Ou com sede. Algum verificou as vasilhas dele ultimamente?
      - Eu vou olhar, v, prometeu Selena. Vou s levar a senhora de volta para o seu quarto quentinho.
      - Gostei de nossa caminhada, disse a av. Vamos andar amanh de novo?
      - Tudo bem, v.
      Ela foi segurando no brao da senhora at o quarto. Ali chegando, acomodou-a em sua cadeira de balano.
      - Obrigada, meu bem. Foi timo.
      Selena deu-lhe um leve beijo no rosto e em seguida saiu correndo para o seu quarto. Estava sentindo muito frio. Ento vestiu sua velha cala jeans e uma suter 
que tinha sido de seu irmo. Os dedos dos ps estavam enregelados. Calou meias e depois a bota de cowboy. Nesse momento, lembrou-se de que seu pai sempre dizia 
que para se esquentar depressa era preciso pr algo na cabea. Pegou o chapu novo de abas levantadas que comprara no dia anterior e colocou-o. Seu cabelo louro 
e encaracolado aparecia abaixo dele todo despenteado, as mechas mais parecendo bandeirolas de festa.
      Ah, deixa pra l! pensou, dando uma olhada  sua imagem refletida no espelho. O pessoal do foto no vai se importar com minha aparncia, no.
      Desceu a escada correndo. Brutus latia sem parar. Isso a incomodou.
      - 'T bom, seu grandalho. Vou a.
      Saiu pela porta dos fundos para verificar como o co estava.
      Como V May dissera, as vasilhas de gua e comida estavam vazias.
      - Oh, coitado! exclamou.
      Abriu a torneira da mangueira do jardim e aproximou-a do animal para que ele lambesse o lquido enquanto ela lavava a vasilha de gua.
      - D para esperar a comida por mais uma hora? S vou voltar daqui a uma hora. Se o Kevin no puser a rao pra voc, eu ponho.
      O cachorro esticou a lngua rosada e arfou como que agradecendo.
      - Tchau, companheiro!
      Recolocou a mangueira no lugar certo e saiu em direo  porta. Sorria consigo mesma pensando em como seria legal quando Paul recebesse as fotos, e o que ele 
diria quando escrevesse agradecendo.
      Estava no segundo degrau da escadinha quando ouviu a me cham-la. Ergueu os olhos, sorrindo e com o rosto avermelhado pelo frio.
      Clique. A me se achava  porta com a cmera na mo.
      - J bati todas as fotos, me, disse. No tem mais nenhuma pose.
      Nesse instante, a cmera se ps a rebobinar automaticamente.
      - Parece que ainda havia uma, replicou a me.
      - Vou levar o filme naquele foto que revela em uma hora. Quer que eu aproveite e compre algo pra senhora?
      - No, obrigada. Mas pra que tanta pressa? Esses retratos so pra algum trabalho da escola ou algo assim?
      - No;  pra mandar ao Paul. Acabei de saber que o aniversrio dele  dia 10 de dezembro. Tenho de colocar a foto no correio amanh pra chegar a tempo.
      - Ah, sei, disse a me.
      Parecia um pouco confusa. Ou seria preocupada? Selena sentiu que precisava dar uma explicao.
      - Voc lembra que ele me mandou um retrato no meu aniversrio? Agora ele pediu que eu mandasse um meu de presente de aniversrio pra ele.
      - Ah, sei, repetiu a me.
      Selena fitou-a atentamente e ficou com a impresso de que ela no estava entendendo nada. Se ela compreendesse o que era comear um namoro com o cara mais 
maravilhoso do planeta, saberia como tudo isso era importante para Selena. , mas parecia que ela no estava compreendendo, no.
      - Vou demorar pouco mais de uma hora, explicou, pegando a cmera e sua mochila. Te amo, me! Tchauzinho!
      Saiu correndo porta afora e entrou no carro.
      Quando Selena chegou no foto, havia apenas um homem atendendo, mas ele lhe garantiu que as fotos ficariam prontas em uma hora. A garota resolveu que, para 
esperar, iria comprar um carto, o porta-retratos e talvez os elementos da caixa que iria enviar ao rapaz de presente de Natal. Saiu apressada do foto. Pensando 
bem, se conseguisse arrumar a caixa, poderia mand-la tambm de presente de aniversrio.
      As comprinhas demoraram mais de uma hora, mas conseguiu tudo que queria. O nico contratempo fora que gastara mais do que previra, e agora s tinha dinheiro 
para pagar a revelao. O tanque de gasolina do carro estava s com um quarto de combustvel. Teria de dar at receber de novo.
      - Ah, finalmente chegou, disse o homem do foto assim que ela entrou. Quero lhe perguntar algo sobre uma de suas fotos.
      - Pois no, replicou ela, comeando a olhar os retratos.
      Na primeira, via-se a rvore toda e apenas o alto da cabea de Selena. Na seguinte, havia apenas um brao da garota e parte  seu corpo. Em outra, via-se seu 
rosto, mas estava bem embaado. Selena soltou um gemido.
      Aposto que ele vai perguntar como  que algum pode bater umas fotos to horrveis assim e estragar um filme inteirinho. Pra que fui pedir a V May pra bater 
essas fotos, ainda mais que ela estava com a mente meio confusa? Aposto que esse homem deve estar espantado de eu ainda confessor que elas so minhas.
      - Queremos comprar uma de suas fotos, disse ele.
      - Est brincando! exclamou a garota.
      - No. De vez em quando, quando vemos uma foto muito boa, gostamos de comprar para colocar na vitrina como propaganda da loja.
      - Foto muito boa? repetiu ela.
      - . Est aqui, explicou o homem, pegando uma que estava por baixo de todas.
      Era a que a me havia batido. E Selena teve de concordar com ele. Realmente tudo sara perfeito. O fundo dela era uma mistura de tons amarelo e laranja, as 
cores das folhas das rvores. E ela tambm ficara muito bem. Estava sorrindo com uma expresso de expectativa. Seu rosto estava rosado e os olhos brilhavam. A me 
a pegara da cintura para cima. O preto do chapu contrastava com o colorido das folhas ao fundo. O melhor de tudo, porm, era seu cabelo. Os cachos louros caam 
sobre os ombros como uma leve cascata. A luz do Sol do entardecer batia neles, dando-lhes um reflexo dourado, parecendo espelhar as cores das folhas.
      - Tem outras iguais a esta? indagou o balconista.
      - No. S esta. Era a ltima pose e foi tirada quase sem querer.
      - Mas  uma foto excelente. Quer nos vender?
      - , posso vender uma copia, mas preciso deste original e do negativo.
      - Negcio fechado, replicou ele. S preciso que voc assine aqui uma declarao, liberando o uso dela. Depois mandaremos o cheque pelo correio.
      - timo! Muito obrigada!
      Selena se sentiu muito importante no momento em que relatava o fato aos familiares  noite,  mesa do jantar. No mostrou a ningum as outras fotos, pois no 
queria que V May soubesse que havia estragado tudo.
      - E quanto  que eles vo pagar? indagou a me.
      - S 20 dlares. Quer a metade, j que foi voc que bateu?
      - Claro que no. Provavelmente voc precisa desse dinheiro pra comprar presentes de Natal.
      Mais tarde, naquela mesma noite, j no quarto, Selena se deu conta de que a me tinha razo. Havia gastado todas as  economias com a compra do bordado, do 
filme e do porta-retratos. E tudo seria para o Paul. Ficara sem dinheiro; e no teria como comprar presentes para os familiares. Ao embrulhar o retrato, lembrou-se 
de que no teria nem o do selo para enviar a caixa para o rapaz. Contudo no ficou preocupada. Pelo menos j tinha tudo que queria mandar para ele. O carto custara 
trs dlares, mas era maravilhoso. A ilustrao era a foto de um rapaz e uma moa andando de mos dadas em uma campina florida. Na parte de dentro, tinha a inscrio: 
"Estou pensando voc, no dia do seu aniversrio, e mandando-lhe meus votos de felicidades. Parabns!" Achou a frase bem romntica e at um  pouco "adocicada" demais, 
mas gostou.
      O que realmente acabara com o dinheiro tinham sido as coisinhas que comprara para mandar na caixa. Adquirira diversos pacotinhos, principalmente de doces e 
balas, que no vira nem na Inglaterra nem na Irlanda, onde estivera no comeo do ano. A essa altura, o Paul j devia estar com saudades dos doces de sua terra. Comprou 
ainda um bolinho, desses que vinham embalados em unidades, e mais uma caixinha de balas prprias para festa de aniversrio. Colocou no pacote uma lata de castanhas 
mistas, um saquinho de cornetinhas tpicas de festa, para fazer barulho, chapeuzinhos de papel e um joguinho. Ela comprara ainda uma caneca de cermica grossa para 
ele tomar o caf. O pacotinho de caf coube direitinho dentro da caneca. Envolveu-a  em uma folha de plstico com bolhas para proteg-la bem. Estava pronta sua caixa 
com os presentes de aniversrio para o Paul.
      Horas depois, ela terminou de preparar tudo do jeito que queria. Contudo hesitou bastante antes de arranjar o porta-retratos e coloc-lo na caixa. No que 
no gostasse da foto que sua me tirara, no, O problema  que a garota que estava na foto se parecia demais com ela. A Selena com o vestido verde, pensou, causaria 
uma impresso melhor no rapaz. Contudo seu dinheiro acabara e no tinha mais como tirar outras fotos.
      Espalhou sobre a cama os retratos que V May batera, todos defeituosos. Iria recort-los, tirar um brao de um, uma perna de outro, a cabea de outro. Montaria 
um quebra-cabeas com eles. Ficou a pensar se era assim que sua av via o mundo, de forma toda fragmentada. Achou que ajuntar todos os pedaos das fotos seria um 
"exerccio mental" interessante. Mas no hoje. J demorara muito embrulhando o presente; e ainda tinha de terminar o dever de casa.
      Passava de meia-noite quando Selena acabou de escrever a carta que iria mandar dentro da caixa. Estava exausta. Precisou de muito esforo para concluir tudo 
- fechar a caixa com fita adesiva e escrever o nome e endereo dele nela. No tinha mais condies de fazer o trabalho da escola. Teria de termin-lo amanh, de 
algum jeito, antes de ir para a aula.
      No houve jeito. As horas "voaram". Ela teve de ficar com zero em um dos trabalhos de ingls. Ficou furiosa. Agora teria de fazer outros trabalhos para no 
ficar com nota muito baixa. E o que ela menos podia era pegar mais tarefas escolares, j que seu tempo se achava todo tomado.
      De manh, pediu dez dlares emprestados  me para enviar o pacote. Assim que as aulas terminaram, pegou o carro e foi no correio. Em seguida, dirigiu-se  
Mother Bear para ver se poderia fazer umas horas extras e aumentar sua renda. D. Amlia examinou a tabela de empregados e disse que ela poderia trabalhar dois dias 
pela manh, na semana do Natal. Selena aceitou. No  adiantaria muito no sentido de solucionar sua "crise" financeira, mas j ajudava um pouco. Precisava de dinheiro 
para pagar o que pedira emprestado.
      A primeira providncia que tomou ao chegar em casa foi verificar a caixa do correio. No chegou nada de Paul. Teve de fazer um esforo para no deixar que 
aquilo a aborrecesse. Contudo, quando se lembrou de todo o trabalho que tivera na noite anterior com a caixa de presentes para ele, sentiu-se um pouco abatida. Afinal, 
por causa dela tirara um zero em ingls.
      E o pior era que nessa noite tambm no teria muito tempo para terminar os deveres. Estava muito atrasada com o bordado para o Paul, e precisaria trabalhar 
vrias horas nele para adiant-lo. No dia seguinte, iria trabalhar. Na sexta-feira  noite, seria a estria do Ronny no The Beet. No sbado, trabalharia. No domingo, 
iria  igreja e  noite estaria na Highland House ajudando na Linha Jovem. No lhe sobrava muito tempo para dedicar ao bordado, com aqueles pontinhos midos.
      Subiu correndo para o quarto e se ps a trabalhar nele. S pensava em Paul; em nada mais. E enquanto ia cuidadosamente fazendo as chamas sobre a montanha, 
pensou: Acho bom ele reconhecer todo esse trabalho que estou tendo por causa dele.  s o que posso dizer.
      

Captulo Quatorze
      
      - Aqui, gente! gritou Amy, acenando para Selena e Vicki.
      Estava sentada em uma mesinha de canto, no The Beet, e chamava as amigas para irem ficar com ela. As duas foram caminhando por entre o povo, sentindo-se envolvidas 
pela msica alta e pelo vozerio ainda mais barulhento.
      - Puxa! est lotado! exclamou Vicki, tirando o bluso e pendurando-o nas costas da cadeira junto a Amy. Nunca vi isto aqui to cheio!
      -  mesmo, interps Amy, falando alto em meio ao barulho da msica ambiente. Mas adivinha qual  o principal grupo que vai tocar aqui hoje? The L's.
      - 'T brincando! comentou Vicki berrando tambm. Aqui? Neste nosso barzinho?
      Selena j ouvira o The L's; e gostava do jeito como tocavam, com seus pistons, saxofones e guitarras. O som deles era muito vibrante.
      - Ento os The LB's vo fazer a abertura para os The L's? indagou Vicki.
      - , vo, replicou Amy. S que o nome deles no  mais The LB's. Eles acham que tocando antes do The L's vai ficar parecendo que esto querendo imitar.
      - Ento qual vai ser o nome? quis saber Selena.
      Aquela msica alta estava comeando a lhe dar dor nos ouvidos.
      - Parece que esto resolvendo agora, explicou Amy, dando de ombros.
      Selena se remexeu, acomodando-se melhor na cadeira e aproximando-se mais de Amy. A mesa balanou. As cadeiras eram todas diferentes umas das outras, e cada 
uma pintada numa cor. Selena gostou da decorao do barzinho, bem arrojada, meio amalucada. No alto, havia uma canoa verde suspensa do teto. No centro dela via-se 
uma abertura, e nesta, uma lmpada. No palco, havia uma cabea de alce empalhada. Bem no focinho do animal, haviam colocado uma mscara de oxignio. Atrs da sua 
orelha direita, havia uma flor vermelha.
      O ingresso no The Beet era trs dlares e um quilo de algum alimento. Tudo que fosse arrecadado seria doado para o templo do Exrcito de Salvao que ficava 
no centro da cidade. Como Selena tinha s trinta e sete centavos, teve de pedir emprestado a Vicki o dinheiro para o ingresso. Nesse momento, uma garonete aproximou-se 
da mesa delas. Estava vestida com um macaco de veludo cotel e perguntou se iriam beber algo. Selena pediu s gua.
      Tirou o bordado da mochila, pensando em adiant-lo um pouco enquanto aguardava que o grupo de Ronny abrisse a apresentao musical daquela noite.
      - Que  isso? indagou Amy.
      - Um bordado que quero dar de presente de Natal. Quero ver se acabo at l.
      - Mas aqui? espantou-se a amiga, dando uma olhada para Vicki e depois fitando Selena. Ei, Selena, isto aqui  um barzinho, e no um clube de costura. Aqui 
a gente tem  de rir, conversar e se divertir; no ficar tricotando!
      Selena cedeu, acatando a censura da amiga, e guardou o bordado de volta na mochila.
      - Como  que se pode conversar com este barulho?
      - Que barulho que nada! disse Amy. Barulho vai ser quando as bandas comearem a tocar.
      De repente Selena se viu como uma velha. Desde quando o barulho a incomodava? E como fora pensar em levar seu bordado para ali? Se no era para entrar na atmosfera 
festiva do lugar, seria melhor ter ficado em casa!
      Vicki fez um aceno para amigos que avistou ali por perto. Amy correu os olhos pelo ambiente.
      - Algum o viu? indagou.
      - Quem? O Nathan? perguntou Selena.
      - Claro que  o Nathan. Se voc o avistar, me fale, o.k.? Passei o dia todo preocupada com isso. Se ele vier aqui, gente, estou avisando, a coisa pode engrossar.
      - Voc no vai fazer nenhuma estupidez, n? comentou Vicki em tom confiante, pegando o cabelo longo e liso e enrolando-o para fazer um coquezinho. Ns estamos 
aqui pra lhe dar uma fora, viu? Vocs esto com calor, gente, ou sou s eu?
      - Est muito quente aqui, concordou Selena.
      Ela j ia sugerir que fossem l fora um pouquinho para se refrescar, quando a msica ambiente parou. Um cara com chapu preto e comprido subiu ao palco.
      - Queremos msica pra agitar! gritou ele, a voz ecoando nas paredes da casa.
      -  hora de mexer os ps! gritou em coro a platia, constituda principalmente de clientes do bar.
      Selena nunca vira nada igual. Aquilo era muito engraado! Era meio bobo, mas bem alegre e divertido.
      - Com vocs, os Three-Two-Ones!
      - Three-Two-Ones? indagaram ao mesmo tempo Selena e Vicki.
      - Eles devem ter resolvido adotar nmeros em vez de letras, comentou Amy, gritando por causa do barulho das palmas.
      Ronny e seu grupo entraram correndo no palco, e logo o baterista se ps a tocar o instrumento num ritmo compassado. Selena percebeu que o Ronny estava tenso. 
Tinha um sorriso forado, erguendo os dois lados da boca. Seu sorriso normal era diferente, entortando apenas um dos cantos da boca. Hoje ele estava parecendo mais 
um garotinho num debate em sala de aula. Achava-se muito aprumado e rgido, os ps bem juntos, e a guitarra pendurada ao pescoo. Estava usando seu bon de beisebol, 
ao qual se achava pregado seu rabo-de-cavalo. Naquele momento, a cabea do alce presa  parede parecia mais  vontade que o coitado do Ronny.
      A primeira msica que eles tocaram foi uma das preferidas de Selena. E na opinio dela, eles a tocaram de forma impecvel. A platia aplaudiu animadamente, 
e a garota respirou aliviada. Pelo menos os Three-Two-Ones tinham dado uma boa largada, e os espectadores haviam gostado. Por outro lado, no seria difcil arrancar 
aplausos daquele pessoal. A turma reunida no The Beet parecia ter ido ali disposta a se divertir.
      Na segunda msica, Ronny deu a impresso de estar um pouco mais relaxado. E ao encerrar a terceira, j olhava para Selena com aquele sorriso tpico, entortando 
a boca. E aquela era a sua ltima cano. Justamente agora que haviam comeado a engrenar.
      - Maravilhoso! disse Vicki toda animada. O Ronny estava lindo, no estava?!
      - Estava era muito tenso, comentou Selena.
      - No comeo, sim, mas depois ele se soltou.
      Houve um pequeno intervalo, e em seguida os The L's surgiram no palco. A garonete trouxe o pedido, e Selena se ps a tomar a gua. O salo estava lotado e 
muito quente. Achou que deveria ter vestido uma camiseta, em vez de uma suter.
      - Oi, Helen! gritou Vicki, cumprimentando uma conhecida do outro lado do salo.
      A garota acenou de volta. Nesse momento, Amy agarrou o brao de Selena e deu-lhe um aperto.
      - Olha o Adam ali, disse. Ele  amigo do Nathan. Ser que o Nathan est aqui? Algum viu o Nathan, gente?
      Selena girou a cabea, correndo os olhos pelo salo.
      - No. Pode ser que no esteja aqui.
      - Se o Adam veio,  bem provvel que ele tenha vindo tambm. E eu no quero v-lo.
      - Isto aqui 'ta lotado, Amy, replicou Selena. Mesmo que ele esteja a, pode ser que vocs no se encontrem. Se eu fosse voc, no esquentaria a cabea, no.
      - , mas voc no  eu, respondeu a amiga em tom brusco. Vou embora. No quero passar por isso.
      - Mas e os The L's? interps Selena.
      Amy no respondeu. Pegou a bolsa e pendurou-a no ombro.
      - Ento na segunda-feira a gente se v.
      E foi saindo, abrindo caminho por entre o povo. Selena e Vicki se entreolharam.
      - O que foi que deu nela? indagou Vicki. No entendi nada.
      - Vou com ela, decidiu Selena num impulso.
      No pensara em dizer isso, mas agora estava dito.
      - Voc pode arranjar uma carona pra voltar pra casa? perguntou a amiga.
      Vicki deu um amplo sorriso.
      - Claro. Vou pedir ao Ronny pra me levar, explicou.
      Selena agarrou a mochila e sorriu rapidamente para a colega.
      Na verdade, o melhor imprevisto que poderia acontecer a Vicki naquela noite seria "precisar" de uma carona do Ronny.
      - Ento, tchau! A gente se v depois.
      Selena saiu, passando no meio do pessoal e procurando seguir Amy. Naquele momento o The L's surgiu no palco, e logo em seguida ouviu-se um toque alegre de 
piston e sax.
      "If you give a man a fish..." (Se dermos um peixe a algum...) comeou a cantar o vocalista. Selena ficou um pouco chateada de estar indo embora. Gostava dessa 
msica. As canes desse  grupo sempre a deixavam animada e alegre. Entretanto se achava ali, correndo atrs da amiga desorientada, que, alis, no dera o menor 
sinal de que desejava algum em sua companhia.
      Saiu para o ar frio da noite e avistou Amy parada perto do prdio. Estava frente a frente com Nathan. Selena olhou para o rapaz. Ao claro vermelho do letreiro 
em neon, deu para ver que ele no estava nada satisfeito de haver encontrado a ex-namorada.
      

Captulo Quinze
      
      Selena ficou sem saber o que fazer. Achava-se a pouco mais de um metro dos dois, mas Amy estava de costas para ela. Vrios jovens estavam por ali,  entrada 
do barzinho. A garota tentou se misturar a eles para no chamar a ateno de Nathan. Ser que Amy ficaria chateada se interferisse na conversa deles? Deveria entrar 
de novo no salo? E se acontecesse algo de ruim com a amiga? Amy dera a impresso de estar com medo de encontrar o rapaz. Ser que ele poderia bater nela ou algo 
assim?
      Pendurou a mochila no ombro e mudou o peso do corpo de um p para o outro. O ar frio da noite refrescou-lhe o rosto. Resolveu aproximar-se um pouco mais para 
ver o que estava acontecendo e saber se tudo estava bem. De repente, Nathan pegou o brao de Amy. Como no via a expresso da amiga, no deu para perceber se ele 
a estava forando ou no. S sabia que ela no estava procurando se soltar dele. Mas e se ela no tivesse foras para se soltar?
      Selena concluiu que precisava interferir e defender a amiga. Wesley lhe ensinara algumas tticas de defesa pessoal e ela trazia uma cornetinha na mochila. 
Rapidamente tirou-a da bolsa e se ps de prontido para us-la caso fosse necessrio. Quando seu irmo lhe dera aquele instrumento, dissera-lhe que, se fosse atacada, 
deveria toc-la. Com o barulho, o agressor se assustaria e ela poderia fugir.
      Segurando a cornetinha, ficou atenta a Nathan, observando todos os seus movimentos. Amy abaixou a cabea e o rapaz ps as duas mos no ombro dela como se fosse 
sacudi-la. Em seguida, porm, passou o brao em volta do ombro da garota e foi dirigindo-a para o estacionamento que ficava aos fundos.
      Selena se ps a segui-los, com o corao batendo forte. Estava com o dedo no gatilho da corneta, pronta para apert-la. Cheg.ou mais perto deles e percebeu 
que Amy estava chorando. Sentiu a adrenalina "subir", e isso lhe deu a confiana de que precisava para soar o instrumento. Aproximou-o da cabea de Nathan e apertou 
o gatilho.
      - Foge, Amy, foge! gritou, em meio ao barulho ensurdecedor.
      Nathan tirou o brao do ombro de Amy e tapou os ouvidos, virando-se para Selena. Esta deu um passo para trs, mas Amy no se mexeu.
      - Foge, Amy, foge! repetiu ela.
      - Selena! exclamou a outra.
      Seu rosto molhado de lgrimas tinha uma expresso de espanto.
      - O que est fazendo aqui?
      - Voc estava chorando... gaguejou ela, dando-se conta do silncio que se criara em contraste com o toque da corneta. Nathan estava levando-a a fora.
      - Estava no, replicou Amy, fitando irada a amiga. Ns amos apenas conversar um pouco.
      - O que  que est havendo com voc? perguntou Nathan tomando a corneta. O que est fazendo com isto? E por que est nos seguindo? 
      Ele no era muito forte, mas quando queria ficar bravo, ficava mesmo... como nesse momento.
      - Desculpe... achei que...
      - Achou o qu? indagou Amy. 
      Selena no sabia o que responder.
      - Voc mais do que ningum deve compreender como  importante procurar solucionar as questes que no ficaram bem resolvidas, explicou Amy que parara de chorar. 
Eu e o Nathan precisamos conversar, Selena. Queremos ficar a ss para resolver uns probleminhas. Quer dar licena?
      - Eu... eu... ... desculpe!
      Nathan devolveu-lhe a corneta.
      - Tome, disse ele, v socorrer algum que esteja querendo ser socorrido, disse o rapaz, olhando-a friamente, j que parece que voc acha que essa  a sua misso 
na vida.
      Selena pediu desculpas mais uma vez e virou-se para voltar ao bar. Nunca se sentira to envergonhada como naquele momento. E ela pensara que estava socorrendo 
a amiga... Percebia-se que Amy estava bem mais ligada em Nathan do que dera a entender. Engolindo em seco, enfiou a corneta de volta na mochila e retornou  entrada 
do The Beet.
      - J paguei ingresso, disse ao porteiro.
      - Ento mostre o canhoto.
      Selena enfiou a mo no bolso, mas logo em seguida lembrou-se de que ele ficara com a Vicki, pois fora ela que pagara as duas entradas.
      - O canhoto ficou com minha amiga que est a dentro, explicou.
      O homem fitou-a com ar irnico.
      - , sei, disse ele. Sem o canhoto no pode entrar.
      A garota se ps na ponta dos ps e olhou para dentro do salo lotado. Dali no dava para avistar a amiga. O The L's estava tocando sua msica de maior sucesso: 
The King of Polyester (O rei do polister). Selena teve muita vontade de entrar e se misturar ao pessoal alegre que estava ali. Queria esquecer o fora que dera, 
havia pouco, com a Amy e o Nathan. Mas no havia jeito. No conseguia avistar Vicki e no tinha dinheiro para comprar outro ingresso. Sua nica opo era ir embora 
para casa ou ficar parada ali na entrada. Poderia ficar como os outros fs, que no tinham podido pagar e estavam por ali, ouvindo "pedaos" das msicas que por 
vezes chegavam at eles.
      - Coisa mais ridcula! resmungou consigo mesma.
      Passou-lhe pela cabea dar a volta e chegar a porta do fundo, que dava para o palco, por onde os cantores entravam. Talvez pudesse convencer algum de que 
estava acompanhando a banda de Ronny. O rapaz confirmaria isso e assim poderia entrar. Mas e da? Como poderia relaxar e se divertir sabendo que dera um tremendo 
fora com Amy e Nathan?
      Desalentada, Selena entrou no carro e foi para casa. Consolava-se com a idia de que poderia passar o resto do tempo bordando o presente de Natal que mandaria 
para o Paul. Alis, era isso que deveria ter feito.
      No conseguia resolver se contaria ou no para o Paul o que lhe acontecera nessa noite. Ultimamente, vinha relatando a ele tudo que lhe sucedia. Contudo recebera 
dele apenas aquela carta potica, que chegara na vspera do Dia de Ao de Graas, e  o bilhetinho no qual ele dizia que seu aniversrio era dia 10 de dezembro. 
Embora ela houvesse escrito para ele diariamente, contando todos os pormenores do seu dia-a-dia, ele no respondera nem com a mesma frequncia nem com a mesma riqueza 
de detalhes.
      De qualquer modo, ainda havia o correio do dia seguinte, disse para si mesma vrias vezes. Os finais de semana pareciam muito longos porque no domingo o carteiro 
no passava entregando a correspondncia. Ainda assim, na segunda-feira, ela verificaria a caixa com a mesma esperana que sentira no sbado. Se no chegasse nenhuma 
carta dele, guardaria as esperanas para a tera-feira.
      Parou o carro em frente da casa e deu uma olhada para o marcador de gasolina. O ponteiro j estava oscilando perto da rea vermelha. Na prxima vez que ligasse 
o veculo seria para ir direto ao posto. Contudo, quanto de combustvel poderia colocar com trinta e sete centavos?
      Da forma como se sentia naquele momento, sua vontade era de se esconder em seu quarto, ligar uma msica bem triste e trabalhar mais no bordado. Entrou em casa 
pensando exatamente isso.
      Os pais estavam sentados no sof da sala, assistindo a um filme junto com Kevin e Dilton. O pai chamou-a.
      - Voc chegou antes do que espervamos, comentou a me.
      Selena resolveu no dar muita explicao para o fato de haver chegado mais cedo e replicou:
      - , estava muito bom l, mas tenho muito o que fazer.
      - Ser que d para termos uma conversa? indagou o pai.
      No estava muito a fim, no. Sabia que iriam falar sobre sua idia de ir estudar na Esccia.
      - A noite est muito agradvel, continuou o pai. Vamos sentar l na varanda.
      - Vou fazer caf, interps a me.
      Selena sentiu um aperto no corao. Quando o pai se sentava no balano da varanda e a me fazia caf e o levava para ele, era sinal de que a conversa seria 
longa. Era bem verdade que ali naquele balano j haviam tido muitos papos legais e maravilhosos, como, por exemplo, na noite em que chegara de sua viagem  Inglaterra. 
Entretanto estava imaginando que o de hoje seria meio difcil. Teria de se defender e provar para os pais que era suficientemente madura para tomar decises. A semana 
fora to cheia que no tivera tempo de fazer as pesquisas a respeito dos cursos da universidade nem das bolsas de estudo. No teria nenhum  argumento para defender 
o seu anseio de ir estudar em Edimburgo. Hoje a conversa s iria pender para o lado do pai. E ela estava com a forte impresso de que ele no mudara de opinio com 
relao ao assunto.
      Foi seguindo o pai em direo a varanda e, de passagem, pegou um cobertor que se achava sobre o sof. A noite estava clara. Isso significava que estava mais 
fria. Quando o cu se cobria de nuvens, com aquela cor bege, sem graa, era menos frio.
      - Precisamos conversar sobre voc e o Paul, principiou o pai.
      - Por qu? indagou ela quase sem pensar e logo em seguida acrescentou: Quero dizer, achei que queriam conversar sobre eu ir estudar na Esccia; no sobre o 
Paul.
      - Os dois assuntos esto ligados, replicou ele com voz calma, procurando tranquiliz-la.
      Selena compreendia que poderia conversar com o pai sobre qualquer assunto. Sempre pudera. Agora, porm, estava sentindo que devia assumir um ar de distanciamento, 
para demonstrar que j tinha juzo e idade suficiente para tomar as decises que lhe diziam respeito. E relutava em "baixar a guarda".
      - Me conte como est indo seu relacionamento com o Paul, pediu ele. Outro dia voc falou que esto se correspondendo.
      Selena acenou que sim, mas no deu maiores explicaes.
      - Com que frequncia voc escreve para ele?
      - Muitas vezes, replicou ela.
      - Todos os dias? Uma vez por semana? Duas vezes por dia?
      - Sei l. Quase todo dia.
      - E quantas vezes ele escreve para voc?
      - Quase todo dia tambm, disse Selena.
      O pai olhou-a com ar interrogativo.
      - Quando foi que voc recebeu a ltima carta dele?
      - Uns dias atrs.
      - Foi uma carta longa, cheia de detalhes?
      - No, foi curta. Mas a que veio antes dessa foi bem comprida.
      - E quando foi que a recebeu?
      - Na vspera do Dia de Ao de Graas.
      - E antes dessa?
      - Ah, acho que foi o pacote que veio com o retrato dele.
      - Ele mandou uma carta no pacote?
      - No.
      Selena j estava comeando a fazer os clculos por si mesma. Entre a chegada do retrato e a carta seguinte, tinha havido um intervalo de dez dias. O pai fez 
uma pausa e em seguida j ia dizer algo quando a garota interveio.
      - Creio que ele escreve uma vez por semana ou de dez em dez dias.
      O pai fez um aceno afirmativo.
      - Mas parece que  com mais frequcia, prosseguiu ela. Sei que ele pensa em mim muitas vezes, e eu tambm penso muito nele.
      Nesse ponto, a me chegou com duas canecas de caf puro e entregou uma para o marido. A seguir, foi se sentar numa cadeira que estava em frente deles, do outro 
lado da varanda, e puxou para o pescoo a gola do seu moletom.
      - O que  que ele diz nas cartas? indagou o pai.
      - Como assim? perguntou Selena, sentindo-se cair na defensiva.
      - Ele diz que est com saudade? Que quer v-la de novo?
      - , diz, respondeu ela, falando devagar.
      No se lembrava de nenhuma carta em que ele tivesse dito isso com essas palavras. Contudo sabia que ele sentia isso. E ela, por seu lado, j o dissera para 
o rapaz.
      Houve um momento de silncio. O forte aroma do caf estava no ar, chegando at Selena.
      Que engraado! pensou a garota. Meus pais esto bem aqui e no entanto parece que se encontram a quilmetros e quilmetros de distncia. Por que esto me interrogando 
desse jeito? Ser que no confiam em mim?
      Teve a impresso de que estavam longe dela e que, de l, eles a condenavam por estar se envolvendo emocionalmente com um rapaz que, como os fatos demonstravam, 
no parecia ter o mesmo grau de interesse por ela.
      Paul escreve poemas pra mim, pensou, mas de repente interrompeu o raciocnio. Espere a! Ser que ele realmente escreveu aquelas poesias pra mim? Pode ser 
que ele apenas as tenha escrito e mandado pra mim. Mas ele me mandou um retrato dele e pediu o meu tambm. Se ele no tivesse algum interesse por mim e no quisesse 
uma imagem minha perto dele, certamente no pediria!
      - No consigo acreditar que vocs j esqueceram o que  gostar de algum romanticamente e ler nas entrelinhas o que essa pessoa est dizendo, comentou ela, 
percebendo que sua voz tremia. Essa  a primeira vez na minha vida em que estou fortemente interessada em um rapaz e vocs esto querendo nos separar. Isso me parece 
to injusto! Ser que no podem simplesmente se alegrar comigo? No h nada de errado nessa correspondncia minha com o Paul. No gostei nem um pouco de darem a 
entender que estou fazendo algo errado.
      Selena parou. Repassou mentalmente o que acabara de dizer. Parecia que j ouvira isso antes e, naquele momento, lembrou-se de tudo. Amy lhe tinha dito essas 
mesmas palavras no dia seguinte ao seu primeiro encontro com Nathan, quando Selena a questionara sobre seu relacionamento com o rapaz.
      - Eu... principiou ela. , no estou com muita vontade de  conversar sobre isso agora. Os dois se importam se eu for para  quarto pra pensar um pouco nesse 
assunto? Acho que prefiro falar sobre essa questo mais tarde.
      A me olhou para o pai e este acenou que sim.
      - 'T bom, disse Sharon Jensen em voz baixa.
      Selena se levantou, sentindo o corao bater com fora.
      - Filha, disse a me, lembre-se de que ns a amamos. E s queremos o seu bem. No se esquea disso, o.k.?
      A garota no soube ao certo o que responder. Virou-se ligeiramente para os pais e lhes dirigiu um olhar triste. Em seguida entrou na sala.
      

Captulo Dezesseis
      
      - Mas a questo  que meu relacionamento com ele no  nem um pouco parecido com o de Amy e Nathan, disse Selena para o Ronny no dia seguinte.
      Ele aparecera na Mother Bear no momento exato em que Selena iria comear seu horrio de almoo e resolveu  fazer-lhe companhia. Geralmente, aos sbados, Ronny 
passava o dia todo aparando gramados. Contudo hoje, como estava chovendo demais, ele no pudera fazer esse servio. Por outro lado tambm, estava havendo uma liquidao 
nos shoppings e, ao que parecia, todos os fregueses da confeitaria tinham ido para l.
      D. Amlia ofereceu ao rapaz um pozinho de canela, de graa. Estava com a cobertura de glac e quentinho, do jeito que ele gostava. Ela queria demonstrar que 
estava em paz com a vida nesse dia, apesar do movimento fraco. Em seguida, ela sugeriu que os dois fossem se sentar numa mesa do canto e curtir a calma da tarde.
      Selena empurrou de lado a caixinha de leite que estava vazia e inclinou-se para a frente, aproximando-se mais de Ronny.
      - O que estou querendo dizer  que no caso de Amy e Nathan, desde o comeo, eles tiveram um relacionamento mais fsico. O meu com Paul  mais espiritual. Ns 
curtimos um ao outro no nvel da emoo. Acho que poderamos at dizer que somos "almas gmeas".
      Ronny limitou-se a ouvi-la, sem fazer nenhum comentrio, concordando ou discordando.
      - No compreendo por que meus pais esto complicando tudo, continuou a garota. Eu sou totalmente pura, e eles sabem disso. Voc tambm sabe. Todo mundo sabe. 
Se eles esto convencidos de que estou fazendo algo to errado, ento pra que estou usando isto?
      E aqui ela ergueu a mo direita para o rapaz, mostrando a aliancinha de ouro no dedo. Era o anel de compromisso do pureza que o pai havia lhe dado.
      - Me responda isso, prosseguiu. Que  que adianta meus pais dizerem que confiam em mim, que esto satisfeitos com as decises que tomo, se no entendem por 
que esse meu relacionamento com Paul  to maravilhoso? Por que eles querem atrapalhar tudo?
      Ronny no respondeu. Limitou-se a erguer uma sobrancelha e pegar um pedao do pozinho que estava na mesa  frente dele.
      - Que  que adianta? insistiu Selena.
      O rapaz enfiou o ltimo pedao de po na boca.
      - Ah, voc fez isso s pra no me responder, n?
      - No, replicou ele, falando meio embolado. No tenho nenhum problema em falar de boca cheia. Estava apenas querendo ser educado.
      Selena afastou os olhos do rosto dele para no ver o po mastigado dentro da boca do amigo. Ronny o engoliu e deu um estalido alto com os lbios.
      - Ento me diga s uma coisa, falou ela, virando-se de novo para o colega. Por que meus pais esto agindo como se houvesse algo de errado em meu relacionamento 
com Paul?
      - E h?
      - H o qu?
      - Algo de errado.
      - No; est tudo timo. No, melhor que timo, est fantstico!
      Ronny no respondeu.
      - Estou aborrecendo-o com essa minha conversa, n? indagou ela, olhando atentamente para o amigo. Parece que estou falando sem parar sobre esse meu problema.
      - Mas  assim que voc o resolve, interveio o rapaz. No precisa da minha opinio. Quando acaba de falar tudo que tem de dizer, voc descobre a soluo. Lembra 
daquela noite quando fomos acampar, e voc no sabia direito o que sentia pelo Drake?
      Ela se lembrava direitinho. Era uma recordao que a deixava muito sem graa. Estava escuro e ela entrara na barraca de Ronny, achando que era a de seu irmo. 
Em seguida, pusera-se  a abrir o corao para ele. No fim ela esbarrara em algo e a barraca desmontara em cima deles. Assim todo mundo ficou sabendo que Selena estava 
onde no deveria estar - no alojamento de um rapaz. Sua vontade era esquecer aquele episdio; e gostaria que o amigo o apagasse da mente tambm.
      Alm disso, prosseguiu o colega, no sei o que responder. Alis, no sei nem qual  o problema.
      Selena baixou a cabea e ps a mo no rosto num gesto de impacincia.
      - Ronny, o problema  que meus pais esto dando a entender que no estou enxergando direito tudo que diz respeito ao meu relacionamento com Paul.
      Ergueu os olhos para o amigo para ver se ele estava atento
      - Querem que eu pare de me corresponder com ele. Mas por qu? Ser que acham que sou muito nova pra ele? J tenho dezessete anos! Em alguns estados, uma moa 
com dezessete anos j tem at permisso pra casar!
      -  mesmo? indagou Ronny, parecendo surpreso com a informao.
      - Creio que sim. No sei. A questo  que j tenho idade suficiente pra saber o que quero e o que  bom pra mim.
      - E o que  bom pra voc?
      - Paul! replicou ela com firmeza. Ei, no escutou nada do que eu disse?
      - Claro que escutei! Ento me diga, por que o Paul  bom pra voc?
      - Ah, replicou a garota sorrindo, ele me faz sentir bem comigo mesma. Desperta o meu lado criativo. E quando leio as cartas dele, sinto uma intensa sensao 
de bem-estar!
      - E ele a influencia pra buscar mais a Deus? indagou Ronny.
      - O qu?
      - Isso no era um item da sua lista de requisitos? perguntou ele. Certa vez voc me disse que havia feito uma lista de condies para o rapaz que gostaria 
de namorar. Lembro-me de que uma das metas que colocou era que seu namorado a ajudasse a buscar mais a Deus e que voc tambm fizesse o mesmo por ele.
      - Ah, sei. Sim, claro que eu e o Paul estamos ajudando um ao outro a nos aproximar mais de Deus, replicou ela, num tom de quem recita o juramento  bandeira.
      - Lembra-se daquela conversa que tivemos na barraca, quando voc disse que estava vivendo de emoes e nada mais? interps o rapaz.
      Selena fitou-o com uma indagao no olhar, como quem procura recordar.
      - E eu lhe falei pra no ficar se "castigando" muito por ser impulsiva e se deixar levar pelas emoes.
      Ela no se lembrava.
      - Pois ainda acho que no deve se censurar por ser assim, insistiu ele.
      - E o que mais?
      - Mas tenha um pouco mais de cuidado com suas emoes.
      Selena recostou-se na cadeira.
      - E  s isso que pode me dizer? No vai me dar alguns argumentos pra eu apresentar a meus pais?
      Ronny abanou a cabea.
      - No, disse. Voc mesma vai descobrir a soluo certa. Sozinha. Continue conversando sobre o problema. Depois de algum tempo, vai enxergar claramente como 
deve agir.
      A lgica racional de Ronny no entrou bem na cabea de Selena. O que ele quisera dizer quando falara sobre "ter mais cuidado com as emoes"? O nico ponto 
em que concordava com ele era que, de fato, muitas vezes ela encontrava a soluo dos problemas quando falava sobre eles.
      A dificuldade agora era achar algum com quem pudesse conversar sobre o assunto. J falara com o amigo e ele dera sua opinio, mas isso no a ajudara muito. 
Com Amy? Era bem provvel que a colega no quisesse conversar com ela nunca mais. Tnia tambm no, o que era pssimo, pois por diversas vezes a irm lhe dera bons 
conselhos. Alm disso, Tnia entenderia bem o que era estar gostando de um rapaz da famlia MacKenzie, j que estava bem ligada ao Jeremy. E a Vicki? , poderia 
conversar com ela no apenas sobre o conflito com os pais por causa do Paul, mas tambm sobre a Amy. Resolveu que iria ligar para a amiga assim que terminasse o 
trabalho.
      Deu uma espiada para o relgio. Faltavam trs minutos para encerrar seu horrio de almoo.
      - Tenho de ir trabalhar, disse para Ronny. Obrigada por ter me escutado.
      O rapaz deu um sorriso.
      - Ah, disse ele, recebemos 200 dlares pela apresentao de ontem  noite.
      - Oh, Ronny, esqueci de lhe perguntar sobre isso. Que timo! Vocs tocaram muito bem. Fiquei to empolgada com a estria de vocs. E fazendo a abertura para 
os The L's, heinn? Que legal! O bar estava lotado! Achei que saiu tudo perfeito!
      - Tivemos uns errinhos na terceira msica, explicou o rapaz. No percebeu, no?
      - Absolutamente nada!
      - Ainda bem, exclamou ele com ar satisfeito. No a vi depois do show. O que aconteceu?
      Selena respirou fundo, meio irritada.
      - Ah, fiquei presa do lado de fora. A Vicki estava com canhoto do meu ingresso. A eu sai pra ver o que estava acontecendo com a Amy e no pude voltar, explicou, 
abanando a cabea. Agi como uma idiota. Vi a Amy caminhando para o estacionamento junto com o Nathan e achei que ele a estava obrigando a acompanh-lo, ento...
      Ronny esperou que ela conclusse.
      - Ainda no entendo como fui dar um fora daqueles. Toquei uma corneta na cabea do Nathan e gritei pra Amy sair correndo.
      O rapaz arregalou os olhos. Parecia que ele estava com vontade de rir.
      - E ela correu?
      - No. Acabou que os dois queriam ficar a ss pra ter uma conversa. Agora eles devem estar furiosos comigo.
      - Um pouco de cuidado  bom, mas demais...
      - , eu sei, disse Selena. Exagerei de novo.
      Ronny foi dando um sorriso lento.
      - , uma coisa  derreter os marshmallows; outra  a cozinha pegar fogo.
      - O que voc quer dizer com isso?
      - Estou falando do princpio de incndio que houve em sua casa. Lembrei-me disso agora. Para derreter o marshmallow s  necessrio um pouco de calor. A tudo 
bem. Mas embora o calor seja um elemento positivo, se for exagerado, incendeia a cozinha.
      Selena no deu muita ateno ao raciocnio dele.
      - O que mais me aborrece, comentou,  que na semana passada parecia que tudo havia se acertado entre ns e a Amy. Eu, ela e a Vicki tivemos uma conversa tima 
e combinamos de nos encontrar aqui na Mother Bear toda segunda-feira. Agora tudo foi pelos ares, pegou fogo, como diz voc.
      - Talvez no.
      Selena deu outra espiada para o relgio.
      - Terminou meu horrio de almoo. Tenho de voltar para o balco. Muito obrigada, de novo, por ter me escutado.
      - s ordens! disse ele, estendendo o brao e dando um leve aperto no pulso dela. No deixe isso desanim-la, no. Tudo vai se resolver - Paul, Amy, tudo. Sempre 
resolve. Deus est no controle.
      - Obrigada. Eu estava mesmo precisando de uma palavra de estmulo hoje. Ah, e meus parabns porque tudo saiu muito bem ontem!
      Antes que o rapaz sasse, ela ainda fez outro agradecimento.
      - Ah, obrigada pela carona que deu  Vicki ontem, disse, com um leve toque de curiosidade.
      - Vicki? indagou ele. Eu no dei carona pra ela no. Foi o Warner.
      - Ah, exclamou ela e, virando-se, fez uma caretinha consigo mesma.
      No via a hora de se encontrar com a amiga para saber o que acontecera.
      Contudo s na segunda-feira  tarde foi que ela ficou a par dos fatos. Ligou para Vicki no sbado  noite, mas a colega no se achava em casa. Ento passou 
o resto da noite trabalhando em seu bordado para Paul. No domingo depois do almoo, pegou-o de novo.  noite, na Linha Jovem da Highland House, ficou o tempo todo 
ocupada com as ligaes. Depois que voltou para casa, foi terminar os trabalhos da escola, o que s acabou j bem tarde, aps a meia-noite. Na segunda-feira, na 
hora do  almoo no Royal, sentou-se com Vicki, mas o Ronny, o Warner e outros caras da banda deles tambm vieram se juntar a elas. A no pde conversar com a amiga.
      O assunto deles a hora do almoo, alis, da escola toda, era o The Beet. A indagao geral era se o grupo de Ronny iria manter o nome Three, Two, Ones. O rapaz 
explicou que haviam pensado nesse nome no ltimo minuto, na sexta-feira. A maioria do grupo gostara. Os outros acharam que era meio "pobre" e prometeram arranjar 
um melhor.
      Terminadas as aulas, Selena foi esperar Vicki junto ao escaninho da colega. Quando esta finalmente apareceu, a garota lhe disse:
      - Preciso conversar com voc. Aonde quer ir?
      - U, ao Mother Bear. No combinamos de nos encontrar com a Amy l? Faltam quinze minutos.
      Selena apoiou a cabea no escaninho.
      - Acho que Amy est chateada comigo.
      Vicki fitou-a espantada. Selena olhou-a meio de lado.
      - Foi por isso que eu disse que tenho uma poro de coisas pra conversar com voc.
      - Bom, replicou Vicki, ela no est chateada comigo. Acho que devemos ir l pra confeitaria, como combinamos. Se houve algum problema, precisamos conversar 
pra solucion-lo. Foi isso que ficou acertado na semana passada, no foi? Ns tivemos muitos problemas em nossos relacionamentos nos anos anteriores porque no nos 
esforamos bem pra resolver as questes pendentes.
      Selena sentiu um aperto no estmago. Nos ltimos dias, vinha tendo essa sensao com bastante frequncia. Percebia que havia algo errado, "fora de esquadro", 
mas no conseguia descobrir o que era.
      Durante a aula, de manh, ela fingira que anotava a matria, mas estava era escrevendo uma carta para o Paul. Disse-lhe que queria muito que ele estivesse 
ali para poder conversar pessoalmente sobre o que estava lhe acontecendo. No sbado, quando estivera com Ronny na confeitaria, ela desabafara bastante. J fora bom. 
O problema era que o colega no lhe dera nenhuma soluo. Limitara-se a falar figuradamente, citando marshmallows queimados. Dissera ainda que ela no devia se censurar 
muito por ser impulsiva e se deixar levar pelas emoes.
      Tinha certeza de que, com Paul, a conversa seria diferente. Ele conhecia seu corao. Iria ouvir tudo que ela tinha para dizer e tambm conseguiria enxergar 
as questes mais profundas. Saberia "ler nas entrelinhas", como os dois faziam cada um com as cartas do outro. Paul lhe daria a orientao certa e lhe diria palavras 
de incentivo. Ele lhe ensinaria como poderia convencer seus pais de que o relacionamento que havia entre eles era muito positivo. E at lhe mostraria como deveria 
agir com a Amy.
      O problema era que ele no estava ali. Esse era o mal de namorar um rapaz que est distante. Quando ele recebesse a carta que lhe escrevera hoje e a respondesse, 
j seria Natal. quela altura, muita coisa poderia ter acontecido.
      De repente, Selena se lembrou de que o Tio Mac havia dito que o amor  paciente. Na hora, pensara que entendia bem tudo isso. Agora, porm, achava que talvez 
ainda no tivesse uma compreenso to clara dessa verdade. Provavelmente precisava ter mais pacincia consigo mesma, com seus foras e com o fato de Paul estar longe 
dela. E tambm era provvel que precisasse ser mais calma com a Amy. E nesse momento teria de exercitar exatamente essa calma.
      Saindo de seu devaneio, ajeitou a mochila no ombro e olhou para Vicki.
      - 'T bom, disse, vamos pra Mother Bear pra ver se a Amy  vai aparecer.
      - Vai, sim, afirmou a amiga em tom confiante. Ela precisa da nossa amizade da mesma forma que ns precisamos da dela.
      

Captulo Dezessete
      
      A sineta da porta da Mother Bear soou, com seu tinido alegre, quando Vicki e Selena entraram. Imediatamente as duas sentiram o aroma de caf, misturado ao 
cheiro de pezinhos recm-assados.
      - Adoro o cheiro deste lugar! exclamou Vicki. Voc fica enfarada dele quando est trabalhando?
      - Enfarada, no, mas s vezes nem o sinto, replicou Selena, correndo os olhos pelas mesas para ver se Amy j chegara. 
      No chegara. E as duas estavam cinco minutos atrasadas.
      - Quer tomar algo? indagou Vicki, encaminhando-se para o balco. Quer ch? Eu pago!
      Selena agradeceu a generosidade da colega. No domingo, havia pegado 5 dlares emprestados com o pai para por gasolina no carro, pois teria de ir  Highland 
House e  aula. No dia seguinte, iria receber. Contudo, depois que pagasse todas as dvidas, teria muito pouco de resto para comprar os presentes de Natal.
      - , quero um ch de hortel, disse. Obrigada, Vicki.
      Acompanhando a colega at o balco, Selena cumprimentou D. Amlia e em seguida perguntou:
      - A senhora se lembra daquela minha amiga Amy? Viu se ela esteve aqui?
      - Creio que no, respondeu a mulher. Mas a loja tem estado muito cheia.
      D. Amlia estava usando um avental que criara especialmente para as festas natalinas. Era de cor vermelha e, na parte superior, tinha uma aplicao com a figura 
de um urso. O animalzinho tinha uma fita na cabea com o desenho de chifre de renas. Selena achou o avental engraadinho, embora meio infantil. No sbado, quando 
usara um deles, percebeu que algumas clientes tinham olhado bastante para ele.
      - Eu lhe falei que uma freguesa perguntou se eu queria lhe vender meu avental? indagou para a patroa.
      - No. Falou no. Espero que voc tenha dito que sim.
      - No; eu disse que a senhora  que o tinha feito e que ela teria de conversar com a senhora.
      - tima idia! Acho at que vou fazer mais uns dois ou trs, trazer para c e pendurar na loja. Vou fazer isso hoje  noite mesmo.
      Selena no conseguia imaginar como algum poderia costurar algo da noite para o dia. Seu bordado estava demorando tanto! E no estava ficando l muito bom, 
no; quanto mais o olhava, mais via defeitos. Comeara-o com muito entusiasmo, mas agora sua animao tinha acabado havia algum tempo.
      D. Amlia foi buscar a gua para o ch e Vicki tirou o dinheiro da bolsa.
      - O que foi que aconteceu sexta-feira  noite? quis saber Selena. Ronny me disse que no foi ele quem lhe deu carona, foi o Warner.
      A amiga girou os olhos para o alto.
      - Nem me fale nisso, por favor, disse. Estou querendo esquecer.
      - Se fosse eu, preferiria pegar um txi a entrar num carro sozinha com Warner.
      - No estava sozinha, explicou Vicki. Havia mais quatro pessoas. E eu fui a primeira a descer. Ento, na verdade, no h nada pra contar.
      - H, sim, insistiu Selena. Por que o Ronny no lhe deu a carona?
      - Ele ia levar o Tre, e na hora l no quiseram ficar apertados pra me levar tambm.
      - Mas o Warner quis, disse Selena, pegando a vasilha de ch que D. Amlia lhe trouxera e agradecendo a mulher.
      - Quis, concordou Vicki, sorrindo para a proprietria da confeitaria, e acrescentou: Quero um capuccino com canela.
      - Parece que nada est saindo exatamente como a gente queria, n? comentou Selena.
      Vicki pagou a compra e as duas pegaram as xcaras, indo sentar-se numa mesa perto da janela.
      - Sei, no, replicou Vicki. Acho que no momento no tenho muito de que reclamar. E creio que voc tambm no tem.
      - Pra mim est tudo pssimo, desabafou Selena, chegando a cadeira para mais perto da amiga para que ningum as ouvisse. Estou tendo um conflito com meus pais 
que est me inquietando bastante. Eles esto querendo ter uma conversa comigo sobre o assunto. Na sexta-feira, comeamos, mas eu no consegui discutir direito o 
problema.
      - Que problema?
      - Paul. Eles no gostam dele.
      - Hein? Quer me explicar isso direito? Quando foi que eles pararam de gostar do Paul?
      - Acho que foi quando comecei a me corresponder com ele. Eles tm a mania de expor a opinio deles sem a dizerem explicitamente. Ento a gente  que tem de 
encontrar a soluo.
      - Pois o jeito deles  melhor do que o dos meus pais. Eles dizem tudo claramente e apontam tudo que estou fazendo  errado.
      - E eu preferia que os meus agissem assim com relao ao problema do Paul. No sei o que eles tm contra ele, ou contra o fato de eu estar gostando dele.
      - Por que voc no pergunta? sugeriu Vicki. Se voc perguntasse, eles lhe diriam exatamente o que esto vendo de errado no caso, no diriam?
      - Creio que sim.
      - Ou ser que voc no est querendo muito saber o que eles pensam?
      - Sei l. S sei que no estou gostando nada dessa constante sensao de que h algo errado.
      - , sei o que est querendo dizer. Tinha essa mesma sensao quando andei afastada de Deus.
      Selena pensou que talvez fosse esse tambm o seu problema, mas rejeitou o pensamento. Considerava-se uma boa crente. Havia vrios anos que era assim. O que 
poderia estar errado no seu relacionamento com Deus?
      Em seguida, ocorreu-lhe outra lembrana. Quanto tempo fazia que no orava nem lia a Bblia? Muito tempo; vrias semanas. Mas  que tinha andado muito ocupada. 
Obviamente Deus compreendia isso. Essa situao no mudava sua condio bsica. Deus a amava do mesmo jeito, isto , incondicionalmente Ela ainda era capaz de testemunhar 
de sua f a qualquer momento. Alm disso, estava trabalhando na Linha Jovem da Highland House. O crente que se afasta de Deus no faz um servio voluntrio desses, 
faz?
      O aperto que sentia no estmago parecia ter piorado. Pedira o ch de hortel exatamente porque ele era bom para dor de estmago. Levou a xcara aos lbios 
avidamente, mas sorvera devagar o lquido quente. Queria se acalmar, no queimar a boca.
      A idia de no se queimar ficou a pairar em sua mente. De tudo o que estava lhe acontecendo no momento, isso era o que ela mais queria. Desejava, sim, ter 
um relacionamento caloroso e agradvel com o Paul. Contudo no queria se "queimar" nem sofrer, como Amy profetizara. Queria ter uma conversa calma e tranquila com 
os pais, sem ficar toda agitada nem "queimar" o bom relacionamento que construra com eles no decorrer dos anos. A idia de "se acalmar e no se queimar" aplicava-se 
tambm  sua amizade com Amy. Jamais quisera perder o controle de seus atos, como acontecera na sexta-feira.
      - Acho que a Amy no vai aparecer, disse Selena.
      Vicki deu de ombros.
      - Se no vier, depois eu ligo pra ela. Creio que  fundamental que no descuidemos desse novo relacionamento que iniciamos na semana passada. Ento, se ela 
disser que est chateada com voc, concorda em ter uma conversa pra resolver o problema?
      - Claro, replicou Selena.
      Ainda se sentia meio ridcula por causa do que acontecera no The Beet. O que fora mesmo que Paul lhe dissera na ocasio em que haviam se conhecido? Ele comentara 
algo a respeito do amadurecimento dessa sua impulsividade no futuro. , estava claro que isso ainda no ocorrera. Pensava que era suficientemente madura para sair 
de casa e ir estudar na Esccia. No entanto via que no estava conseguindo cultivar adequadamente seus relacionamentos mais importantes.
      - E se voc no se importar, Selena, quero dizer que deve ir conversar com seus pais o mais depressa possvel e acertar esse desentendimento com relao ao 
Paul.
      - , eu sei, replicou a garota.
      Tomou outro gole do ch de hortel, mas ele no lhe transmitiu muita tranquilidade.
      E afinal Amy no apareceu mesmo, o que fez com que Selena e sentisse ainda pior. Foi para casa e direto para a cama. Instantes depois, sua me subiu para ver 
o que estava se passando com ela. Selena explicou que no estava se sentindo bem, parecia que ia ficar doente e no queria jantar. Cochilou um pouco, por cerca de 
uma hora, e depois acordou. Resolveu sentar-se na cama. Acendeu a luz e pegou a carta que estava escrevendo para o Paul.
      Ser que  porque sou muito perfeccionista? Quero que tudo esteja bem certinho. Quero que minhas amigas gostem de mim, que meus pais no fiquem aborrecidos 
comigo. Quero que tudo d certo e esteja em paz. Mas neste momento no est assim. Bom,  verdade que algumas reas de minha vida esto bem. No quero lhe mandar 
uma carta totalmente negativa. E tambm no posso dizer que est tudo errado, no. A questo  que muitos aspectos no esto perfeitamente bem. Entende o que quero 
dizer?
      Parou de escrever e deu um suspiro. Releu toda a carta, iniciando a partir do ponto que escrevera na escola. Notou que no passava de um amontoado de frases, 
que no davam em nada. Embolou a folha, amassou-a e jogou no lixo. No era aquilo que desejava que Paul lesse no trem. Ele precisava era de algo que o edificasse; 
no daquela louca fieira de palavras pessimistas. As cartas dele para ela sempre eram inspirativas e animadoras. Queria que as suas tivessem o mesmo efeito nele. 
Ento iria refrear o desejo de escrever para ele todas as vezes que estivesse meio desorientada, como agora. Sentiu uma lgrima brotar no canto do olho.
      - Parece que no consigo fazer nada certo, disse para si mesma, censurando-se. Afinal, o que h de errado comigo? No posso nem escrever para o Paul! E meu 
relacionamento com ele  o elemento mais importante de minha vida!
      Ouvindo o pensamento que acabara de expressar, Selena levou um susto. Repetiu o que dissera para ver se escutara direito.
      - Paul  o que h de mais importante pra mim!
      Essa constatao deixou-a preocupada. Ser que o Paul agora ocupava um lugar que sempre pertencera a Deus? Alguns anos antes, ela decidira que Jesus seria 
a principal pessoa de sua vida. No incio, quando falava disso para algum, sentia que o fazia num tom de vanglria. Contudo confessara esse erro para Deus e continuara 
amando-o. O fato de ter cometido esse pecado no tirara Deus do centro do jardim do seu corao.
      Agora, porm, se fechasse os olhos e tentasse imaginar o jardim do seu corao, no via mais Jesus ali; via Paul. E no fora o rapaz que entrara ali  fora, 
no. Fora ela prpria que o colocara nesse lugar. Percebia que pouco a pouco passara a ignorar a Deus e parara de ter comunho com ele. Finalmente compreendia a 
razo da dolorosa sensao de vazio que havia em seu estmago.
      - Selena! chamou a me do lado de fora, batendo levemente  porta.
      Em seguida, ela abriu e entrou, trazendo o telefone sem fio.
      -  a Tnia. Ela quer falar com voc.
      

Captulo Dezoito
      
      - Al! disse Selena, ajeitando-se na cama assim que a me lhe entregou o aparelho e saiu.
      - Oi, Selena! Mame disse que voc no est passando bem, comentou a irm em tom condodo.
      - Ah, no  nada srio, no. Estou bem.
      - Espero que no esteja ficando gripada. Tem uma gripe "circulando" por aqui, e o pessoal est dizendo que este ano ela veio muito forte.
      - Ah, mas no vou ter nada, no, interveio a garota e, antes que a irm continuasse falando, acrescentou: Tnia, ainda estou muito sentida de haver falado 
sobre Reno, no restaurante! Percebi que voc ficou bastante aborrecida. Desculpe, viu?
      - , fiquei sim, replicou Tnia. Mas fiquei mais chateada do que devia. Quero que voc tambm me desculpe.
      Selena sentiu que pelo menos com relao  irm poderia ficar um pouco mais aliviada. Talvez at devesse desabafar com ela e lhe contar como acabara colocando 
Paul no centro de seus pensamentos, suas emoes e esperanas. Contudo, antes que comeasse a falar, a irm disse:
      - Selena, quero lhe contar algo que me aconteceu hoje, porque voc est orando por mim.
      A garota baixou o olhar, sentindo-se meio triste. No poderia confessar  irm que, havia vrias semanas, no orava por ela , nem por ningum.
      - Recebi um telefonema de Lina Rasmussen, minha me biolgica.
      Selena endireitou-se na cama, ansiosa para ouvir os detalhes.
      - E ela  crente, Selena, continuou a outra. Ficou to alegre quando lhe contei que tambm sou! Daqui a duas semanas, ela vai vir aqui pra nos conhecermos.
      - Oh, Tnia! Que maravilha! Exatamente o que voc queria tanto!
      - Pois ! Quase nem acredito que tudo isso aconteceu to depressa! Eu estava contando para papai e mame que ela falou que minha carta havia ficado debaixo 
de outros papis na mesa dela, e s a encontrou na sexta-feira. Ento ela passou o final de semana orando, perguntando a Deus como deveria responder. Depois resolveu 
me ligar. O telefone tocou; eu atendi, e era ela. Foi um choque tremendo!
      - Pra vocs duas, com certeza! E como  o jeito dela pra falar?
      -  bem meiga, mas com uma leve aspereza na voz, entende?
      Selena deu um sorriso. Entendia perfeitamente o que a irm estava dizendo, pois Tnia tambm lhe dava essa impresso.
      - Eu lhe contei que estou trabalhando como modelo e Lina disse que tambm fora modelo. Trabalhou trs anos nessa profisso, mas depois resolveu voltar a estudar. 
No  impressionante?
      - E como! Tudo isso  muito impressionante! Quando voc a conhecer, vai ficar muito alegre de ver como ela  fisicamente, no? Quero dizer, primeiro voc descobriu 
como ela se chamava e onde morava. Depois ficou conhecendo o jeito de falar. Agora vai v-la. No consigo nem imaginar como voc est ansiosa!
      - Obrigada, Selena, eu sabia que voc me compreenderia. Voc, papai e mame foram os primeiros a quem contei tudo. Assim que acabei de conversar com Lina, 
liguei. J falei com papai e mame. Sei que eles esto muito felizes por mim, mas ficam me dando muito conselho, me mandando ter muita cautela, etc. Eu queria conversar 
com algum que pudesse ficar feliz como eu estou.
      - Pois eu estou muito feliz por voc, comentou Selena. Isso  um fato muito importante de sua vida.
      - Obrigada, disse a irm, fungando de leve.
      E por uns instantes ficou sem dizer nada.
      - Voc ainda 't querendo ir pra Reno no ano que vem? indagou Selena, quebrando o silncio. Quero dizer, voc tem mesmo interesse em estudar na Universidade 
de Nevada ou estava pensando em ir pra l s pra ter a oportunidade de conhecer a Lina, como Wesley e o pessoal disseram?
      Tnia fungou de novo.
      - Ainda no sei bem. Creio que so as duas razes. No sei explicar direito, mas ver a Lina  tremendamente importante pra mim. Parece que ningum estava entendendo 
isso. Todo mundo pensou que era neurose minha querer ir pra l, sabendo que teria chance de ficar perto dela. Mas se ela no respondesse a minha carta, de que outra 
maneira eu poderia conseguir o que tanto queria? Pelo menos, era o que eu estava pensando naqueles dias. Sei que no era uma atitude muito sensata. Mas agora que 
ela telefonou, a situao mudou.
      - Tenho certeza de que ela quer v-la tanto quanto voc deseja isso.
      - Eu tambm espero que sim.
      -  claro que quer, insistiu Selena, seno no teria lhe telefonado nem combinado de ir a.
      - Espero que voc tenha razo, Selena.
      - Pra ser sincera, Tnia, ultimamente tenho dado alguns foras, numa poro de situaes. Mas nisso tenho certeza de que estou com a razo.
      - Est tendo algum problema? quis saber Tnia, dando uma dica para a garota se abrir.
      Selena hesitou uns instantes, mas depois de pensar um pouco acabou se convencendo de que Tnia poderia ajud-la a enxergar tudo pela perspectiva correta.
      - Como  que a gente sabe se est obcecada com algum ou algo?
      Tnia ficou em silncio por alguns segundos, mas depois voltou ao dilogo.
      - Est querendo dizer que estou muito obcecada com a idia de encontrar minha me biolgica? indagou em tom defensivo.
      - No, no. Estou querendo dizer... 't bom. Vou direto ao assunto e lhe contarei tudo. Estou me referindo ao Paul. Como saber se estou enganada, pensando 
que meu relacionamento com ele  mais srio do que  na verdade? Como posso enxergar se minha comunho com Deus deteriorou pelo fato de eu estar muito envolvida 
com Paul?
      - Bom, se voc est perguntando  porque provavelmente passou dos limites mesmo.
      - timo! resmungou Selena.
      - Se no tivesse passado, no estaria achando que pode haver um problema a. Sabe,  aquela velha teoria: "Na dvida,  melhor no fazer".
      - Ento como  que se pode ter um relacionamento correto? Quero dizer, quando se gosta muito, muito, muito de um cara, como  que se faz pra no ficar toda 
envolvida com ele? Eu sempre achei que, quando se comea um relacionamento desse tipo, o melhor a fazer  ter o cuidado de no negligenciar aquilo que  importante 
pra ns por causa dessa pessoa. Alis, mantendo as prticas que so legais pra ns, que nos fazem bem, temos mais o que oferecer a essa outra pessoa. Se  no agimos 
assim, isto , se ficamos s querendo agradar a ela,  pouco a pouco vamos perdendo a identidade prpria, e a situao fica desequilibrada.
      Selena lembrou-se de que Amy lhe dissera que, quando comeara a namorar o Nathan, se afastara dos outros amigos e abandonara outros interesses.
      - Vou dar um exemplo, prosseguiu Tnia. Quando vim pra c, comecei a frequentar um grupo de estudo bblico pra moas, e a reunio  s quintas-feiras. Eu preciso 
participar dele pra me manter em comunho com Deus. Assim que comecei a namorar o Jeremy, ele vivia me chamando pra sair justamente na quinta, pois era quando tinha 
folga. Ele no trabalhava nesse dia nem tinha aula  noite. Mas resolvi manter o compromisso de assistir ao estudo bblico porque isso me fortalece espiritualmente. 
Alm disso, sinto que, estudando a Bblia, posso contribuir mais para o meu relacionamento com Jeremy. Est entendendo?
      - Mais ou menos. No meu caso, o Paul no est aqui. Portanto a situao no  a mesma.
      -  sim. Voc abandonou outros interesses importantes pra ficar mais tempo escrevendo para o Paul?
      Selena sabia que a resposta era "Sim". S no queria era confessar isso para a irm. O fato, porm,  que a maior parte do tempo que dedicava ao rapaz era 
a que deveria dar a Deus. Teve uma sensao dolorosamente desagradvel ao lembrar que a primeira prtica que abandonara fora a da comunho com o Senhor. Ainda estava 
encontrando tempo para fazer sua comprinhas, assistir  televiso e at dar telefonemas. Contudo nunca achava uma folga para ler a Bblia.
      - Um fator que contribui muito para o meu relacionamento com Jeremy estar dando certo, continuou Tnia antes que Selena dissesse o que pensava,  justamente 
o fato de que cada um mantm os amigos, os compromissos e as atividades prprias. E continuamos envolvidos com eles. Quando nos encontramos - o que acontece uma 
ou duas vezes por semana - temos muito o que contar um ao outro. E tambm no conversamos um com o outro todos os dias, no. Voc escreve para o Paul todos os dias?
      - Todo dia, no, replicou Selena.
      - Talvez seja bom voc reduzir isso um pouco e passar a escrever apenas uma vez por semana, gastar a umas duas horas nisso. Se vocs estivessem se encontrando, 
seria mais ou menos assim, n? Bom, pelo menos  assim comigo e o Jeremy.
      A garota reconhecia que a irm, provavelmente, tinha razo. Nos ltimos meses, no se passara um dia sem que ela tivesse dedicado vrias horas ao Paul. Ora 
estava escrevendo uma carta, ora preparando os presentes para ele, ora apenas devaneando e sonhando com o rapaz.
      - , voc tem razo, disse para Tnia. Estou comeando a enxergar alguns aspectos muito importantes desse relacionamento. Um deles  que no devo escrever 
pra ele com tanta frequncia. Preciso diminuir isso.
      - Com que frequncia ele lhe escreve?
      - Essa que  a parte mais engraada. Eu estava pensando que ele escrevia pra mim todos os dias. Estava realmente convencida disso. A papai comeou a me fazer 
umas perguntas  a respeito dessa questo e ento me dei conta de que ele escreve mais ou menos uma vez por semana ou de dez em dez dias. E as cartas dele no so 
compridas e cheias de detalhes como as minhas.
      - Pois , interveio Tnia,  assim tambm que voc deve escrever. Ser melhor que responda pra ele na mesma medida em que ele lhe escreve. Acredite em mim. 
J vi muitas amigas minhas se envolverem demais num namoro, e da a pouco a "gangorra" comeou a "pender" mais para o lado delas. Se repente, pl! L estavam elas 
cadas no cho, completamente arrasadas. E tudo porque pensaram que o namoro estava indo muito bem, quando no estava.
      - Eu no quero acabar "cada no cho" nesse meu relacionamento, comentou Selena em voz suave.
      - Entendo exatamente o que est dizendo, disse Tnia. Por experincia prpria, posso lhe dizer que a melhor maneira de manter um relacionamento com um rapaz 
dessa famlia MacKenzie  ir com pacincia.
      - , j ouvi isso, concordou a garota.
      Selena tinha conscincia de que poderia perfeitamente agir assim. Sabia ser paciente. Ela poderia reduzir as cartas. Iria passar a escrever-lhe no mesmo ritmo 
em que ele se comunicava com ela. E iria investir o tempo livre para trabalhar em outras reas de sua vida.
      - Tnia!
      - O qu?
      - Muito obrigada!
      Seguiu-se uma pausa carregada de emoo. Afinal Selena disse:
      - Eu estava mesmo precisando ouvir tudo isso que falou.
      - , e eu deveria ter me esforado pra conversar mais  voc quando estava a, comentou Tnia. Percebi que estava passando muito tempo escrevendo para o Paul 
ou ligada nele, mesmo quando estava na companhia da gente.
      - , mas no sei se naquela ocasio eu teria ouvido seus conselhos, no, replicou Selena.  como o Ronny disse. Primeiro tenho de conversar bastante sobre 
meus problemas. Quando falo sobre eles e os explico bem, tudo comea a ficar mais claro em minha mente. A estou disposta a receber orientao. Tenho certeza de 
que, no Dia de Ao de Graas, ainda no estava no ponto de escutar seus conselhos.
      - Ah, o Ronny disse isso? Gostei dele agora. E lhe deu mais algum conselho?
      Selena deu uma risadinha.
      - Ele disse, replicou, que eu era como os marshmallows que estavam na batata doce. Com o calor na dose exata, eles derreteriam direitinho. Mas com calor demais, 
a cozinha pegaria fogo.
      Tnia riu tambm.
      - , ele teve muito discernimento. Como era mesmo o lema da famlia MacKenzie, que voc me mostrou?
      O bordado estava bem do lado da garota, mas ela nem precisou ler a frase em latim. J a havia decorado.
      - Lucero non uro, disse.
      - , mas o que significa mesmo?
      Selena fez uma pausa e fitou longamente o bordado. Finalmente conseguira decifrar o grande mistrio sobre as causas do incmodo no estmago que sentira nos 
ltimos dias. E sentindo o corao acolher uma nova forma de desenvolver seu relacionamento com Paul e com outros, respondeu para a irm:
      - "Eu brilho, no queimo."
      

Captulo Dezenove
      
      Depois que Selena desligou o telefone, foi escrever no seu dirio e anotou as palavras: Lucero non uro. Olhou a data da ltima vez que fizera anotaes nele. 
Fora quase dois meses atrs. Logo abaixo dos termos em latim, escreveu uma carta para Deus, abrindo bem o corao, da mesma forma como abrira para o Paul. Pediu 
perdo a ele por t-lo ignorado nos ltimos dias e convidou-o a voltar a ocupar o centro do jardim do seu corao.
      
      Quero brilhar por ti, Senhor. No desejo que essa luz se apague. Quero que o fogo tenha a intensidade certa, dando luz, cor e energia ao meu relacionamento 
com Paul. Entretanto no quero mais exagerar e acabar incendiando tudo.
      De agora em diante, desejo que o Senhor esteja em primeiro lugar e continue sempre sendo o primeiro. Ensina-me, Pai, a agir assim. Meu corao  teu, bem como 
todas as emoes que tu criaste em mim. Peo-te que protejas minhas emoes e me impeas de extravasar tudo de uma vez s. Ensina-me a ser paciente comigo mesma 
e com os outros.
      
      E continuou escrevendo at sentir dor nos dedos. Estava sendo to bom tirar tudo aquilo da cabea! Agora a nica dor que sentia era de fome. Assim que terminou 
de escrever sua "orao"no dirio, foi para o andar de baixo. O pai estava na saleta, trabalhando no computador.
      - Est melhor? indagou ele.
      - Bem melhor. Que notcia boa a da Tnia, n?
      - , replicou o pai. S esperamos que tudo d certo e que ela no esteja com expectativas muito elevadas, fora da realidade.
      - Pai, eu acho que a Tnia sempre tem as expectativas certas com relao a todos os seus relacionamentos. Vai acabar tudo bem.
      O pai pareceu relaxar um pouco ao ouvir aquelas palavras.
      - Sabe o que mais? Voc tem razo. A Tnia sempre revelou maturidade e bom discernimento em tudo. Ela sabe tomar as decises certas.
      Selena teve vontade de dizer:
      "Ela no  como a sua outra filha, que sempre apronta a maior baguna com todos os seus relacionamentos, n?"
      Pensou em dizer, mas no disse. Lembrou-se da recomendao de Ronny, no sentido de no se censurar muito por ser sensvel e agir levada pelos sentimentos. 
Ela era assim. Acolhia tudo na vida de braos bem abertos, com um corao muito vulnervel, cheio de emoes. Dava para perceber que Tnia, com sua autodisciplina 
e controle emocional, sempre tomava decises corretas. Apesar de tudo, Selena preferia ser assim, cheia de erros e defeitos, do que igual a Tnia, com seu jeito 
racional.
      - Pai, se voc e mame tiverem uma hora disponvel amanh, poderemos ter aquela conversa.
      - timo, replicou o pai. Acho que poderemos conversar logo aps o jantar. Ah, tem trs e-mails para voc aqui.
      - Ah, ? De quem?
      - Uma mensagem e de sua amiga que est na Sua e as outras duas da Katie. Quer que eu imprima pra voc?
      - Quero, obrigada, pai.
      Selena se lembrou de que fazia vrias semanas que no escrevia para Cris e Katie. Eram duas amigas que no queria perder. Contudo no fizera nenhum esforo 
para cultivar sua amizade com elas, ao passo que estava dando uma ateno exagerada ao Paul. Recordou-se das coisas que comprara para fazer o seu chazinho. Como 
estava com pouco dinheiro para comprar outros presentes de Natal, decidiu mand-las para Cris, assim como enviara a outra caixa para o Paul. Depois teria de pensar 
num outro presente para Katie.
      Pegou os e-mails na impressora e foi para a cozinha preparar uma merendinha para si. Fez algo de que gostava muito. Pegou dois biscoitos cream cracker, esmigalhou-os 
e jogou dentro de uma caneca de loua. Colocou um pouquinho de leite, apenas o suficiente para virar uma "papa". Para enfeit-los, acrescentou um punhado de marshmallows. 
Em seguida, sentou-se  mesa da cozinha e se ps a comer e a ler os e-mails.
      O da Cris era bem curto. Dizia que estava aprendendo  muito no orfanato em Basilia, e que ela e Ted estavam se correspondendo. Lembrou-se de como a amiga 
ficara preocupada com o namoro, quando pensara em ir estudar na Europa, onde passaria um ano. O problema era que desde que conhecera o Ted ele nunca lhe escrevera 
uma carta. Recordava-se vagamente tambm a respeito de um coco que o rapaz enviara do Hava para Cris. Contudo, obviamente, no poderia ter escrito nele uma carta 
para ela. Sorriu ao se dar conta de que agora, porm, ele estava escrevendo.
      Em seguida, ocorreu-lhe que uma carta, de fato, possui uma  fora prpria toda especial. Talvez tenha sido por isso que acabara se envolvendo tanto com Paul, 
em to pouco tempo.  que nelas ambos normalmente se abriam de uma forma que no fariam se estivessem conversando cara a cara.
      Achou ento que seria bom reler todas as cartas dele, agora que tinha uma compreenso melhor de como deveria ser o relacionamento com ele. Subiu para o quarto 
levando os e-mails e a caneca com o restante de sua "papa". Abriu a primeira gaveta da cmoda, onde se encontrava toda a correspondncia dele, amarrada com uma fita. 
Atirou-se na cama, desatou a fita e se ps a reler uma por uma na ordem em que haviam chegado. Havia oito cartas e dois postais. Ela mesma escrevera o dobro disso 
para ele. Nesse momento, pensou se ele tambm as havia guardado ou se as tinha atirado no lixo assim que acabara de responder.
      A medida que as ia lendo, mais com a razo do que com o corao, percebia algo que no vira antes e que a deixou muito surpresa. Embora as palavras dele fossem 
calorosas e bem pessoais, no havia nada nelas que desse a entender que o rapaz estava se apaixonando por ela, como pensara. Dava para ver que ele gostava dela e 
se interessava por ela como pessoa. Entretanto no havia nas cartas o menor indcio de que ele se achava emocionalmente empolgado por ela, da mesma forma que ela 
estava por ele. Apesar de essa constatao ser um pouco dolorosa, constituiu tambm uma libertao para ela. Estava enxergando a verdade e se libertando. Via tambm 
que poderia continuar escrevendo para ele, poderia seguir gostando dele e at sonhar um pouco.
      Deitou-se de costas e ficou a olhar para o teto. No dava para culpar, assim de imediato, o tom das cartas que escrevera para o Paul. Ser que havia extravasado 
as emoes da maneira desarticulada como estivera fazendo ultimamente? No; lembrava-se de que muitas de suas cartas tinham um tom calmo. Outras eram recheadas de 
notcias. Ainda outras continham brincadeiras e piadinhas que fizera para ele em resposta ao que ele lhe escrevera.
      Lembrou-se novamente de que Ronny lhe dissera para no se "castigar"demasiadamente. O que estava feito, estava feito, e ela no poderia mudar. Talvez tivesse 
realmente exagerado na dose de emoo no relacionamento com Paul, mas sabia que poderia recomear de modo diferente. Iria confiar em Deus para que ele cuidasse dessa 
rea de sua vida. Poderia tambm agir de maneira mais responsvel no que dizia respeito aos seus sentimentos, cuidando para no cometer excessos. Estava esperanosa 
de poder reiniciar tudo de maneira mais correta.
      E acabou que Selena no pde ter a conversa com os pais naquela tera-feira. Eles s conseguiram ter esse encontro no domingo  tarde. Nesse intervalo, a garota 
teve tempo para resolver sozinha muitos dos dilemas relacionados com a questo.
      Numa das noites, ela pegou a sua lista de metas para o namoro e seu compromisso de pureza, o seu "credo". Fez alguns acrscimos ao que escrevera, pois compreendera 
que no bastava "se guardar" para o futuro marido apenas fisicamente. Teria de se preservar tambm emocionalmente.
      Ento, quando desceu para conversar com os pais na sala, no domingo  tarde, levou as anotaes.
      - Acho que os dois j perceberam que nos ltimos dias estou tendo algumas experincias, principiou ela. E a explicao mais simples pra isso  que Deus est 
me ensinando algumas verdades. Primeiro, quero pedir desculpas porque tive uma atitude rebelde e afirmei que j tinha idade suficiente pra tomas minhas decises. 
Agora estou vendo que a gente age melhor quando ouve os conselhos e as opinies de outros. Eu devia ter ouvido o que estavam querendo me dizer a respeito do Paul, 
em vez de cair na defensiva.
      - E o que foi que voc entendeu que queramos lhe dizer sobre o Paul? indagou o pai.
      - Achei que queriam dizer que eu estava me envolvendo demais com ele no plano emocional e que era possvel que ele no tivesse o mesmo interesse.
      Os pais acenaram que sim. Selena pegou as folhas. Sentia-se como uma jovem advogada defendendo uma causa. Em primeiro lugar, mostrou-lhes duas cartas do rapaz, 
algo que nunca fizera antes.
      - A d pra ver que ele tem interesse em se corresponder comigo, disse. Achei que devia lhes provar isso. Mas agora vejo tambm que ele no encara o nosso 
relacionamento no mesmo nvel emocional que eu.
      Aqui ela deu aos pais sua lista de metas para o namoro e seu compromisso de pureza, agora j atualizado.
      - A lio mais importante que aprendi foi que a idia de esperar e manter a pureza no se aplica apenas ao aspecto fsico, mas ao das emoes tambm. As emoes 
comeam no corao. Ento, quando a gente se envolve emocionalmente, est dando ao outro uma parte do corao, da mesma forma que o envolvimento fsico implica dar 
o corpo ao outro.
      Sentiu-se um pouco constrangida de expor esses pensamentos para os pais. Contudo esse era o nico jeito que encontrara para explicar-lhes o que Deus estava 
lhe ensinando nesses ltimos dias.
      - Acho que estou comeando a perceber que essa questo de guardar as emoes pode ser muito difcil pra mim, ao passo que no plano fsico o problema nem existe. 
Mas agora percebo que sou meio impulsiva. Parece que me deixo levar pelas emoes mais do que outras pessoas.
      - Isso  um aspecto da sua personalidade, interveio a me. Desde pequena, j era mais sensvel que seus irmos. Mas voc no precisa ter vergonha disso. Foi 
Deus que lhe deu esse nvel de sensibilidade. Isso  um dom dele.
      Selena fez que sim. Percebia que estava comeando a entender isso.
      - , mas  possvel que eu use mal esse dom, alis, qualquer outro dom, no ?
      O pai acenou que sim, movendo a cabea rapidamente vrias vezes.
      - Ento como sou uma pessoa de esprito livre, tenho de ficar mais vigilante do que a Tnia e o Wesley. Eles usam mais a razo do que os sentimentos em seus 
relacionamentos.
      - Uma atitude muito sabia, filha, disse o pai, correndo os olhos pelas folhas que ela lhe apresentara. Mas no pense que voc tambm no usa um pouco a razo. 
O que acabou de dizer mostra um bom discernimento, revela que tem maturidade.
      - Deu pra perceber tambm que j estou enxergando melhor o relacionamento com o Paul e que pretendo continuar a correspondncia com ele, mas com menos intensidade?
      - Deu, replicou a me.
      - Sem dvida nenhuma, disse o pai. Confiamos em que, daqui pra frente, voc poder conduzir tudo sozinha. Foi muito bom, filha, ter se aberto conosco. Obrigado.
      - E eu tenho de lhes agradecer por terem sido compreensivos comigo.
      Selena pegou as folhas de volta, sentindo uma doce calma envolver todo o seu ser. Geralmente seu dilogo com os pais era assim. E queria que continuasse do 
mesmo jeito.
      Voltou para o quarto levando as cartas e as folhas. Em seguida passou alguns minutos tentando arrumar a interminvel baguna do aposento. Ainda tinha de fazer 
o dever de casa e embrulhar o presente que iria enviar a Cris. Da a uma hora e meia devia se apresentar na Highland House, para trabalhar na Linha Jovem. Hoje seria 
a ltima vez que iria l antes das frias de Natal, ento sentiu que no podia faltar.
      Fez um esforo para se sentar e terminar o dever escolar. Na hora em que ia saindo para a Highland House, pegou o retrato de Paul e o colocou na mochila. No 
domingo anterior, falara dele para o Tio Mac, e este lhe pedira que o trouxesse, pois queria v-lo.
      

Captulo Vinte
      
      O cu estava carregado quando Selena saiu para ir a Highland House. Parecia que ia chover, ento ela colocou o chapeuzinho de abas viradas. Alm disso pegou 
o bordado e enfiou-o na mochila. Tinha esperana de trabalhar um pouco nele e termin-lo antes do Natal. Havia resolvido que, caso no conseguisse encerr-lo at 
essa data, faria um cartozinho manual e enviaria para o Paul. Era prefervel fazer isso a ficar procurando desesperadamente um novo presente para ele. No carto, 
iria apenas desejar-lhe boas-festas e diria que seu presente seguiria pelo correio mais tarde. Ele teria de esperar com pacincia.
      O Tio Mac j estava  porta dos fundos quando ela chegou  Highland House. Ele a abriu e a segurou para que Selena entrasse.
      - Oi! disse ela, cumprimentando-o e entrando na saleta aquecida. Como est indo o trabalho hoje?
      - Est bem, mas um pouco devagar. Hoje eu preparei esta mesinha aqui para voc.
      Tio Mac conduziu-a para um lugar no canto da sala, onde havia um telefone sobre uma mesinha redonda. Ele procurara distribuir melhor as reas de trabalho para 
que os "telefonistas" ficassem um pouco mais distantes uns dos outros e no se atrapalhassem com a voz dos colegas. Isso era meio difcil, pois o aposento no era 
muito grande. Contudo estava arrumado e tinha uma iluminao muito boa.
      - Trouxe o retrato de Paul de que lhe falei, disse a garota, colocando a mochila sobre a mesinha e abrindo-lhe o zper.
      O homem pegou o retrato e deu uma longa olhada para a imagem do sobrinho.
      - Como  que ele esta? Tem tido notcias dele?
      - Recebi uma cartinha dele pouco depois do Dia de Ao de Graas, mas era apenas meia pgina. Parece que est curtindo os estudos, mas diz que a av raciona 
muito o sistema de aquecimento da casa, e ele tem sentido muito frio.
      Tio Mac deu uma risada.
      -  minha me mesmo! exclamou. Tem um corao de ouro, mas no deixa desperdiar nada em casa, pode crer. Tudo  bem medido e bem pesado.
      Ele colocou a foto sobre a mesa que Selena estava utilizando. Deu a impresso de que aquele era um local de trabalho exclusivo da garota.
      - Sabe? L em Edimburgo j  de manh.
      Selena esperou que ele conclusse o que ia dizer, mas ele mudou de assunto.
      - Voc gosta  de ch, no ? indagou.
      Ela fez que sim, sem entender aonde ele queria chegar.
      - Volto j, disse ele.
      Saiu por uma porta lateral que dava para a cozinha da casa, que era um abrigo para os "sem-teto". Selena escutou a voz do outro voluntrio que estava de planto 
e se encontrava no outro lado da sala. Ele conversava com algum ao telefone. Apresentava os pontos que sempre usavam no dilogo com quem ligava. Eram das pginas 
azuis do manual de aconselhamento. O manual tinha umas abinhas laterais indicando o que constava  em cada grupo de pginas. Assim ficava mais fcil manuse-lo e 
encontrar o assunto desejado.
      Nas semanas em que estivera atendendo telefonemas ali, Selena fora aprendendo a lidar com os jovens que ligavam. Houve apenas uma vez em que tivera de passar 
a ligao para o Tio Mac, pois lhe parecera um pouco mais complicada. Todas as outras tinham sido simples, e as resolvera meramente seguindo as instrues do manual.
      Em dado momento, a porta se abriu e Selena olhou para l. Eram Amy e Vicki.
      - Oi! disse Vicki alegremente. Podemos conversar um pouco com voc sem lhe causar problemas?
      - Creio que sim, acudiu Selena, falando devagar. Mas se algum ligar, terei de atender ao telefone.
      - Tudo bem, replicou a amiga.
      - E ento? indagou Selena. O que h?
      - Passamos em sua casa, explicou Vicki, puxando uma cadeira e se sentando  frente dela. Seus pais disseram que voc  tinha vindo pra c e que achavam que 
no teria importncia se vissemos procur-la aqui.
      Amy tambm se sentou. At esse momento, Selena ainda no a fitara diretamente, mas agora virou-se para a colega e ficou a olh-la at que esta se virasse para 
ela.
      - Amy, disse Selena, quero lhe pedir desculpas pelo que aconteceu outro dia, quando apertei aquela corneta. No entendo como fui fazer aquilo. Me desculpe, 
't?
      A colega fitou-a direto nos olhos.
      - Tudo bem, replicou. Sua inteno era me ajudar.
      - Estou descobrindo que s vezes ajo impulsivamente, levada pela emoo, em vez de pensar bem antes de agir.
      - Todo mundo faz isso, disse Amy.
      - Ah, eu no, interveio Vicki. Ajo sempre com toda a calma... a no ser quando o Ronny est por perto. Pois ! Se menos ele notasse que eu estou por perto...
      As garotas riram. Selena soltou um suspiro e continuou:
      -, parece que tudo se resume em ter pacincia, n? O Tio Mac estava tentando me convencer disso, uns dias atrs. Sabe o que , n? Aquele texto de 1 Conntios 
13, "O amor  paciente".
      Vicki e Amy ficaram olhando para a amiga, aguardando que ela explicasse.
      - J aprendi, prosseguiu ela abaixando a voz, que preciso refrear um pouco os meus sentimentos com relao ao Paul. Preciso esperar com pacincia.
      - Bom, acho que agora  a minha vez de me abrir, disse Amy. Eu e Nathan no reatamos o namoro. Ns conversamos e resolvemos tudo, e acho que isso foi muito 
bom para os dois. Agora quero recomear a vida a partir daqui.
      Nesse ponto, ela apontou para o quadro de avisos que estava na parede e leu:
      - "Um lugar seguro para se recomear a vida."  o que quero.
      - timo! exclamou Vicki, inclinando-se para diante e pegando a foto de Paul. A gente tem mesmo de seguir em frente, principalmente no nosso relacionamento, 
de ns trs. Estamos todas em paz agora?
      Selena acenou afirmativamente e Amy fez o mesmo.
      - Que retrato excelente! disse Vicki, olhando-o mais de perto. Com pacincia ou no, ele vai adorar sua foto naquele vestido verde.
      - Ei, eu no lhe contei, no? As fotos que tirei com o vestido no ficaram boas, no. Acabei mandando pra ele uma que minha me bateu quando eu tinha acabado 
de dar gua para o cachorro.
      - Muito romntico! comentou Vicki, rindo.
      - No sei por que esqueci de contar isso pra vocs. O cara l do foto gostou tanto do retrato que pediu uma cpia dele pra pr na vitrina; e pagou por ela.
      - E como foi que voc saiu nela? indagou Amy, pegando o retrato de Paul na mo de Vicki e examinando-o tambm.
      Selena olhou para a suter larga que estava usando e virou as abas do chapu para cima fitando as amigas.
      - Bem assim, replicou. Sa exatamente como sou.
      Tio Mac entrou trazendo uma caneca de ch para Selena.
      - , parece que fiz pouco ch, disse. As duas aceitam um chazinho tambm?
      - Claro, obrigada, disse Vicki, respondendo pelas duas.
      O Tio Mac saiu de novo. Nesse instante o telefone tocou, sobressaltando Selena. Na segunda vez que a campainha soou, ela atendeu. Vicki e Amy fizeram gestos 
avisando que ficariam em silncio.
      - Linha Jovem da Highland House. Selena falando.
      Aps uma frao de segundo de espera, ela ouviu uma voz masculina no outro lado da linha.
      - Ah ? Agora  Selena. Pensei que era a "princesa dos lrios"!
      A garota teve a sensao de que seu corao havia parado. As amigas notaram a mudana na expresso do seu rosto e se inclinaram para ela. Quando a garota finalmente 
conseguiu se refazer do espanto, sussurrou:
      - Paul?
      Vicki e Amy abriram a boca surpresas.
      - S posso conversar trs minutos, disse ele. Ento vou falar depressa. Muito obrigado pelo presente. Estou com seu retrato bem aqui na minha frente. Est 
igualzinho a voc, Selena.
      - Oh, que... que engraado! disse ela, gaguejando um pouco. Tambm estou com sua foto aqui. Trouxe-a pra mostrar ao Tio Mac, concluiu, pegando o retrato e 
pondo-se a olh-lo, ao mesmo tempo em que o escutava.
      - E os docinhos que enviou, vou com-los hoje mesmo com muita satisfao. Foi uma idia muito criativa. Obrigado!
      - De nada! Que bom que gostou! Parabns pelo seu aniversrio. Desejo-lhe muitas alegrias nesse dia.
      - Obrigado. Terei. D um abrao a no Tio Mac por mim, o,k.?
      - Dou sim, respondeu Selena. Ele deu uma saidinha aqui, mas estvamos falando de voc. Sua orelha queimou?
      Paul deu uma risada. Parecia contente, feliz e, ao mesmo tempo, um pouco gozador.
      - Aqui na casa da minha av ainda no amanheceu completamente, mas pode acreditar, no tem nada queimando.
      Selena riu tambm.
      - Ela ainda est racionando o sistema de aquecimento, n?
      - S vou dizer que estou esperando ansiosamente a hora de fazer minha corrida pra ir pegar o trem. Vou ficar mais quente l fora, correndo, do que aqui dentro.
      A garota sorriu, mas no disse nada para preencher o silncio que se seguiu.
      - Bom, prosseguiu Paul, os trs minutos esto quase acabando e no posso esquecer da razo pela qual estou ligando pra voc. Quero lhe pedir um favor.
      - Pois no, disse Selena.
      -  que voc ore por mim est semana. Tenho umas provas e tambm preciso tomar umas decises importantes sobre meu futuro. Voc  a minha guerreira de orao. 
Ser que pode orar, Selena?
      - Claro! replicou a garota.
      - timo! exclamou ele, parecendo ter ficado aliviado. Tenho de desligar agora. Obrigado, Selena! Depois que terminar as provas, escrevo pra voc. Tchau!
      E em seguida desligou.
      A garota sentiu um aperto no corao. Em sua mente ainda ecoavam as palavras dele: Voc  a minha guerreira de orao. Ele poderia ter dito: "Voc  a minha 
namorada distante", ou "minha alma gmea", ou "minha querida amiga", ou qualquer outra frase que ela poderia ter imaginado. Contudo no disse. No momento, ela era 
o que sempre fora desde o incio, a intercessora de Paul, a guerreira de orao.
      E isso era muito bom. Na verdade, nada mudara durante o perodo em que estivera com as emoes agitadas, imaginando o que ela e o rapaz eram um para o outro. 
Nesse momento, se deu conta de que, enquanto estivera "sonhando" a respeito de Paul, quase no orara por ele.
      - Selena? disse Vicki, passando a mo devagar diante do rosto da amiga, que estava com o olhar fixo, pensando.
      O telefone, ainda na mo da garota, emitia o sinal caracterstico de aparelho desligado.
      - Era o Paul mesmo? Ele ligou da Esccia?
      Selena piscou. Recolocou o fone no gancho e fez que sim.
      - O que foi que ele disse? quis saber Amy, inclinando-se para ela.
      - Ele recebeu meu retrato e parece que gostou.
      - timo! comentou Vicki. Que mais?
      - Pediu pra eu orar por ele.
      Amy se endireitou, parecendo meio frustrada com a resposta da colega.
      - Disse que sou sua guerreira de orao.
      Nesse instante, ela teve uma sensao maravilhosa. Sentiu paz e uma profunda satisfao. As ondas de emoo que vinha experimentando ultimamente se acalmaram 
dentro dela. A orao que faria em favor de Paul, partindo de um corao puro, iriam atravessar as pesadas nuvens emocionais que a envolviam e chegariam ao trono 
de Deus. E ele atenderia suas peties. Tinha certeza disso.
      - Foi s isso? indagou Vicki. No disse mais nada?
      - No, replicou Selena. Foi s isso.
      Em seguida, fitou o retrato de Paul com um brilho diferente no olhar e um sorriso no rosto. E concluiu:
      - Mas por agora, isso basta.
      
Fim



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